TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

23 abril 2009

Valentina





A "abusadora"!
Cuidado com ela...











Quadrinhos de Crepax - Valentina


Vivenciei hoje um exemplo clássico de sincronicidade. A saber, não entendo a sincronicidade como 'mágica do universo' a meu favor mas sim como uma possibilidade do inconsciente de dar significado ao fato de dois eventos ocorrerem ao mesmo tempo, de maneira aleatória.
Há alguns dias me veio à cabeça criar uma estória em que um bandido entrava em minha casa, onde instalava-se por um período e eu, habilidosamente revertia a situação transformando-o em meu escravo. Não propriamente sexual, se bem que poderia ter pensado nisso se ao descrevê-lo fisicamente ele correspondesse exatamente ao 'meu tipo'. E no quesito "fantasia" sabe-se que as mulheres são insuperáveis! Ao contrário de seus pares, os homens, não encontram em cada esquina o que lhes apraz.Tem que ser deus grego o idealizado, perfeição dos pés à cabeça; um músculo fora do lugar, um ombrinho tímido, um sorriso mal dado, um glúteo mais tristinho e chocho podem pôr tudo a perder. Assim é que é!
Pois bem, como meu tempo para escrever é curto ocorre que nem deu pra completar a estoria na minha imaginação e...
Aconteceu de verdade!!! De um jeito tão inusitado que achei melhor comentar aqui a realidade, apenas, economizando minha criatividade.
Chamo-a de Valentina, pois penso que a moça em questão merece o nome dessa personagem tão delirante, sedutora e um tanto sado-masoquista criada pelo sensacional arquiteto e ilustrador italiano Guido Crepax.
Aconteceu na Rússia, país pelo qual tenho especial simpatia, não só por sempre ter tendido à esquerda politicamente mas pelo seu povo, caloroso e receptivo num país tão frio. Há um forte machismo, é claro, na cultura russa- uma das mais diversificadas do mundo, aliás, com sua historia de czares da monarquia absolutista e do catolicismo ortodoxo- mas as mulheres sempre passam algo de poderoso no quesito sedução, quando são bonitas são MUITO bonitas, ainda que não exatamente nos padrões ocidentais de beleza.
Bem, de qualquer forma, há uns dois dias um 'bandido'(vou chamá-lo assim, é o charme da história)invadiu o salão de beleza em que trabalhava a desavisada e pressuposta vítima, provavelmente depois de ter, no exercício de sua preponderante racionalidade, calculado passo a passo sua ação, na intenção de apenas se apoderar de alguns objetos, humilde que era em seus desejos.
E de repente surge Valentina, treinada em artes marciais - puxa, ele não pensou nessa possibilidade! - rende o moçoilo e o tranca numa sala, usando como arma um secador de cabelos(quer coisa mais feminina?). Mesmo sem ter planejado nada como havia feito o bandidão e fazendo jus à frase 'a ocasião faz o ladrão', Valentina resolveu roubá-lo, ou melhor, tirar dele o que lhe interessava no momento, no melhor estilo 'dominadora'.
