TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

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23 março 2011

Felicidade?











"A busca pela felicidade é uma besteira cultural, tornou-se um produto de mercado. Serve bem para vender uma serie de coisas, ideias, crenças, que prometem nos fazer felizes.
Eu não quero ser feliz. A felicidade leva a uma serie de paradoxos completamente intoleráveis. Não quero ser feliz porque prezo a experiencia em sua variedade e intensidade. Interessa-me viver o que a vida me dá em sua plenitude. Quero poder me desesperar quando perco alguem que amo porque morre, me deixa ou a vida faz com a gente se separe. Eu quero ser infeliz.
Quero viver a complexidade de emoções e sentimentos que faz a riqueza da experiencia humana. Você vai querer se privar de uma experiencia tão rica quanto a perda do pai ou da mãe? É doloroso, mas crucial e comum a todos. Quero viver com alegria, inclusive as dores que a vida me apresenta."

Contardo Calligaris

23 fevereiro 2011

HARMONIA

Bendigamos o vício asqueroso e erodente
que os corações degenerados escraviza:
e a boca impura que, sorrindo falsamente,
a vil mentira tem por suprema divisa.

Bendigamos a infâmia, a dor que finaliza
no desespero atroz: a calúnia velhamente
o ódio que espuma em praga ruge e aterroriza
a blasphêmia que os céus retalha torpemente.

Benditas sejaes vós, miséria e baixeza:
sois o pouso de apoio onde se estriba e enflora
a concepção do Bem – a Verdade e a Beleza.

Sois a treva onde fulge, em divinos lampejos
em violento contraste, em gloriosa plethora,
o amor cultuando a Vida em cânticos e beijos!

Tarsila do Amaral, agosto de 1919








05 dezembro 2010

REFLEXÕES (6)













Sometimes snakes can't slough.
They can't burst their old skin.
Then they go sick and die inside the old skin
and nobody ever sees the new pattern...

It takes a real desperate
recklessness to burst your old skin at last.
You simply don't care what happens to you,
if you rip yourself in two, so long as you do get out..

It also needs a real belief in the new skin.
Otherwise you are likely never to make that effort.
Then you gradually sicken and go rotten and die in the old skin.

D.H.Lawrence (1923)


'The Man Who Died' - D.H. Lawrence

16 novembro 2010

REFLEXÕES (5)












Tudo é Divino

Há uma elasticidade cósmica, se assim lhe posso chamar, que é extremamente enganadora. Dá ao homem a ilusão temporária de que é capaz de mudar as coisas. Mas o homem acaba sempre por tornar a cair em si. É aí, na sua própria natureza, que pode e deve praticar-se a transmutação, e em nenhum outro lugar. E quando um homem percebe a que ponto é isto verdade, reconciliando-se com todas as aparências do mal, da fealdade, da mentira e da frustração; a partir de então, deixa de aplicar ao mundo a sua imagem pessoal de tristeza e dor, de pecado e corrupção.

Eu poderia, é certo, formular tudo isto de modo muito mais simples, dizendo que, aos olhos de Deus, tudo é divino. E quando digo tudo, é mesmo tudo o que quero dizer. Quando olhamos as coisas a tal luz, a palavra «transmutação» adquire um sentido ainda maior: pressupõe que o nosso bem-estar depende do nosso entendimento espiritual, do modo como nos servimos da visão divina que possuímos. Com um critério assim, o que nos poderá ainda chocar?

Henry Miller, in "O Mundo do Sexo"

