TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

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18 janeiro 2011

Escrita Automática III - Criativo + Receptivo



o aroma exalava de maneira incomum e eu achei engraçado pois você não mais estava aqui eu havia lhe dito lhe mostrado com toda suavidade e nebulosidade que é minha especialidade que não não mais haveria possiblidade não mais teríamos a sanidade desejada que havíamos conseguido manter até então as palavras os olhares as influências em cima de você que é tão frágil suscetível e tão por isso atrai o perigo certamente eu não iria querer controlar o fundamento de nós dois juntos e seu valor mais exato que era a impermeabilidade ao externo a segurança plena na individualidade trabalhada e no entrosamento conquistado com tanta abertura interna e tanta intenção de verdade que não seria tolerável provocar resistência quando esse equilíbrio fosse ameaçado todo o sentido do que conquistamos se perderia então num sabor diferente do que estávamos acostumados a sentir juntos e isso era algo que eu não queria sempre foi sabido que eu não aceitaria apesar de nunca termos falado você me chegou na condição única para que houvesse um encontro enorme profundo estável numa nova ordem qualquer modo de ser que não cabia nisso estava fora de cogitação para mim você desde cedo soube e eu nunca desejei realizar nenhum movimento por você do mesmo jeito que nunca quis fazer nada em teu lugar cada um fazia seu trabalho pessoal e aí permanecíamos unidos e os estímulos dos sentidos que juntos experimentávamos ampliávamos eram refinados eram densos como nós somos e nos permitiam sorver sem receios ou medos porque estávamos inteiros cada um em sua busca éramos dois não um que quando se juntavam criavam novas possibilidades de mútua compreensão e cumplicidade o que me fez ver que uma certa experiência que nos é dada poucas vezes na vida tem sua realização plena de acordo com a maneira com que as coisas começam os inícios precisam conter a verdade sem artifícios para que possam se desenvolver sem as insanidades que destroem enganam dissimulam e acabam por esvaziar mais cedo ou mais tarde tudo o que nunca teve sentido mesmo afinal apodrece muitas vezes sem que se admita que nunca tenha sido diferente talvez em outro lugar tenha sido colocada a podridão mas ela sempre esteve lá na raiz no concentrado de cor fake por isso entendo que o cheiro que algumas vezes invade o ar do quarto em que me encontro feliz e só mas que tantas e tantas vezes compartilhou do perfume resultante da alquimia ousada na qual nos aventuramos honestos se faz presente para de tempos em tempos reforçar a convicção de que uma relação pode ser verdadeira mais para quem pode do que para quem quer assim como a loucura tão poderosa quando traduz-se em criação .




Obras de Arthur Bispo do Rosário

02 outubro 2009

Escrita Automática II - Tranquilidade é Dentro






Munch



























Rodin

Do Delírio, do Onírico, do Inconsciente, a essencia.

Como peixe preso na rede esperneava como animal enjaulado urrava silencioso como bandido no irremediável flagrante tentava fugir então os gestos saíam desproporcionais exagerados e o descompasso da voz delatava a emoção e era isso aí estava a origem do descontrole não sabia sentir e todo o esforço para controlar racionalizar a compreensão explodia em ira desespero e confusão a emoção o desorientava e emergia então justificando-se em seu pavor a obssessão em desviar para o intelecto a irracionalidade que o dominava simplesmente não sabia fazer de outro jeito não suportava ser e tudo que o atingisse como possibilidade suave estilhaçava sua couraça e quando era tocado pelo sopro que chega em ondas harmoniosas despertando seu ser dormente a reação era desproporcional ao pequeno e leve estímulo como fagulha que detona a explosão e bastava um olhar ou esboço de palavra que o atingisse em seu medo de delicadeza pois despertava o que em seu pensamento equivocado era sua fraqueza ele desintegrava-se por dentro desconectando-o por fora o que parecia um simples desajeitamento revelava-se completo desequilibrio entre o mental e o físico entre a alma e o corpo o animal e o homem
De
sin
te
gra ç
ão
Levando à ação desconexa que externava através de socos no ar ou em si mesmo tremores tensão nos lábios gestos bruscos dentes cerrados prontos a morder não não era uma ação impulsiva qualquer mas uma pane geral em que os ponteiros ficam rodando para todos os lados ao mesmo tempo não mais cumprindo suas funções de indicar horas minutos segundos certamente se não fosse tão fragmentado poderia ter se transformado em um assassino mas nem isso pois sentia-se antes acuado sempre como se fosse ser atingido com violencia e conter sua propria violencia era a sua resposta ao desespero e o olho saltava em enormes globos de pupilas que de tão assustadas se tornavam assustadoras e essa perda de controle de seu corpo exaurido pela contenção apenas servia desgaste absurdo para nada para evidenciar que tudo absolutamente tudo nele se passava dentro e agora tudo exposto tão vulnerável e por mais que tentasse lutasse contorcesse distorcesse não conseguia transformar em tranquilidade todo aquele sentimento pura dor que destruíra sua alma e que deixara cristalizar-se assim a calma que julgava conseguir aparentar e que na verdade era um torpor que manifestava como resultado desse esforço quase monstruoso em ludibriar a si mesmo caía por terra com peso de chumbo apesar de que normalmente paralisava como falencia do controle da reação que sabia ser vulneravel à qualquer ameaça mas o perigo se dava mesmo quando frente a um estímulo suave porem certeiro tudo podia entrar em total descompasso deixando-o nu e transparente e isso era como seu fim pois o fato é que definitivamente não havia lugar para tranquilidade ali lá onde ele era ou deveria ser ou ter sido havia se perdido em algum lugar que sabia não mais encontraria restando-lhe ser um espectro de ser para não ser de todo mau porem é indiscutível que tranquilidade é dentro ou então é emoção contida ou pior ainda é ausencia de emoção ali e apesar de toda a cena aqui des-configurada fica evidente o quanto é inútil tentar dissimular à luz de certos olhos...
Denise Alves de Toledo



