TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

31 março 2010

Freud- Sobre a Morte e as Coisas Simples da Vida - Parte II


...Continuamos a conversa no escritório.


A maioria dos psicanalistas emprega o método da 'livre associação' de Freud. Eles encorajam o peciente a dizer qualquer coisa que lhes venha à cabeça, não importando o quanto o que dizem pode ser idiota, obsceno, importuno ou irrelevante. Eles não apreciam o desejo de cooperação ativa do paciente, pois têm receio que, quando descoberta a direção de sua investigação, os desejos e a resistência do paciente lutem inconscientemente para manter seus segredos, desviando o caçador psíquico da sua pista.
Freud tambem reconhece esse perigo.
"Às vezes, eu penso", disse eu, "se nós não seríamos mais felizes se conhecêssemos menos o processo que forma nossos pensamentos e emoções. A psicanálise tira o encantamento da vida, quando segue a pista de cada um dos sentimentos até os seus complexos básicos. Não ficamos felizes ao descobrir nosso lado selvagem, criminoso e animal."


Freud's psychoanalytic couch

"O que o senhor tem contra os animais?", respondeu Freud. "A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana."
"Por quê?"
"Porque os animais são muito simples. Eles não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu mecanismo intelectual e psíquico.
O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas a ele. O selvagem pode cortar a sua cabeça, comê-lo, torturá-lo, mas ele vai poupá-lo das pequenas provocações que, às vezes, tornam a vida em uma comunidade cilvilizada quase intolerável.
Os hábitos e idiossincrasias mais desagradáveis do homem, como a trapaça, a covardia e a falta de respeito, são produzidos pela sua adaptação incompleta a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura.
As emoções intensas, diretas e simples de um cachorro, ao abanar o rabo ou latir quando contrariado são muito mais agradáveis! As emoções de um cachorro", acrescentou Freud pensativo, "me fazem lembrar dos heróis da antiguidade. Talvez seja por isso que nós, inconscientemente damos aos cães nomes de heróis da antiguidade, como Aquiles ou Heitor."
"O meu próprio cachorro", interrompi, "se chama Ajax!"

Freud sorriu.

Freud e seu chow-chow
"Até mesmo o senhor, professor, acha a existência muito complexa. No entanto, me parece que o senhor mesmo é, em parte, responsável pela complexidade da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise, ninguem sabia que a personalidade era dominada por um exército beligerante de complexos bastante censuráveis. A psicanálise fez da vida um complicado quebra-cabeça."
"De jeito nenhum", respondeu Freud. A psicanálise simplifica a vida. Nós atingimos uma nova sintese depois da análise. A psicanálise cria uma nova ordem para o labirinto onde estão perdidos certos impulsos, e tenta conduzi-los para o lugar ao qual pertencem. Ou, usando outra metáfora, ela é o fio que conduz o homem para fora do labirinto do seu próprio inconsciente."
...
"Sou apenas um principiante. Consegui trazer à tona muito do que estava enterrado nas camadas mais profundas da mente. Mas, enquanto eu só descobri alguns templos, outros podem descobrir um continente."
...
"O senhor não é apenas um cientista, é tambem um poeta. A literatura americana está impregnada pela psicanálise.
"Eu sei disso", respondeu Freud, "sou grato pelo reconhecimento, mas temo pela minha própria popularidade nos Estados Unidos. O interesse dos americanos pela psicanálise não é muito profundo. A grande popularidade leva à aceitação sem uma pesquisa séria. As pessoas apenas repetem o que escutam no teatro ou lêem nos jornais. Eles pensam que compreendem a psicanálise, porque conseguem repetir os jargões!
Os americanos são generalizadores inteligentes, mas raramente são pensadores criativos. Alem disso, os médicos americanos, bem como os austríacos, tentam apropriar-se do campo. Deixar que a psicanálise permaneça somente nas mãos dos médicos será fatal para o seu desenvolvimento."

Freud precisa dizer a verdade a todo custo! Não consegue se forçar a lisonjear os Estados Unidos onde tem a maioria de seus admiradores. Não consegue, mesmo estando em desvantagem, fazer as pazes com a profissão médica, que até hoje o aceita com grande relutância.
Apesar da sua integridade inflexível, Freud é muito cortês. Ele ouve qualquer sugestão com paciência, sem jamais tentar intimidar o entrevistador. É raro um convidado partir sem algum presente, uma lembrança de sua hospitalidade!

