Dos 5 aos 16 anos estudei neste colégio situado no bairro de Perdizes, um dos religiosos mais tradicionais de São Paulo, que existe desde 1927.
Sempre quis escrever sobre ele, com seu lindo e imponente prédio em arquitetura gótico lombardo que ocupa boa parte de um dos enormes quarteirões da rua Cardoso de Almeida.
Não consegui obter quase nada em imagens, por isso fica mais como uma homenagem deste que foi o domicílio de meu aprendizado, de meu desenvolvimento, de muitas descobertas, dúvidas, aprontações, acolhimento...Da obtenção de algum sentimento de segurança, de proteção, apesar do ambiente de severa autoridade. Acho mesmo que ali começou minha vivência cheia de paradoxos. Deus, pecado, transgressão, culpa, rebeldia, ali tambem estabeleceu-se meu talento para ser a 'bagunceira queridinha dos professores'- boa aluna que era- cuja garantia de impunidade veio a me prejudicar mais tarde. Não vou me aprofundar em minha vivência por lá e tudo que aprendi, de bom ou nem tanto.
Mais vale lembrar de como era instigante explorar os aposentos proibidos, de como tudo atiçava a curiosidade, farejando mistérios, mundos ocultos, impregnados pela aura católica em cada canto, em cada imagem, no olhar quieto e tímido em algumas irmãs, ou desafiador e altivo em outras tantas. Naturalmente assimilei que o catolicismo era portador de segredos insondaveis, e cheio de contradições. Mais vale lembrar dos lanches preciosos ali produzidos - os bolachões de chocolate eram inesqueciveis, assim como os generosos pedaços quadrados e grossos da legítima pizza napolitana! Do ar austero que me soava tão natural. Das escadarias, passagens, corredores, salões imensos com mobiliario e apresentação impecaveis (um chão de tábuas de madeira tão compridas e tão enceradas, como nunca mais vi em lugar algum). Do carinho e cumplicidade sincera das irmãs que faziam tudo para nos agradar, assim como da dedicação mais ríspida e rigorosa de outras em proporcionar uma base cultural sólida e só, nos moldes dos internatos católicos europeus. Não era o que 'me pegava', instintivamente descobri que à latente intolerancia e autoritarismo bastava reagir com certo desprezo e com a eficiencia esperada.
Pouco tempo atrás descobri várias cartinhas que trocava com minhas professoras, todas freiras, por ocasião das férias. Mensagens cheias de carinho, daquele que se espera quando falamos do amor de Deus, de Fraternidade. Talvez o fato de ter experimentado essa proximidade afetiva com as irmãs tenha amenizado os efeitos da repressão inerente à educação católica tradicional. Não que eu não os tenha sofrido. Mesmo com toda terapia, com todo posicionamento contestatório com que assumi minha vida e até por isso mesmo(pelo paradoxo que isto implica), posso dizer que ainda estão em mim. Em paz, sem rancores, com amor.
Não era um ensino forte, 'puxado' no conteúdo, a despeito de um Dante Alighieri, por exemplo - onde algumas amigas que para lá foram sofreram bocados para se adaptar ao ensino. Exclusivamente feminino, o objetivo maior era formar moças de família, preparando-as para um bom casamento nos (já bem ultrapassados) moldes burgueses. Assim, aulas de bordado, boas maneiras, orfeón, tinham tanta importancia quanto a matemática, literatura ou a história do mundo. Ah, e religião, claro! Azar e sorte minhas, que obtive um sólido material para ser 'filtrado' mais tarde. E sei bem o que ficou dele.
Bem, o colégio se modernizou, o que parecia improvável em minha época e hoje abriga uma conceituada faculdade de moda, design e outros cursos contemporaneos, comprovando que as mudanças se impõem com o tempo, até nos meios mais rígidos.
A seguir as imagens que consegui obter da parte antiga da construção, que sem dúvida tem seu valor histórico nas memorias desse tradicional bairro de São Paulo.
Para Beatriz Salmeron, Mª Cristina Cavalcanti de Almeida, Maria Evelina Prado Suzuki, Maria Regina Iglesias Sandra Noal, Claudia Marechal, Paula Marechal, Iná Macchione Rebouças, Leymar Bittencourt de Carvalho, Elimar Marchetti e...ufa! toda mulherada que reencontrei recentemente, sem nem perceber que já havia se passado tanto tempo!