Esperta, providenciou Viagra para não correr riscos, obrigando o 'bandido' a ingeri-lo, já que a situação havia se invertido irremediavelmente e Valentina revelou ser ela a verdadeira criminosa da história! E fez o serviço direitinho, por uns dois dias abusou sexualmente do 'bandido', deixando contundidos os órgãos sexuais do rapaz, que dali saiu direto pro hospital. Aliás,desde a criação do Viagra o que se vê são homens reclamando mais do que satisfeitos, algo como feitiço que virou contra o feiticeiro, já que as mulheres estão tirando muito mais proveito da repentinamente inesgotável virilidade de seus parceiros - coisa a cada dia mais complicada sem essa ajuda extra,dado o grau de exigência feminina, o uso de drogas, o stress do dia-a-dia e tantos outros fatores físicos/psíquicos. Caiu 'como uma luva' ao universo feminino! Apesar de ter sido criado para resolver problemas dos homens e não para proporcionar mais prazer às mulheres o que tem acontecido é uma utilização inveterada e muitas vezes proposta pelas mulheres(isso quando não dão 'escondido' aos seus pares, em meio a drinks ou suquinhos dissimulados, creia), agradecidas pela oportunidade, digamos, de atenção ao seu prazer. Há um sério risco de se tornarem vorazes demais, devoradoras em potencial que são...
Quando teve alta o bandido foi direto dar queixa daquela que, de um só golpe, munida de seu secador transformou-se de vítima em sua algoz. Violeência sexual ou atentado ao pudor, não sei bem no que foi enquadrada.
Valentina não se deu por achada e no dia seguinte tambem foi dar queixa do 'bandido' por... Tentativa de assalto!
A policia russa está confusa, sem saber distinguir qual foi o crime e quem é o criminoso no ocorrido e muito mobilizada para achar uma conclusão...
De minha parte, depois de não ter contido boas risadas pela bizarrice da coisa, fico pensando se o que mobilizou a ação de Valentina foi uma energia sexual exacerbada, talvez carência, ninfomania ou o stress da situação tenha lhe provocado o desejo de fazê-lo seu objeto, partindo de impulsos de raiva que de qualquer maneira podem estar ligados às suas particularidades sexuais.
O que é indiscutível nesse 'assalto sexual' é o significado simbólico da atitude de Valentina: os tempos mudaram irreversivelmente, a realidade mostra a cada dia, ainda que através de fatos extremos como esse que a mulher está cada vez mais de verdade ocupando espaços e desempenhando papéis antes estritamente masculinos. Já saiu-se do discurso e as teorias feministas ficaram pra trás, definitivamente.
Os homens sentem-se perdidos, sem saber se acham bom ou ruim compartilhar esse poder com aquelas que sempre estiveram sob seu dominio, em quase todos os sentidos.
Na minha opinião, mulher que sou, o mais importante é o sentido de libertação que essa mudança traz.
O que cada um fará com isso já é uma questão individual, que dará a tônica do mal ou bem que poderá causar. Provavelmente, como tudo no ser humano, um tanto dos dois.
Coletivamente não tinha como isso não acontecer no mundo como é hoje. Representa uma evolução mais do que legítima que faz jus à condição feminina, de criadora e provedora, detentora da dádiva de dar à vida outro ser humano!
Agora, prever como continuará se desenvolvendo o que ficou tanto tempo subjugado no "inconsciente coletivo", como progredirá essa abertura a vivenciar socialmente seu lado 'masculino'- seu "animus", na linguagem junguiana - quais serão seus desdobramentos no comportamento feminino é impossivel dizer. Porque dependerá, ao mesmo tempo em que é agente de mudança, da evolução da sociedade como um todo se adaptando e renovando seus valores.
Valentinas vão continuar aparecendo, certamente. E haja Viagra!
Sem violência na parada, sabe que não é má idéia?!...