A noite chegara.
Estava na hora de pegar o trem de volta para a cidade que um dia abrigara esplendor imperial dos Habsburgos.
"Não me faça parecer um pessimista", comentou depois do último aperto de mão.
"Eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! As flores", acrescentou ele sorrindo, "felizmente não têm personalidade ou complexidades. Adoro as minhas flores. E não sou infeliz - pelo menos, não mais do que as outras pessoas."

O apito do meu trem soou na noite. O carro me levou à estação com rapidez. Aos poucos, a figura levemente curvada e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram ao longe.

Como Édipo, Freud olhou fundo nos olhos da Esfinge. O monstro propõe seu enigma a qualquer viajante. O andarilho que não souber a resposta será cruelmente agarrado e atirado contra as rochas. Mesmo assim, ela talvez seja mais gentil com aqueles que destrói do que com os que adivinham seu segredo.





Freud - Sobre a Morte e as Coisas Simples da Vida - Parte I

Entrevista de George Sylvester Viereck, incluída no livro "A Arte da Entrevista" - Uma Antologia de 1823 a nossos dias, organizada por Fábio Altman



"Setenta anos de idade me ensinaram aceitar a vida com alegre humildade."

Quem fazia essa declaração era o Professor Sigmund Freud, o grande explorador austríaco do lado oculto da alma.
Assim como o trágico herói grego Édipo, cujo nome está tão intimamente ligado aos princípios fundamentais da psicanálise, Freud confrontou a esfinge sem receio.
Como Édipo, ele decifrou o enigma. Pelo menos, nenhum mortal chegou tão perto dos segredos do comportamento humano quanto Freud.
Freud é para a psicologia o que Galileu foi para a astronomia. É o Cristovão Colombo do inconsciente. Ele abre novas perspectivas, sonda novas profundezas. Freud alterou todas as relações na vida, decifrando o sentido oculto das regras do inconsciente.
Conversamos na casa de veraneio de Freud em Semmering, uma montanha nos Alpes Austríacos onde os vienenses elegantes adoram se reunir. A última vez que vira o pai da psicanálise ele estava em sua casa simples na capital austríaca. Os poucos anos que separavam minha última visita desta agora multiplicaram as rugas na sua testa e aumentaram sua palidez acadêmica. A mente estava viva, o espírito firme, a cortesia impecável como sempre, mas um leve problema de fala me preocupou.









Parece que uma doença maligna no maxilar superior necessitara de uma operação. Desde então, Freud usa um aparelho mecânico para facilitar a fala.
...
Nos dias em que Freud está bem, nem se percebe a presença dele. Mas, para Freud, ele é causa de constante irritação."Eu detesto meu maxilar mecânico porque a luta com o mecanismo consome uma força preciosa. Mas é melhor ter um maxilar mecânico do que nenhum. Ainda prefiro viver a morrer.
Talvez os deuses sejam generosos conosco", continuou o pai da psicanálise, "tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos, No final, a morte parece mais tolerável do que os muitos problemas que temos que enfrentar."
...
"Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta anos", continuou o mestre e pesquisador do cérebro humano.
...
"Desfrutei de muitas coisas - do companheirismo de minha esposa, dos meus filhos, do pôr do sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que me entendeu. O que mais eu posso querer?


Bavarian Sunrise - Austria

"O senhor é famoso", disse eu. "O seu trabalho influencia a literatura de todo o mundo. O homem olha para si e para a vida com olhos diferentes por sua causa..."
...
"O fato do seu nome ser lembrado não significa nada para o senhor?"
"Absolutamente nada, mesmo que ele seja lembrado, o que não é certo..."
...
Nós andávamos por um caminho do jardim da casa. Com mãos sensíveis, Freud acariciou um arbusto que florescia.
"Estou muito mais interessado nessas flores", disse ele, "do que com o que possa acontecer comigo depois que eu morrer."

