TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

31 março 2009

O Céu e o Inferno

Hell-Bosch



The Creation of Adam-c.1510
Michelangelo


Outro dia ouvi uma estorinha que dizia que o Céu e o Inferno são iguais...
Em ambos há um enorme caldeirão com alimento, enorme mesmo, suficiente para saciar a todos. Dentro dele estão colocadas imensas colheres de pau, com os cabos beeeeeem compridos para que se possa alcançar o alimento.
No Inferno todos se aglomeram e, passando uns por cima dos outros pegam as colheres e tentam enfiá-las na própria boca...Sem sucesso, pois os cabos são muito compridos e as tentativas acabam fazendo com que todo seu conteúdo se perca.
Já no Céu, calmamente as pessoas se aproximam do caldeirão, pegam as colheres de pau e, num movimento muito simples, levam-na em direção à boca de outra pessoa, o que é realizado facilmente, pois os cabos são beeeeeem compridos. Assim, todos se alimentam, um ao outro e ficam saciados.
Não estou falando daquele céu e inferno para onde alguns acreditam que iremos após a vida terrena, conforme tenhamos sido bons ou maus aqui. Não é preciso ir tão longe!
Trago para essa vida, a que percorremos agora, a simbologia dessa estorinha quase infantil.
Porque não é senão isso o que vemos e fazemos e somos estimulados a fazer aqui, num mundo que cresce na mesma medida em que se destrói. Atropelar nossos iguais.
Temos que ser escravos ouvi, tambem, dia desses...Escravos de nossos desejos, do egoísmo de atender apenas a nós mesmos. De sermos impacientes e desrespeitosos com o outro. De nos lançarmos uns por cima dos outros, cegos e perdidos, carentes e vaidosos na ânsia de saciar apenas nossa inesgotável fome! De poder, de posse, de negação a qualquer essência verdadeiramente generosa que o homem possa ter.
Insaciável essa fome! Pois mantemos as colheres imeeensas voltadas para nossas próprias bocas vorazes. E insistimos, com justificativas cada vez mais mediocremente enredadas em nossa pretensão.
É uma questão de escolha, esse nosso "estar no mundo". Podemos dizer que sim.
Talvez seja necessário ser mais corajoso para virar a colher em direção ao outro. Talvez tenhamos que perder o medo...O medo de perder.
Uma escolha em relação à qual temos total liberdade e devemos, se quisermos ser tratados como homens de verdade, assumir a responsabilidade por ela, seja qual for.
Aqui mesmo, nesta vida, dia após dia...
Onde a cada infalível amanhecer temos um novo começo, uma nova oportunidade de ver, enxergar algo mais, alem do "si mesmo".
E como cada componente da natureza- ali, em seu lugar- placidamente coexistir em harmonia...
E em paz!


Denise Alves de Toledo

30 março 2009

Carta A Uma Menina Meiga


Fotos: ...