Denise Alves de Toledo

16 abril 2009

Outono e o que vem depois







Folhagem - Denise Toledo






Outono -Denise Toledo

O céu está mais suave e o calor agora ameno.
Um clima de silêncio tranquilo se espalha,
inspirando à quietude e à contemplação.
Sorve-se o aroma agradável que o ar exala;
delicadamente percebe-se da existência a amplitude,
ao percorrer com os olhos o espaço que o rodeia.

A luz é clara mas não mais ofusca.
As cores, que poderiam parecer pálidas não perdem, porem, seu brilho...
Apenas acalmam, cálidas, os ânimos dos excessos.
O que se vê é uma conformação em nova ordem
de coisas, estados, nuances, mas tambem a certeza de um regresso
que o vento anuncia em sua calma passagem.

Vê-se com mais nitidez o contorno das montanhas,
que mantêm-se firmes delineando a paisagem.
Os mares de morros reafirmam os percursos
que os desvios não puderam de todo apagar.
E a estiagem se acaba, trazendo de volta a água dos rios;
naturalmente todas as coisas retomam seu curso.

O que ficou esquecido retorna a seu lugar,
reencontra no outono seu nutriente.
Para tudo que não havia ainda esgotado
sempre haverá a vontade de recomeçar!
As estações se alternam pra mostrar
que o trabalho em terra boa frutifica, cedo ou tarde.

A colheita vem generosa - a seu tempo chegará, na boa hora.
Os campos verdejam a recebê-la alegremente,
quando o sol estiver manso e a visão não mais turvar.
O que se plantou com cuidado não vai embora
como fogo que consome a mata de repente.
Fica ali como se não estivesse, germinando sem pressa.

Os dias passam, a paisagem muda, há o calor sufocante...
As chuvas chegam, o mar se ressente e de novo se acalma...
Passam as chuvas, as cores estão mais vivas e a alma renovada!
Abrindo ao olhar o que ainda está lá, não perdeu o rumo.
Agora já pronto, exalando o perfume e instigando os sentidos.
Meu pomar!
Dos frutos o sumo é doce e não sei quanto a você
mas eu vou saborear..

Denise Alves de Toledo


13 abril 2009

A Inveja é Fome do Outro. - Um Pouco de Psicanálise I

Poster -"Envy"- 1950,UK

Acho producente esclarecer que não é o objetivo deste blog discutir teoricamente os assuntos abordados. É mais um exercicio da escrita que aqui realizo, manifestando-me através de poesias, pequenos contos ou crônicas ,preferencialmente. Porem, o tema desse post me remeteu à minha formação, como forma de melhor me colocar frente a como eu o entendo.
Os adeptos de outras teorias poderão questionar a abordagem, ou se não ao menos o acharão repetitivo. Aos leigos poderá parecer complexo e maçante de se ler. De qualquer maneira é apenas um olhar sobre o tema, dirigido a quem gosta de ler e refletir, simplesmente, com abertura e imparcialidade. Usufrua, se possivel com prazer...