Fields of Poppies - Austria


No que me diz respeito, estou muito satisfeito em saber que o eterno absurdo de viver terminará um dia. Nossa vida se resume a uma série de obrigações, uma luta sem fim entre o ego e seu ambiente. O desejo de um prolongamento excessivo da vida me parece absurdo."
...
"É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez os homens morram porque queiram morrer. Assim como o amor e o ódio pela mesma pessoa coexistam dentro de nós, a vida é uma mistura do desejo de viver com o desejo ambivalente de morrer." Biologicamente, todo ser humano, não importando a intensidade do seu desejo de viver, anseia pelo Nirvana, pelo fim da febre chamada vida, pelo seio de Abraão. O desejo pode ser disfarçado por rodeios. Entretanto, o objetivo final da vida é a própria extinção!".
Nós podemos considerar a idéia de que a morte nos chega por vontade própria. É possível que derrotássemos a morte, não fosse pelo aliado que ela tem dentro de nós mesmos."

Começou a esfriar no jardim.

Austrian Alps


continua na próxima postagem...

23 março 2010

Saudade é bom!



Mecanismo misterioso
Da memória intenção
De eternizar, manter vivo, valor da existência
Em algum lugar, segredos que permanecem
Enternece, a sua presença
Lembrança, acompanha
Vai pra longe...E volta de repente
Em detalhes, o tempo se desloca
Agora ou antes, nunca se espera

Eis algo que não se pode escolher
Vem de lá, do desconhecido
Incontrolável, inexplicável
Questionável, alguns pensam...
Não sei porque esperam tanto

Tão real, tão sincera, tão verdade de você
De vez em quando visita, dá um olá, leva um sorriso
Faz com que olhe para o céu, sem perceber e sinta
Como é vasta a existência, tanto quanto o azul que agora vê
O mesmo de ontem, e de amanhã
Porem, pouco se compreende, por querer muito
O mundo, o mundo...
O de fora é quase nada, dias ou fatos
O que traz é o que está vivo, e não está pronto
Nunca estará
Mas é o que te dá sentido, aqui estás
Pra seguir sorrindo, por que não?
Denise Alves de Toledo


"- Você viaja para rever seu passado? Ou, será
que você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco;
os outros lugares são espelhos em negativo.
O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo
O muito que não teve e o que não terá."

Ítalo Calvino


22 março 2010

O Mal, a Fonte












Life's Question - Paul Gauguin





Não adianta fingir que o mal não existe
não querer olhar pra trás, as verdadeiras amarras
entender a origem de tudo, abandonada num grão de poeira
...cósmica?
que lhe disseram pra lançar ao universo
o passado sempre volta, alguem vem lhe lembrar
desmentindo a ilusão de que o que passou, passou...
a contaminação ronda, há que se estar inteiro, atento e forte
para que o norte não se desoriente, e a fonte não apodreça

Esse oásis inesgotável, porem tênue
que o arranca da dimensão que vibra mal, que busca o mal, que faz mal
e maldiz, ainda: -Não há cura, não há para sempre...

Ah! mas há o olhar, a porta que se abre
a coragem de adentrá-la e a recompensa escondida
de onde se bebe, sem precisar saciar-se
o que se buscava foi alcançado
é o caminho, a direção, que se mostrou e foi aceita
de querer bem, ver o bem, estar bem
com a condição de estar vivo, agora e só por um breve instante
breve mas tão completo e perfeito em si mesmo
pois nele cabe tudo e é preenchido, infinitamente
com o futuro que vai se delineando, sempre e sempre...

Não desviar o olhar, uma vez conhecida a fonte
em todo lugar, em qualquer tempo ela estará lá
se encontrada não se pode mais perde-la
venha o passado, o futuro, monstros ou fadas

Nunca secará...

É agora a própria vida!
Denise Alves de Toledo



14 março 2010

The False Mirror

René Magritte



Passei por um blog meio bizarro, hoje. Seu conteúdo, que sugere um tom 'confessional'- como tantos - veio de encontro, porem, à questões que tento assimilar sobre o comportamento das pessoas em relação a seus desejos e seu 'estar no mundo'. Faço um pequeno devaneio sobre um tema que venho martelando nos últimos meses. Mais material para reflexão.

Chega a ter um quê de ridículo o quanto nos damos importância. Como somos egocêntricos! Como temos a tendência de manipular, desejo de dominar, e o quanto enganamos a nós mesmos para conseguir o que queremos! A imposição da vontade distorce o caráter, quebra valores, recebidos ou não, cria uma espécie de 'realidade paralela', truncando o curso natural das coisas.
O olhar com que buscamos e a razão que utilizamos já vêm contaminados pelas exigências do ego.

