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Guimarães Rosa

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01 agosto 2009

A LONGA CHUVA - Ray Bradbury




A chuva continuava. Era uma chuva pesada, uma chuva perpétua, suarenta e cheia de vapor; uma catadupa, uma tromba d'água, uma fonte, um chicotear os olhos, uma ressaca, à altura dos tornozelos; era uma chuva de afogar todas as chuvas e a memória das chuvas. Vinha às libras e às toneladas, destroçava a floresta e abatia as árvores como tesoura, e podava a grama e abria túneis pelo chão e derretia os arbustos. Reduzia as mãos dos homens a mãos encarquilhadas de macacos; caía uma chuva vítrea e sólida, e não parava nunca.
- Quanto falta ainda,Tenente?
- Não sei. Uma milha, dez milhas, mil.
- Não está certo?
- Como posso estar certo?
- Não gosto dessa chuva.Se pelo menos soubéssemos a que distância está o Domo Solar, eu me sentiria melhor.
- Mais uma hora ou duas, a partir daqui.
- Mesmo, Tenente?
- Claro.
- Ou você está mentindo só pra nos animar?
- Estou tentando animá-los. E cale a boca!
Os dois homens sentaram-se sob a chuva. Atrás deles, mais dois outros, molhados e cansados, que deixaram-se cair como argila que derretia.
O tenente ergueu o olhar. Tinha um rosto que já tinha sido moreno, mas que a chuva tornara pálido, e a chuva tinha lavado a cor de seus olhos, e estavam brancos, como seus dentes, como seu cabelo. Estava todo branco. Mesmo seu uniforme estava começando a embranquecer, e talvez, meio verde, com os fungos.
O tenente sentia a chuva em suas faces. - Há quantos milhões de anos foi a última estiagem, aqui em Vênus?
- Não seja tolo - falou um dos outros dois. - Nunca pára de chover em Vênus. Apenas continua, sempre e sempre. Vivi aqui por dez anos, e nunca vi um minuto, nem mesmo um segundo em que não chovesse.
- É como viver sob a água - falou o tenente, e ergueu-se pondo as armas no lugar. - Bem, é melhor ir andando. Ainda vamos achar aquele Domo Solar.
- Ou não o encontraremos - acrescentou o cínico.
- Mais uma hora, mais ou menos.
...
Andavam em fila indiana, sem falar. Chegaram a um rio amplo, e tranquilo, e marron, que escoava para o grande Mar Único. Sua superficie estava pontilhada em um bilhão de lugares, pela chuva.
O Tenente sentiu a fria chuva em seu rosto e em seu pescoço e em seus braços, em movimento. O frio estava começando a esgueirar-se para dentro de seus pulmões. Sentia a chuva em suas orelhas, em seus olhos, em suas pernas.
- Não dormi, a noite passada - falou.
- Quem poderia? Quem dormiu? Quando? Quantas noites dormimos? Trinta noites, trinta dias ! Quem pode dormir com a chuva martelando a cabeça, golpeando continuamente...eu daria qualquer coisa por um chapéu! Qualquer coisa, que não deixe que ela fique batendo na minha cabeça. Fico com dor de cabeça. Minha cabeça dói; dói todo o tempo.
Estou arrependido de ter vindo para a China - falou um dos outros.
- É a primeira vez que ouço chamarem Vênus de China.
- Claro, China. Cura chinesa pela água. Lembra-se da velha tortura? Você fica amarrado num poste. Uma gota de água em sua cabeça a cada meia hora. Você enlouquece, esperando pela próxima gota. Bem ,Vênus é assim, mas em grande escala. não fomos feitos para água. Não pode respirar, não pode dormir, e enlouquece só por estar molhado. Se estivéssemos bem equipados para um pouso de emergencia, teríamos trazido chapéus, e uniform,es à prova d'água. É esta chuva batendo na nossa cabeça que enlouquece. É tão pesada. É que nem chumbo miúdo. Não sei quanto tempo ainda vou aguentar.
- Rapaz, não vejo a hora de chegar ao Domo Solar! O homem que os inventou, realmente fez uma grande coisa.
Cruzaram o rio, e ao cruzá-lo, pensavam no Domo Solar, em algum ponto à sua frente, brilhando, na chuva da selva. Uma casa amarela, redonda e luminosa, como o Sol. Uma casa de quarenta pés de altura e cem pés de diâmetro, onde havia calor, e silencio, e comida quente, e nada de chuva. E no centro do Domo Solar, é claro, um sol. Um pequeno globo flutuando livremente, de fogo amarelo, boiando num espaço na parte superior da construção, onde você podia olhar para ele, sentado, fumando, ou lendo um livro, ou bebendo seu chocolate quente, com marshmallow, ou bebendo alguma outra coisa. Lá estaria ele, o sol amarelo, do tamanho do sol da Terra, e era quente e permanente, e o mundo chuvoso de Vênus estaria esquecido, enquanto se ficasse lá dentro, com todo o tempo do mundo.
...

Um pouco de ficção científica, num conto do livro F de Foguete, do mesmo autor de "Farenheit 451", adaptado para o cinema por François Truffaut, em 1966.
Para 'viajar' um pouco e imaginarmos que, no final das contas, aqui na Terra AINDA está tudo bem...

Obs.: clique aqui para ler o conto completo:
http://riesemberg.blogspot.com/2009/10/chuva-ray-bradbury.html
Cheers !
 
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