O mecanismo da inveja remete, como todos os sentimentos, sejam eles bons ou maus à mais remota infancia. A primeira experiencia de frustração ao perceber que o seio materno não existe em função de satisfaze-la leva a criança a querer destruí-lo, já que a pulsão primordial é narcisista e voraz. Um pouco mais tarde a vivencia do sentimento de abandono por parte da mãe não mais provedora e a constatação de que esta 'pertence' ao pai e não a ela provoca uma reação de ódio e hostilidade. Sente-se inferiorizada e se estabelece internamente uma falta, um vazio não suprido pelo objeto de afeto.
Melanie Klein a define como sendo "Um sentimento irado de que outra pessoa possui e desfruta de algo desejavel..." e o impulso que se manifesta é o de tirá-lo dela ou roubá-lo.
Freud a contextualiza no sentimento particular da "falta", com origem lá no complexo de castração que provoca a 'inveja do pênis'. No caso de meninas, ao perceberem que lhes falta "algo" podem sentir-se em desvantagem e humilhadas. No caso dos meninos a inveja seria da incapacidade de gerar filhos e amamentar.
Num processo de desenvolvimento saudável o individuo canaliza o sentimento de inveja transformando-o de forma a ver o outro como exemplo, o que propicia uma atitude positiva em ser realizador para legitimar seu valor, tendo constatado que este não existe apenas em função de suas necessidade egóicas e que poderá utilizar-se da energia contida no conflito de maneira criativa a fim de que possa ocupar plenamente seu lugar no mundo.
Quando se fica "fixado" nessa experiencia primaria estabelece-se um padrão 'reativo' de exacerbada competitividade, rivalidade e destrutividade, já que não se supera a frustração e o sentimento de inferioridade causados pelo não atendimento ao seu desejo 'egoísta' por parte do objeto de afeto original.
Deseja-se o que é do outro por não sentir-se em condições de estabelecer o que é seu.
Deseja-se possuir o outro por não poder sê-lo.
A escolha do objeto passa a não ser feita a partir de suas próprias necessidades mas sim em função da escolha dos outros. A ferida não foi cicatrizada e o individuo se mantem aprisionado no que o fez sofrer, reagindo à fragilidade estrutural da personalidade através da criação de mecanismos de defesa, em que adota padrões de comportamento distorcidos que acabam por perpetuar a dor, pois são calcados na "luta do mais fraco contra o mais forte". Desenvolve-se uma compulsão em obter qualquer coisa que se deseje, passando por cima de quem quer que seja para vencer tentando superar o sentimento de inferioridade que o acompanha.
Restringe-se a possibilidade de obtenção de prazer, desviando-a para a necessidade de posse do objeto e isto se aplica em diversas áreas da vida, já que a frustração que o move está por trás de todas as suas ações.
Tendo passado pela experiencia da inveja na infância todos os individuos podem senti-la e sentem-na, eventualmente.
Porem, ao contrario, se se adquiriu recursos num processo adequado de desenvolvimento da estrutura emocional tenderá a converte-la em admiração, por exemplo, que catalize sua capacidade de realização e aperfeiçoamento, já que por trás do sentimento de inveja existe uma auto-estima destruída pela sensação de fracasso na resolução do conflito que a originou.
Assim, pode-se utilizar a agressividade latente nesse complexo de maneira positiva e madura.
A inveja reside em lugar obscuro, onde não há confiança, mas temor de não recuperar o objeto primario perdido na infancia. Projeta-se no outro sua própria insegurança, tenta-se impor um dominio e aprisioná-lo ou destruí-lo, na tentativa de reter ou aniquilar o objeto e não mais perde-lo ou de sobrepujá-lo.
Apenas lançar um olhar corajoso para dentro de si mesmo, confrontar seus sentimentos mais condenáveis, seu lado menos atraente é que torna possivel ao individuo sair do aprisionamento em que ele mesmo se colocou.
A vaidade e o orgulho inerentes ao homem são reforçados pelas imposições trazidas pelo desenvolvimento da civilização, em que a competição, o individualismo e o sucesso a qualquer preço cada vez mais orientam as atitudes e tornam-se seus maiores 'valores'. Isso apenas o afasta do conhecimento de si mesmo, justamente de sua tão almejada individualidade, mantendo-o diluído numa ilusão de poder e força que não tem, verdadeiramente e caminhando inevitavelmente para a auto- destruição. A inscrição feita no oráculo de Delfos, na Grécia Antiga há mais de dois mil anos já apontava a premência de o homem encarar sua 'outra face', afirmando como sua única esperança de salvação o confronto com a própria vaidade: "CONHECE-TE A TI MESMO." - atribuída aos Sete Sábios,650 a.C.-550 a.C.

Denise Alves de Toledo


"É preciso ir ao fundo do ser humano; ele tem uma face linda e outra hedionda.
O ser humano só se salvará se,ao passar a mão no rosto reconhecer a sua propria hediondez."

Nelson Rodrigues

06 abril 2009

Escrita Automática I


















AGUILAR - Os 365 Dias - 1989 (Vidro)






















AGUILAR - Il Paradiso - 1986


A "escrita automática" é uma proposta que surgiu nos primórdios da Psicanálise, parte do 'automatismo psíquico', através do qual expressa-se o processo real do pensamento, seja verbalmente, por escrito ou por qualquer outro meio. O escritor surrealista André Breton chamava de 'texto puro', sem reflexão, concentração ou qualquer correção, o 'poema surgido do inconsciente'...Definia a técnica como 'o traço fundamental do surrealismo',o "...ditado do pensamento, na ausencia de todo controle exercido pela razão e de toda preocupação estética ou moral..."
Afirmava que o sonho tem realidade objetiva e exerce sua influencia na realidade consciente objetiva.
Se para Freud o sonho consiste num conteúdo inconsciente que assume formas do mundo da experiencia, para Breton o sonho é a própria experiencia.