06 abril 2009

Escrita Automática I


















AGUILAR - Os 365 Dias - 1989 (Vidro)






















AGUILAR - Il Paradiso - 1986


A "escrita automática" é uma proposta que surgiu nos primórdios da Psicanálise, parte do 'automatismo psíquico', através do qual expressa-se o processo real do pensamento, seja verbalmente, por escrito ou por qualquer outro meio. O escritor surrealista André Breton chamava de 'texto puro', sem reflexão, concentração ou qualquer correção, o 'poema surgido do inconsciente'...Definia a técnica como 'o traço fundamental do surrealismo',o "...ditado do pensamento, na ausencia de todo controle exercido pela razão e de toda preocupação estética ou moral..."
Afirmava que o sonho tem realidade objetiva e exerce sua influencia na realidade consciente objetiva.
Se para Freud o sonho consiste num conteúdo inconsciente que assume formas do mundo da experiencia, para Breton o sonho é a própria experiencia.

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O sonho que sonhei me deu medo quando acordei não estava mais lá não sei de onde vinha nem sabia onde estava o suor escorria e precisava saber se você estava bem mais uma vez levantei tonta sem poder chegar à sala estava escuro pensei em voltar mas precisava ver mas mal podia andar tentei de novo pensar já não conseguia era algo que não podia decifrar que via acontecer e que tinha dor não tinha lógica era rápido tinha um som surdo e seco e tinha cores escuras eu ali sem poder me mexer o ar faltava procurava chegar ao telefone não podia quase caía e me segurava no batente da porta que parecia torta porque tudo girava o chão já não chegava parei por um instante fechei os olhos quis imaginar que tinha acordado e que tudo não havia passado de um sonho ruim abri os olhos estava tudo turvo e cheio de bolinhas que piscavam não podia enxergar bebi um pouco d'água achei bom tambem jogar no rosto despertei um pouco mas o frio na barriga não passava resolvi sentar tremia e a cabeça não pensava só o corpo sentia aquela certeza que não podia haver porque nada podia ter acontecido a você e não ia sossegar enquanto não ouvisse a tua voz dizendo que tudo estava bem que foi só imaginação do meu sono mesmo sabendo que não era e eu iria te dizer então que não compreendia o que era aquela sensação pois aconteceu num sonho e os sonhos são indecifráveis quando não se encontra um contexto e eu não via ali nenhum contexto nas imagens misturadas e desfocadas na verdade nem havia imagens era um não sei o quê apertando meu estômago para ver se saía pela boca que ligação mais estranha essa em que sempre que algo de ruim te acontecia eu precisava prever sem poder avisar precisava sofrer sem poder evitar pra que serviria então se não fosse só pra me atazanar porque não podia ter um sonho bom enquanto algo de ruim te acontecesse já que não tinha outra função senão a de me machucar antes de machucar você como se eu tivesse fadada a sentir tua dor e pior antes de você se pelo menos servisse para diminuir a tua mas não não alterava nada pois fatalmente eu teria a noticia logo depois de que nada estava bem e eu teria que ficar bem para que pudesse ajudá-lo pois simplesmente não podia conceber que você não estivesse então tratava de me refazer e levantar pra te resgatar e te trazer para perto de mim e preservar-te de tudo que pudesse te fazer mal por isso sabia que o melhor mesmo seria nunca ficar longe de mim porque os sonhos que eu tinha pra me avisar eram pesadelos e quase tiravam a força que eu precisava ter pra cuidar de você e a grande verdade é que só posso te proteger para que fique protegida então quando você abria a porta antes de entrar eu já sabia nos teus olhos me mostrava tentava esconder mas mais uma vez eu percebia o quanto estava assustado e ao me mostrar tuas mãos eu já sabia elas estavam cheias de sangue e tudo que esperava era que eu umedecesse uma toalha e as limpasse para que mais uma vez pudesse me abraçar e naquele momento só então e só ali poder acreditar que quem sabe um dia iria me libertar...


Denise Alves de Toledo
 
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