Olá, querida, como vão as coisas?
Gostaria de estar mais perto de ti, mas não é possível.
As coisas são assim.
Espero que estejas se sentindo forte e liberta, ainda que os danos sejam grandes e na prática nada se resolva tão facilmente. Na real. Que estejas conectada a ela.
Que tenhas a calma que tanto buscas, não querendo agir errado.O que sempre te digo...Não agir errado!
Querendo fazê-lo quando é impossível ...
Como um kamikase que põe um ponto final e se priva de ver o resultado.
Eu te entendo, sim, mas gostaria de poder estar mais contigo, muito pra te dizer!
Tu és uma menina que busca teu caminho...Isto é precioso, quero muito que consigas, capaz eu sei que és!
Queria que compreendesses...Nada é mágico nem tão aterrorizante.
Talvez seja mais simples, esperar menos pode te tornar maior!
Às vezes podes querer fazer tudo e de repente sentir-se fazendo nada, ou tudo errado.
Busque a estabilidade, a que é apenas tua e está aí dentro, ninguem senão tu poderás alcançá-la!
Algo que te tire do carrossel...
Não é bom ou ruim, tudo ou nada, a vida não é tão exigente assim.
Menos é mais ao longo do tempo, creia!
Sei que és valiosa.
Queria ter te conhecido quando eu era mais jovem...Quando ainda precisava afirmar com veemência minhas verdades, como se assim eu as legitimasse.
Mas não vou lamentar, talvez eu tenha te deixado uma boa semente.
Assim como deixaste em mim!
E a vida é isso, aprender a alimentar as coisas boas que temos e as que recebemos dos outros...Sempre tem.
Mande-me notícias, assim que for possível!
Me conte como está a tua meiguice, se cuidas bem dela...Se ainda emana dos teus gestos, da tua fala, "si tu sonrisa sigue siendo brillante"!
Pois se não a abandonaste em alguma curva, julgando não mais te servir, então sei que tudo poderá ficar bem.
E ficará, estarei aqui torcendo!
Fique com Deus, que tu o encontres finalmente, num dia em que estiveres admirando o nascer do sol.
Verás como tudo pode ficar claro num lampejo.E não mais escurecer...


Denise Alves de Toledo

29 março 2009

O Sorriso Mágico





Trabalhinhos sorridentes de Pedro e
Iago de Toledo Nascimento













Não é qualquer sorriso.
É um brilho que emana e expande em aura
Uma força que captura o incauto
Contaminando-o com a cura
Contra a qual não há resistencia, irresistível que é
Em que o ar alegremente se ocupa de cores
A linguagem não se faz presente, retira-se em silencio
Apresenta-se o etéreo, a impalpável existência!
E o espaço se faz doce, cálido e acolhedor
Um momento, não mais é necessário
Para renovar o que se sente, do ar receber o frescor
Inundar de gratidão o afortunado
Que pôde e soube experimentá-lo e aceitá-lo
Fazendo-se receptivo e simples, apenas
Sem pensar que não mais será o mesmo...
Sem saber que foi um anjo que ali baixou
Oferecendo um presente suave e intenso
Que é mágico porque efêmero
Poderoso porque transformador
E único, pois não é qualquer sorriso!
Apenas esse sorriso...
Que se abre a que esse anjo se aproxime
Com a única intenção de dar e conter
Dispondo-se a que num instante, irreversivelmente
Tudo venha a se converter na mais pura...Luz!
OBRIGADA.

Para Rodrigo, por
Denise Alves de Toledo

25 março 2009

O céu do Futuro

"When the Moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with mars
Then peace will guide the planets
And Love will steer the stars."
trecho do Musical "Hair"-Broadway,1968.








Desde pequena gosto de olhar o céu
Sempre imaginei a que distâncias poderia chegar se por lá fosse passear
O tempo parecia materializar-se na luz - azul ou branca de dia, escura e densa à noite
Como se aquela visão abrangesse tudo que existiu e ainda existirá
Como se nada se movimentasse, aquela fosse a configuração da eternidade
Era um volume sem peso, um infinito numa imagem
Dava a sensação de perda da forma, da inutilidade de se haver forma
E me levava ao futuro ver aquele céu do passado
Um futuro distante que ficava imaginando onde estaria...
Atrás do brilho da última estrela que conseguia enxergar?
Era pra onde o sol ia quando se escondia no horizonte?
E depois voltava?
O tempo...Como entender esse senhor da existência
Que impera no céu, abriga o acaso, o caos, o ontem e o amanhã?
E aquele silêncio...Sugeria que as respostas deveriam ser minhas
Tudo permaneceria lá e eu daqui deveria compreender
E reconhecer e buscar e encontrar
O futuro ali representado desde sempre
Sem que eu pudesse ainda alcançar
Menina, esperava chegar
Naquela composição perfeita e desconhecida
Eu sabia que teria que penetrar
Em meio ao azul, à luz da lua, à incandescência do sol...
E do futuro fazer parte...Num tempo que não existia
Alem do que via então!