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O sonho que sonhei me deu medo quando acordei não estava mais lá não sei de onde vinha nem sabia onde estava o suor escorria e precisava saber se você estava bem mais uma vez levantei tonta sem poder chegar à sala estava escuro pensei em voltar mas precisava ver mas mal podia andar tentei de novo pensar já não conseguia era algo que não podia decifrar que via acontecer e que tinha dor não tinha lógica era rápido tinha um som surdo e seco e tinha cores escuras eu ali sem poder me mexer o ar faltava procurava chegar ao telefone não podia quase caía e me segurava no batente da porta que parecia torta porque tudo girava o chão já não chegava parei por um instante fechei os olhos quis imaginar que tinha acordado e que tudo não havia passado de um sonho ruim abri os olhos estava tudo turvo e cheio de bolinhas que piscavam não podia enxergar bebi um pouco d'água achei bom tambem jogar no rosto despertei um pouco mas o frio na barriga não passava resolvi sentar tremia e a cabeça não pensava só o corpo sentia aquela certeza que não podia haver porque nada podia ter acontecido a você e não ia sossegar enquanto não ouvisse a tua voz dizendo que tudo estava bem que foi só imaginação do meu sono mesmo sabendo que não era e eu iria te dizer então que não compreendia o que era aquela sensação pois aconteceu num sonho e os sonhos são indecifráveis quando não se encontra um contexto e eu não via ali nenhum contexto nas imagens misturadas e desfocadas na verdade nem havia imagens era um não sei o quê apertando meu estômago para ver se saía pela boca que ligação mais estranha essa em que sempre que algo de ruim te acontecia eu precisava prever sem poder avisar precisava sofrer sem poder evitar pra que serviria então se não fosse só pra me atazanar porque não podia ter um sonho bom enquanto algo de ruim te acontecesse já que não tinha outra função senão a de me machucar antes de machucar você como se eu tivesse fadada a sentir tua dor e pior antes de você se pelo menos servisse para diminuir a tua mas não não alterava nada pois fatalmente eu teria a noticia logo depois de que nada estava bem e eu teria que ficar bem para que pudesse ajudá-lo pois simplesmente não podia conceber que você não estivesse então tratava de me refazer e levantar pra te resgatar e te trazer para perto de mim e preservar-te de tudo que pudesse te fazer mal por isso sabia que o melhor mesmo seria nunca ficar longe de mim porque os sonhos que eu tinha pra me avisar eram pesadelos e quase tiravam a força que eu precisava ter pra cuidar de você e a grande verdade é que só posso te proteger para que fique protegida então quando você abria a porta antes de entrar eu já sabia nos teus olhos me mostrava tentava esconder mas mais uma vez eu percebia o quanto estava assustado e ao me mostrar tuas mãos eu já sabia elas estavam cheias de sangue e tudo que esperava era que eu umedecesse uma toalha e as limpasse para que mais uma vez pudesse me abraçar e naquele momento só então e só ali poder acreditar que quem sabe um dia iria me libertar...


Denise Alves de Toledo

04 abril 2009

Martim



Trabalho de Denise sobre foto de Bel


Ele foi resgatado. As duas amigas discutiram muito sobre o que fazer com ele.
Uma, medrosa e tomada por um sentimento de impotencia frente à dor, queria sacrificá-lo.
A outra, teimosa e determinada, insistia em prestar atendimento...Nenhuma das duas, porem, tinha grana, o que limitava consideravelmente qualquer iniciativa em ajudá-lo.
Por insistencia da teimosa levaram-no a uma clínica 24 hs na Rebouças, perto de onde moravam.
A veterinária de plantão concordou em deixá-lo internado sem pagamento prévio. Era um bom começo.
Começo de um longo processo que culminou com a amputação de uma das patas traseiras daquele gato malhado em amarelo e branco, grande, com pelagem curta, SRD legítimo!
Não que a amiga determinada não tenha tentado evitar o procedimento mutilador! Tentou por meses cuidar da ferida, que nunca se fechava, mas não houve jeito.
A outra amiga, a medrosa, assistia a tudo incrédula! Nunca teria coragem de ficar tanto tempo em contato com tanta dor, com tanto insucesso...
Ao final de quase um ano lá estava Martim, belo e faceiro com suas três patinhas, adaptando-se aos poucos à nova condição, miando alto, agradecido pela tenacidade da pessoa que cuidou dele e que se tornou sua dona -provavelmente a primeira- e tambem pelo lar que havia recebido graças ao acidente que quase lhe custou as 7 vidas de uma vez!