Por isso não gosto do que chamam 'auto-ajuda'. Sua proposta poderia ser uma prática enriquecedora a cada individuo, mas a manipulamos em benefício do ego, ainda que em sua essencia indique justamente esse perigo.
Vemos as coisas como queremos, e agimos com obstinação.
O ser ético, solidário e respeitoso às pessoas fica muito mais no discurso, a verdade é que cagamos e andamos para o outro. Tropeçamos, atropelamos, a fim de obter aquilo que incutimos na cabeça ser nosso direito. Na maioria das vezes direito de ter. Muitas vezes inspirados no que o outro tem. Sempre relacionado a poder. A competir, o que em Psicologia nos leva à situações vividas na infância, invariavelmente relacionadas a garantir o amor do pai/mãe.
E o que impera, o que foi por nós absorvido como sendo 'auto-ajuda' tem a ver com proposições absurdas, que podem acalentar o ego, mas não levam ao verdadeiro crescimento pessoal :
"Eu sou, eu quero, eu posso!"
Será...?
Essa e outras 'certezas' sugeridas pelos best-sellers de auto-ajuda foram lançadas e (in)devidamente assimiladas num mundo formatado pelo egoísmo humano.
E Jung afirmava, em sua profundidade, que o ego é o nosso centro, nossa base, nossa verdade, mas que seu trabalho é justamente trazer à luz as motivações inconscientes, a fim de que sejam transformadas e levem ao crescimento individual. Isso.
Na ânsia de sermos felizes a qualquer custo, o que vivenciamos é muito diferente das reflexões, palavras, orientações e orações que as mais variadas religiões ou filosofias propõem. Espiritualidade, eis o nome.
Desenvolver a compreensão de algo maior do que nós, nos dá a dimensão de nosso tamanho diante do Universo, e da Criação. E consequentemente de nosso papel na roda da vida. Sem essa percepção e consequente humildade, não é possível evoluir.
Algumas teorias de auto-ajuda falam em humildade, tambem, mas como meio para se atingir o que deseja. O objetivo final é sempre obter, ter. Sem nem prestar atenção a quem está à sua volta. Ou ser melhor, o que pode pressupor passar por cima, invadir, atravessar, se interpor à trajetória do outro. E nêgo se apodera deturpando tudo, como se os manuais dessem legitimidade a esse engano.

Isso não é espiritualidade. Mas mesmo assim as pessoas diariamente comemoram o que consideram vitórias, sem sequer questionar as atitudes que tiveram para alcançá-las. Nem o que as inspirou a lutar; às vezes, sentimentos menores escondidos sob o nome de amor, transformação, crescimento.
O que tenho aprendido desde que decidi buscar a minha espiritualidade é que se tem algo que não posso fazer é me deixar dominar por sentimentos menores. Sabemos, todos, quais são.

"É dando que se recebe..." Mais uma distorção. O significado é o mais puro e simples, como propunha São Francisco: o ato de dar já é, em si, receber, pois alimenta minha alma e meu coração. Não dou para receber ALGO em troca, necessariamente. Ao contrário, não se deve dar PARA receber...Mas é assim que entendemos, não é?

Não olhamos de verdade para o espelho. Movidos pelas necessidades de um ego eternamente insatisfeito, fixamos um falso olhar.
E passamos à margem. Sabemos disso, mas usamos de todos os artíficios para justificar nossos desatinos. Porque somos inteligentes e fazemos mau uso da razão.
Até o perdão - que dizem ser bom exercitar - é falso, pois o exercemos como um poder dado a nós mesmos, e não a algo superior.
O perdão é uma experiência profundamente espiritual, vem de um desejo pleno de reconhecer o mal que causamos, de sinceramente sermos humildes e admitirmos nosso potencial de crueldade.
Não acho que tenha poder para perdoar a ninguem, nem a mim mesma. Está em outra esfera, bem acima de mim. Posso transformar meus sentimentos ruins, isso posso. Não guardar mágoa, não alimentar rancores, me livrar da culpa e entregar (podem chamar de Universo, eu chamo de Deus) o que não posso controlar. O outro, por exemplo.