Denise Alves de Toledo

24 março 2009

Crônica do vasto mundo
























Aos cinco anos ela foi largada na linha do trem, apenas com uma trouxinha na cabeça.
No meio do nada, na imensidão seca de algum sertão do nordeste.
Caminhou em busca do que julgava ser sua única referência, a casa do pai que mal conhecia.
Nunca mais parou de caminhar.
Aos dez, depois de já haver passado por várias moradas em que almas caridosas dela se apiedavam, foi acolhida como esposa por um rapaz de uns vinte anos, que a tirara do bordel em que era mantida como protegida sem precisar exercer o ofício.
Instalou-a num quartinho na casa da mãe, de onde ela quase não saía durante as longas ausências do seu homem. Não sabia o que ele fazia, não perguntava, não reclamava. Nada lhe faltava ali...
Era feliz, porque quando voltava ele era carinhoso e cuidava dela.
Uma noite, véspera de outra viagem do companheiro, sentiu-se mal sem saber porque.
Uma angústia, um aperto no peito lhe dizendo que dessa vez ele não voltaria...
Não voltou...A polícia veio avisar, dias depois, que ele havia sido morto com alguns tiros, lá na capital.
Ela, então, pegou a trouxinha e foi embora mais uma vez.
Agora feita mulher.
Prosseguiu caminhando, à mercê do destino, sabendo apenas que deveria ir, não importava muito pra onde.
A vida era isso, não havia o que controlar ou esperar. Era o mundão.
Não temia.
Ia.
Teve outros homens, se apaixonou, ficou 'cega', quase matou .
Teve filhos, sem querer, sem poder, alguns deixou pelo caminho....
Trabalhou, trabalhou, sequer aprendeu a ler.
De vez em quando dava um negócio e ela ia atrás da mãe! Ficava uns poucos dias e já dava comichão de ir embora...Não se dava com a mãe. Não suportava estar muito tempo confrontando aquele sentimento de rejeição, aquela certeza de que não era amada.
Quando a conheci percebi logo seu carisma. E sua inteligência. E seu coração!
Daquela figura franzina de feições marcadas pelas estradas poeirentas emanava força e suavidade, coragem e leveza! Que olhar afiado e brilhante!
Não pude deixar de imaginar que se ela tivesse uma compleição digamos, mais forte, teria se tornado truculenta. Não combinaria com ela.
Seu andar revela sua humildade, sua altivez denota que é orgulhosa, provavelmente por saber que já fez muito em ter sobrevivido.
Mais do que isso, de ter conseguido manter o sorriso para a vida.
Por ter sabido transformar alguma migalha de afeto que recebeu em capacidade de dar.
De estar no mundo com amor, com gratidão.
Não um amor zeloso por família e filhos, não em uma relação de amor bem sucedida, que aliás nunca teve.
Mais do que isso, um estar generoso no mundo, em que não vê as pessoas como ameaça, mas se lança a elas de coração aberto.
Porque foi jogada fora literalmente e se viu só. E descobriu que tinha um coração! E em sua sabedoria instintiva decidiu usá-lo como arma, resolveu lutar a favor e não contra!
E se aliou ao vasto mundo. E o percorre com genuína alegria!
E já decidiu que eu vou ensiná-la a ler e escrever. Seu sonho!
Eu que não me atrevo a dizer não...
Nunca mais amou um homem de verdade, depois daquele que a resgatou, lhe protegeu e lhe deu carinho sem pedir nada em troca, que a amava, com quem se tornou precocemente mulher e que se foi...Sem querer.
Em seus dias de aflição, em que todas as suas dores teimam em vir de uma vez como um furacão carregando toda sua história, ela me conta que é a foto dele que pega em suas mãos para lhe dar forças.
Então se acalma. E adormece.
Pra no dia que ainda não nasceu recomeçar a caminhada. Porque ela não pode parar.
Nunca vai...

Denise Alves de Toledo
 
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