A casa era povoada por muitas crianças, o que lhe dava uma movimentação que geralmente gatos odeiam. Martim não! Ficava no cantinho mais silencioso num estado de meditação constante. De vez em quando se levantava e ia à sala, aos quartos onde as pessoas estivessem, para dar um alô. Em outras, se aconchegava no sofá, sempre perto de alguem e cochilava ao som das brincadeiras, da tv alta e da alegria de vida que ali imperava!
Desde que chegou ali adquiriu um hábito de olhar bem pra cara de sua dona e ficar miando, numa conversa que certamente remetia à historinha que viveram juntos. Relembrando e confirmando como era feliz por ela ter insistido!
Ela dizia que ele não se comportava como gato, que parecia cachorro, pela comunicabilidade que tinha com ela!
Ah! Mas justamente por isso era um gato...Se precisasse ele se faria gente até, pois o que valia era estar vivo e ter um cantinho aconchegante pra dormir...Gatos dormem muuuuuito, sábios que são, uma média de 18 horas por dia!!!

Os gatos, ao contrário do que muitos pensam, fazem-se permeáveis às situações a fim de terem seu sossego garantido! É só o que querem, ainda que não tenham muito a desejada liberdade de ir e vir, precisam poder ficar tranquilos e têm uma capacidade sem igual de conseguir isso. Sobrevivem a tudo antes de chegar a sua hora!
E são econômicos, em geral! Fazem 'festinha', sim, pros seus donos, mas não dependem disso de forma alguma!
O dono que não dependa tambem...

Nenhum outro bicho doméstico sabe ao mesmo tempo respeitar e ocupar seus espaços como um gato. Em geral eles diminuem o espaço dos donos, isso é verdade, escolhendo camas e sofás inteiros pra exercerem sua plácida existencia...Mas não se incomodam de dividir esse espaço, se não tiver jeito. Vivem bem sozinhos, desde que tenham alguem disponível para se enroscar quando queiram. Eles, não você!
Ou pra simplesmente olhar pra sua cara e miar, alto e insistentemente quando querem algo diferente pra comer. Se não tiver tudo bem, nada deixa de ficar bem quando se convive com um gato.

Assim foi com Martim até que chegou sua hora...
Quando as crianças já haviam crescido e na vida já andavam com suas próprias perninhas!
Deve ter ido em paz, acompanhou como bicho boa parte da vida de uma família de gente, de seus momentos bons e ruins, de sua união, do amor que existia ali, entre todos.
Recebeu e ofereceu. Em sua irracionalidade ensinou um pouco do que é aceitação, independencia, confiança, gratidão. Nunca é demais para o ser humano confrontar-se com esses valores. Nos animais já vem pronto.
E eles se vão quando chega a hora, silenciosos e tranquilos como vieram, porque completaram seu ciclo. Naturalmente.
Sem espalhafato, em absoluta concordancia com a natureza. Completamente integrados a ela, por isso tão seguros.

Martim foi, como milhares de outros, um gato, apenas. Que sofreu a interferencia de algum ser humano cruel em seu destino e que teve a sorte de encontrar um outro, generoso, que lhe permitiu completar o ciclo como deveria ser...

E foi.

E se foi...

Deixando saudades!

Martim, você foi especial...Fez parte da história dessas pessoas e por isso não será esquecido!
Ainda que isso seja importante apenas para nós, humanos. Pra você está tudo bem, de qualquer jeito estaria...