08 novembro 2010

João Brandão adere ao Punk - Carlos Drummond de Andrade

Desenho de Meire Martins

João Brandão, estudioso de fenômenos sociais, modismos e frivolidades, dedica-se no momento à pesquisa do punk.
- Ainda não cheguei a nenhuma conclusão - disse-me ele. - Mas suspeito que o punk veio atender à necessidades do país nesta conjuntura. E acrescentou:
- Não me refiro, é claro, a modalidade do punk cultivado pelas classes alta e média da zona sul. Este é um punk de espírito e camisetas importados, jaqueta de couro valendo um punhado de dólares. É artigo de importação, que deve figurar na lista de produtos proibidos pelo delfim. Refiro-me ao outro, o de camiseta adquirida na rua Senhor dos Passos e rasgada. O moço não a rasgou para demonstrar maior identificação com o punk: ela está rasgada porque é velha e muito batida. Em suma, o punk pobre.
- Que diferença faz, se esta é uma característica exterior? - perguntei-lhe. - Faz muita diferença, porque o punk dos pobres, suburbano e sofrido, revela no seu despojamento, que para ser punk é necessário enfrentar uma barreira e abrir mão de toda a sociedade de consumo. Ao passo que o leblon é consumista, no esquema clássico.
- O João, e todos dois não estão inseridos nessa tal sociedade burguesa de consumo, que se adverte com seus palhaços, contestadores ou oficialistas?
- Não importa que a sociedade como estamento seria dos dois grupos e os tolere igualmente, enquanto a indústria fabrica objetos sofisticados para o uso do punk de salão. Importa é a atitude deles diante da vida. Um finge contestar, outro contesta mesmo.
- Contesta em verso, em som, em gesticulação, em aparência.
- Mas contesta com convicção, né? Porque os punks malditos sabem que, passada a moda, eles terão de inventar outra forma de lazer que seja protesto, ou outra forma de protesto que seja lazer, ao passo que os ricos não estão ligando para isso, o futuro deles está garantido, na medida em que pode garantir alguma coisa no mercado de vida. Então eu simpatizo com o punk despojado, mau poeta e mau cantor, mas empolgado pela missão que se atribui, de destruir a ordem conservadora por meio da música, do grito, do gesto e do anarquismo primário.
- Eles são inocentes, talvez.


- E daí? A inocência ainda não chegou a ser crime, embora não esteja muito longe disso. Os punks trazem uma receita de aparência ingênua, mas que tem sentido. Se tudo está errado por aí - e todos nós estamos mais ou menos convencidos disso - uma postura punk, descrente dos métodos e processos consagrados para nos salvar do abismo, tem razão de ser. Os garotos dizem as coisas com franqueza selvagem. A arte deles não é mozartiana ou sequer seresteira de diamantina, mas tem função, explica-se pela circunstância.
- Desculpe: são todos uns alienados.

- É possivel, mas os alienados do lado de cá, do meu, do seu lado, curtem uma alienação maior ainda, porque reconhecem o erro e nele perseveram, como se não o reconhecessem. O punk pode não ser novidade, e parece que depois do antigo testamento não apareceu nada de novo sob o sol. Mas ele dá um recado. Não é à toa que o punk de verdade tem seus arraiais em São Paulo, onde outro dia aconteceu aquilo que você sabe. A maioria dos rapazes nem mesmo está desempregada, porque ainda não conseguiu emprego. Vestem-se de preto porque a situação deles está preta, a roupa é rasgada porque não há outra. Os versos são detestáveis, porque a vida ficou detestável para o maior número. O som é infernal, porque o inferno está ai. Os punks não pretendem ser simpáticos, eles querem mesmo é gozar da antipatia geral. Estão divididos, eu sei, e não só entre ricos e pobres. Dividem-se entre pobres e pobres, cada grupo achando que o outro grupo está errado, mas na própria variedade de erros está a marca geral deles, um sinal de inconformismo até consigo mesmos.



Não há praticamente duas pessoas no país, neste momento, que tenham opiniões concordantes sobre o que é preciso fazer para consertar o torto social. Todos acham que é urgente aquele milagre que não seja milagre falso, mas ninguém conhece a fórmula ou, se conhece, não conta. O punk é mais sério do que ousamos imaginar. Até seu nome impressiona. Que quer dizer punk? "Madeira podre, isca, mecha, fedelho", segundo os dicionários. Não quer dizer nada de unívoco. Pra mim, punk, londrino, quer dizer pum, em português coloquial. E é isso mesmo: um gás importuno, estrondoso, no salão de festa, na rua, no gabinete da autoridade. É um som altamente contestatório das conveniências, preconceitos e idéias congeladas.

- João, estou te estranhando!

- Eu também estou me estranhando. E estou gostando de me estranhar. Mas sou apenas um observador, desculpe. Como disse, não conclui nada, por enquanto. O que disse são palpites. Talvez eu tenha de descobrir uma velha camiseta rasgada, pregar nela uma estampa de caveira ou de enforcado, e sair por aí, passando para trás roqueiros e newaweiros, e cantando a anarquia como forma de pagamento da dívida externa. Quem sabe? O bom observador tem de infiltrar-se no meio observado e adotar seus códigos.




Crônica publicada no
Jornal do Brasil, em 14/04/1983.

Eu tinha pendurada no mural do meu quarto. Há anos tentava encontrá-la.
O olhar de Drummond faz da lucidez poesia, da realidade o próprio alimento de transformação. Seu olhar era assim...