Sem ver no espelho o que ele verdadeiramente nos mostra de nós mesmos, nos resguardamos em 'verdades de almanaque', de desculpas em nome do 'amor', almas gêmeas e outros que tais...
Einstein, do alto de sua sensível genialidade, já alertava: "Gravitation is not responsible for people falling in love." Mistério...
Alem disso, em última instância, Amor não significa abrir mão de todo poder e dominação, e pode, inclusive, significar abnegação?
Mas entendemos que isso seria perder, e não somos capazes!
Enquanto isso, enquanto nos negamos a 'perder', vamos acumulando dúvidas, insegurança sobre se somos merecedores de sermos amados, se sabemos amar e perpetuamos um ciclo que começou lá atrás, quando éramos crianças, para 'ob-ter' Amor :
Desejo - Conquista - Frustração - Vazio
Quando nosso maior desafio seria só aprender a dar e receber Amor. Naturalmente.

E, cá entre nós, deixemos o Universo conspirar como quiser, já mexemos muito onde nem fomos chamados...
Denise Alves de Toledo


12 março 2010

Glauco, Geraldão e todos nós...











É porque tudo se mistura, mesmo.

Retrato de uma geração que recebeu a liberdade de bandeja, - entre o fervor dos 60 e o posterior quase nada dos 90 - parecíamos todos um só, numa São Paulo que até parecia província, pulsando inteira, da Aclimação à Vila Madalena, dos confins da Zona Norte ao Abc.

E punks encontravam a classe média, o teatro se unia ao circo, oficinas de tatoo, ateliers, intervenções, instalações nos bares, shows em galpões abandonados; convivíamos em (quase) suave anarquia.

Quem não namorou, na época, um Geraldão, quem não compôs um 'casal neuras' com alguem, em algum momento daquilo que parecia ser um começo de transformação em que as classes sociais se misturavam na linguagem comum das artes, formando um grande 'eu social' (Jung) criativo.

No Bar Bartolo, conheci os cartunistas, em papos loucos e agradáveis, - regados a Domecq no inverno - livros autografados em primeiríssima mão, privilégio sem mérito do qual usufruí e procurei absorver como boa aluna, adolescente que era.

O trabalho do Glauco, que pelo talento sedimentou seu sucesso, falava nossa língua e foi um dos que realizaram o potencial que aquela geração representava. O que aumenta sua importância.

Como todo mundo que fez parte do começo dos 80 - fase que interpreto como resultado e ao mesmo tempo precursora de transformações, talvez daí seu caráter agregador de diferenças - sou um mix dos principais personagens do Glauco.

Hoje, apesar de redimensionados pela maturidade, acho que dá pra dizer que não abandonamos aquele estilo libertário de estar no mundo...

...Até que o imponderável resolva acontecer, mostrando, afinal, que não estávamos errados em enxergar algo maior do que o individual, em vivenciar e experimentar a criação numa perspectiva de coletividade.
Pois sozinhos somos pouco, e vulneráveis demais!
Denise Alves de Toledo

P.S.: o site do Glauco na UOl é ótimo, e dentro do espírito 'todos podem fazer', até ensina a desenhar!
e vamos em frente...

11 março 2010

Minhas cores

às vezes como um esboço sem cor (obra de Jackson Pollock)



vão surgindo como música (J. Pollock )



e irrompem em explosão (Pollock)

















ou da forma clara de cor vazia



















takes me to myself (obra de Kandinski)

















cores que não se misturam













ou intensidade que expande















fragmentos (Pollock)


















que se unem e revelam (Pollock)

por fim, o que é mais importante, e o fim e o começo:
O que reconheço das cores que me compõem é o artista que as conduz:
meu coração.
Denise Alves de Toledo



François Boucher

08 março 2010

Bad Habit

Olhar para o que não é seu
Querer o que ninguem nunca lhe deu
Fingir o que nem sabe o que é
Verdades não existem, ali ...
Soltar palavras sem pudor
Como se dizer legitimasse a cobiça
E não como se fossem pragas
Que corrompem o amor .
Construir um caminho em chão que não floresce
Antes, endurece .
E o que segue, o olhar que não revela
O ombro encolhido, o andar de boca muda
Ao longo dos dias, longos e abafados
Prenúncios pálidos , sem graça
De nada .
E o que sobra, o que se ganhou
Escolhido, por fim
É prosseguir no mau hábito, entregue
Não há mais a doce voz da liberdade
Que se calou, respeitosa e plena
E levou a beleza
Pra bem longe dali !
Denise Alves de Toledo


 
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