Para Gra, Bel, Pedro Henrique, Maria Carolina e Joãozinho, o pequeno.


Denise Alves de Toledo











02 abril 2009

Um Dia Aprendemos - Veronica Shoffstall










Fotos de Mariana de Toledo Nascimento



Você aprende...
Depois de algum tempo você aprende a diferença
A sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma
E você aprende que amar não significa apoiar-se
E que companhia nem sempre significa segurança
E começa a aprender que beijos não são contratos e que presentes não são promessas
E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e com os olhos adiante
Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo
E aprende que não importa o quanto você se importe
Algumas pessoas simplesmente não se importam
E aceita que não importa o quão boa seja uma pessoa
Ela vai feri-lo de vez em quando
E você precisa perdoá-la por isso
Aprende que falar pode aliviar dores emocionais
Descobre que se leva anos para se construir confiança
E apenas segundos para destruí-la
E que você pode fazer coisas em um instante
Das quais se arrependerá pelo resto da vida
Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias
E o que importa não é o que você tem na vida
Mas quem você tem na vida...
Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida
São tomadas de você muito depressa
Por isso sempre devemos rechear as pessoas a quem amamos com palavras amorosas
Pode ser a última vez que a vejamos
Aprende que as circunstâncias e o ambiente tem influência sobre nós
Mas nós somos responsáveis por nós mesmos
Começa a aprender que não se deve comparar com os outros
Mas com o melhor que pode ser
Descobre que demora muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser
Que o tempo é curto
Aprende que não importa aonde chegou mas para onde está indo...
Aprende que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade
Pois não importa o quão delicada e frágil seja uma situação
Sempre existem dois lados!
Aprende que paciência requer muita prática
Descobre que algumas vezes a pessoa que espera que o chute quando você cai
É uma das poucas que o ajudam a levantar-se
Aprende que maturidade tem mais a ver com o tipo de experiência que se teve e o que aprendeu com elas
Do que com quantos aniversários você celebrou
Aprende que há mais de seus pais em você do que você supunha...
Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva
Mas isso não dá a você o direito de ser cruel!
Descobre que só porque alguem não o ama do jeito que você quer que ame
Não significa que esse alguem não o ama com tudo o que pode
Pois existem pessoas que nos amam
Mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso!
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguem
Algumas vezes você tem que perdoar a si mesmo
Aprende que com a mesma severidade com que você julga
Você será em algum momento condenado
Aprende que não importa em quantos pedaços o seu coração foi partido
O mundo não pára para que você o conserte
Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás
Portanto,plante seu jardim e decore sua alma
Em vez de esperar que alguem lhe traga flores
Então você aprende que realmente pode suportar
Que realmente é forte!
E que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais
E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!
Nossas dádivas são traidoras
E nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar
Se não fosse o medo de tentar.
Extraído de mensagem enviada pela amiga Eliza