17 setembro 2010

REFLEXÕES (4)


"Por mais que aparentemente o discurso seja pouco importante, as interdições que o atingem logo e depressa revelam a sua ligação com o desejo e com o poder. E o que há de surpreendente nisso, já que o discurso - como a psicanálise nos demonstrou - não é simplesmente o que manifesta(ou oculta) o desejo; é tambem o que é o objeto do desejo; e já que - a história não cessa de nos indicar - o discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, aquilo pelo que se luta, o poder do qual procuramos apoderar-nos."

Michel Foucault, in 'A Ordem do Discurso'

PENSE.

28 julho 2010

Reflexões (3)




"A diferença entre um covarde e um valente é que o covarde pensa duas vezes antes de entrar na jaula com o leão. O valente simplesmente não sabe o que é um leão. Apenas pensa que sabe."

"Falta imaginação à maioria das pessoas supostamente valentes. É como se não pudessem conceber o que aconteceria se alguma coisa saísse mal. Os verdadeiros valentes vencem a sua imaginação e fazem o que deve ser feito."

Charles Bukowski

PENSE.

29 junho 2010

REFLEXÕES (1)

Início de uma série de trechos de autores que leio, sugerindo reflexões para quem estiver a fim.
Refletir sempre leva ao crescimento se estivermos abertos, internamente.

Os textos serão inseridos periodicamente, conforme tocarem a mim e me levarem a querer compartilhar neste espaço.





A Liberdade e a Justiça

"A revolução do século XX separou arbitrariamente, para fins desmesurados de conquista, duas noções inseparáveis. A liberdade absoluta mete a justiça a ridículo. A justiça absoluta nega a liberdade. Para serem fecundas, as duas noções devem descobrir os seus limites uma dentro da outra. Nenhum homem considera livre a sua condição se ela não for ao mesmo tempo justa, nem justa se não for livre. Precisamente, não pode conceber-se a liberdade sem o poder de clarificar o justo e o injusto, de reivindicar todo o ser em nome de uma parcela de ser que se recusa a extinguir-se. Finalmente, tem de haver uma justiça, embora bem diferente, para se restaurar a liberdade, único valor imperecível da história. Os homens só morrem bem quando o fizeram pela liberdade: pois, nessa altura, não acreditavam que morressem por completo."

Albert Camus, in "O Mito de Sísifo"

PENSE.

11 maio 2010

Ilustrações da Alma












"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas um léxico só não é suficiente.Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens."

Guimarães Rosa


Abaixo, alguns desenhos do curitibano Poty, o maior ilustrador da obra de Guimarães Rosa.





















"Mire veja: o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, não estão terminadas - mas que elas vão sempre mudando."

11 abril 2010

Verdade - Carlos Drummond de Andrade


A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.




Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

31 março 2010

Freud- Sobre a Morte e as Coisas Simples da Vida - Parte II


...Continuamos a conversa no escritório.


A maioria dos psicanalistas emprega o método da 'livre associação' de Freud. Eles encorajam o peciente a dizer qualquer coisa que lhes venha à cabeça, não importando o quanto o que dizem pode ser idiota, obsceno, importuno ou irrelevante. Eles não apreciam o desejo de cooperação ativa do paciente, pois têm receio que, quando descoberta a direção de sua investigação, os desejos e a resistência do paciente lutem inconscientemente para manter seus segredos, desviando o caçador psíquico da sua pista.
Freud tambem reconhece esse perigo.
"Às vezes, eu penso", disse eu, "se nós não seríamos mais felizes se conhecêssemos menos o processo que forma nossos pensamentos e emoções. A psicanálise tira o encantamento da vida, quando segue a pista de cada um dos sentimentos até os seus complexos básicos. Não ficamos felizes ao descobrir nosso lado selvagem, criminoso e animal."


Freud's psychoanalytic couch

"O que o senhor tem contra os animais?", respondeu Freud. "A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana."
"Por quê?"
"Porque os animais são muito simples. Eles não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu mecanismo intelectual e psíquico.
O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas a ele. O selvagem pode cortar a sua cabeça, comê-lo, torturá-lo, mas ele vai poupá-lo das pequenas provocações que, às vezes, tornam a vida em uma comunidade cilvilizada quase intolerável.
Os hábitos e idiossincrasias mais desagradáveis do homem, como a trapaça, a covardia e a falta de respeito, são produzidos pela sua adaptação incompleta a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura.
As emoções intensas, diretas e simples de um cachorro, ao abanar o rabo ou latir quando contrariado são muito mais agradáveis! As emoções de um cachorro", acrescentou Freud pensativo, "me fazem lembrar dos heróis da antiguidade. Talvez seja por isso que nós, inconscientemente damos aos cães nomes de heróis da antiguidade, como Aquiles ou Heitor."
"O meu próprio cachorro", interrompi, "se chama Ajax!"