Uma Vida Singela


Homem Bebendo - di Cavalcanti






















Mulata-di Cavalcanti



Sábado era dia de roda no vilarejo, como eram chamados os pequenos bailes de rua para o povo do lugar.
Rosinha não perdia, punha seu vestidinho de algodão mais florido, um pouco curto mas confortável, ajustando-se à sua cintura e decotado, sem ser vulgar.
Era pequena e seu corpo tinha as formas típicas da mestiçagem brasileira, fortes e bem delineadas.
Graciosa, penteava com apreço seu longo cabelo escuro e liso, amarrando em volta da cabeça um comprido e colorido lenço, o que deixava os traços expressivos de seu rosto ainda mais evidentes. A pele era morena, os olhos castanhos tinham um brilho dócil mas envolvente; nos lábios um batom carmim e nos pés esmalte cor de rosa, vestidos com sandálias de couro trançadas até o tornozelo. Borrifava-se com água de colônia fresca, arrastava seu Antonio e passava boa parte da noite dançando no chão de terra, ao som dos batuques das músicas regionais.
Antonio ficava, invariavelmente, sentado numa das mesinhas em frente ao boteco ali estrategicamente instalado, conversando e jogando sinuca. De vez em quando olhava Rosinha- que adorava ser admirada por ele- e nesses momentos, então, aproximava-se dele com movimentos provocantes como que a convidá-lo a se juntar a ela. E, invariavelmente, algum tempo depois ele se aproximava e os dois deixavam-se levar pelo ritmo inebriante, corpos coladinhos em movimentos sensuais e harmoniosos.
Rosinha abria um sorriso, fechava os olhos, jogava para trás a cabeça, deixando seu homem conduzir seu corpo já suado e solto...Ele a olhava e ela sorria.
Ela o amava. Não era mais tão menina, mas desde lá o amava. Esperara por ele desde quando ainda nem entendia o que era o amor, mas já o tinha escolhido para quando chegasse a hora!Ele era mais velho, já era um homem quando o viu pela primeira vez...
Achou-o lindo e prometeu a si mesma que era com ele que iria viver, um dia. Ele tinha a pele mais clara que a dela, os olhos de um negro profundo, bem como os cabelos que formavam largos cachos, os lábios carnudos e um sorriso...Ah, foi o sorriso que a cativou! Não, foi sua beleza inteira mas o sorriso que ele lhe abriu mostrou-lhe sua alma. De um jeito que ela nunca saberia explicar estampou-se no rosto daquele homem seu futuro. Um caminho que não seguiria só, depois de uma infãncia de tantas incertezas aquela era a primeira verdade. Que lhe chegava através do olhar de um homem que a chamou para si.
O chapéu que usava, invariavelmente, dava-lhe um ar jovial e ao mesmo tempo responsável. Era alto e seu corpo era forte. Ela achava suas pernas lindas, bem desenhadas que eram graças às andanças que fazia por ser ele um viajante. Os olhos denunciavam-lhe a ascendência "basca", eram amendoados e tinham uma expressão segura e confiável, nunca lhe fugiam.
Quando se viu com idade suficiente aproximou-se dele e o conquistou, atraente que era e tão certa do que queria. Antonio, a despeito de ser bastante vivido, nunca tinha encontrado alguem que lhe amasse assim, tão espontaneamente e sem exigências. Aceitou de bom grado essa moça que, desde adolescente dizia amá-lo, cuja inocência tocou -lhe o coração e cuja faceirice o encantava.
Viviam juntos surpreendendo-se com a intimidade verdadeira que construíam a cada dia, por terem aceitado um ao outro. Aventuravam-se pelo mundo, ele esculpia em madeira graciosos bonequinhos, pintava-os em alegres cores e ela o ajudava a vendê-los pelos vilarejos, sempre conhecendo gente nova em lugares diferentes. Lançavam-se e usufruíam das surpresas que a vida naturalmente trazia- num movimento que não precisavam forjar, o próprio curso do tempo ia trazendo- e ao qual se integravam com naturalidade.
E quando voltavam para casa, estavam cheios de novas bagagens...Eram os períodos de criação e produção do material que era, ao mesmo tempo sua aventura e seu sustento: bonequinhos que retratavam personagens da cultura da qual faziam parte, rica e diversificada, de raízes simples como seu universo.
Então, aos sábados iam às danças de roda onde Antonio podia contemplar a liberdade que Rosinha exalava ao dançar e se deixar levar pelo som contagiante, num ritmo e numa suavidade que o seduziam e fazia-o (ali tambem), invariavelmente, render-se a ela.Tarde da noite, às vezes já com o dia querendo aparecer, voltavam à casa. Ao entrar no quarto Antonio já sabia que, invariavelmente, Rosinha iria tirar as sandálias, o vestido e o lenço, refrescar-se no chuveiro e, exausta e tranquila, despojar-se de tudo, em silêncio aproximar-se dele e deixar que, mais uma vez, sua alma o encontrasse...Naquela singela expressão do existir que havia escolhido para si.

Denise Alves de Toledo
 
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