Freud sorriu.

Freud e seu chow-chow
"Até mesmo o senhor, professor, acha a existência muito complexa. No entanto, me parece que o senhor mesmo é, em parte, responsável pela complexidade da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise, ninguem sabia que a personalidade era dominada por um exército beligerante de complexos bastante censuráveis. A psicanálise fez da vida um complicado quebra-cabeça."
"De jeito nenhum", respondeu Freud. A psicanálise simplifica a vida. Nós atingimos uma nova sintese depois da análise. A psicanálise cria uma nova ordem para o labirinto onde estão perdidos certos impulsos, e tenta conduzi-los para o lugar ao qual pertencem. Ou, usando outra metáfora, ela é o fio que conduz o homem para fora do labirinto do seu próprio inconsciente."
...
"Sou apenas um principiante. Consegui trazer à tona muito do que estava enterrado nas camadas mais profundas da mente. Mas, enquanto eu só descobri alguns templos, outros podem descobrir um continente."
...
"O senhor não é apenas um cientista, é tambem um poeta. A literatura americana está impregnada pela psicanálise.
"Eu sei disso", respondeu Freud, "sou grato pelo reconhecimento, mas temo pela minha própria popularidade nos Estados Unidos. O interesse dos americanos pela psicanálise não é muito profundo. A grande popularidade leva à aceitação sem uma pesquisa séria. As pessoas apenas repetem o que escutam no teatro ou lêem nos jornais. Eles pensam que compreendem a psicanálise, porque conseguem repetir os jargões!
Os americanos são generalizadores inteligentes, mas raramente são pensadores criativos. Alem disso, os médicos americanos, bem como os austríacos, tentam apropriar-se do campo. Deixar que a psicanálise permaneça somente nas mãos dos médicos será fatal para o seu desenvolvimento."

Freud precisa dizer a verdade a todo custo! Não consegue se forçar a lisonjear os Estados Unidos onde tem a maioria de seus admiradores. Não consegue, mesmo estando em desvantagem, fazer as pazes com a profissão médica, que até hoje o aceita com grande relutância.
Apesar da sua integridade inflexível, Freud é muito cortês. Ele ouve qualquer sugestão com paciência, sem jamais tentar intimidar o entrevistador. É raro um convidado partir sem algum presente, uma lembrança de sua hospitalidade!

A noite chegara.
Estava na hora de pegar o trem de volta para a cidade que um dia abrigara esplendor imperial dos Habsburgos.
"Não me faça parecer um pessimista", comentou depois do último aperto de mão.
"Eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! As flores", acrescentou ele sorrindo, "felizmente não têm personalidade ou complexidades. Adoro as minhas flores. E não sou infeliz - pelo menos, não mais do que as outras pessoas."

O apito do meu trem soou na noite. O carro me levou à estação com rapidez. Aos poucos, a figura levemente curvada e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram ao longe.

Como Édipo, Freud olhou fundo nos olhos da Esfinge. O monstro propõe seu enigma a qualquer viajante. O andarilho que não souber a resposta será cruelmente agarrado e atirado contra as rochas. Mesmo assim, ela talvez seja mais gentil com aqueles que destrói do que com os que adivinham seu segredo.





Freud - Sobre a Morte e as Coisas Simples da Vida - Parte I

Entrevista de George Sylvester Viereck, incluída no livro "A Arte da Entrevista" - Uma Antologia de 1823 a nossos dias, organizada por Fábio Altman



"Setenta anos de idade me ensinaram aceitar a vida com alegre humildade."

Quem fazia essa declaração era o Professor Sigmund Freud, o grande explorador austríaco do lado oculto da alma.
Assim como o trágico herói grego Édipo, cujo nome está tão intimamente ligado aos princípios fundamentais da psicanálise, Freud confrontou a esfinge sem receio.
Como Édipo, ele decifrou o enigma. Pelo menos, nenhum mortal chegou tão perto dos segredos do comportamento humano quanto Freud.
Freud é para a psicologia o que Galileu foi para a astronomia. É o Cristovão Colombo do inconsciente. Ele abre novas perspectivas, sonda novas profundezas. Freud alterou todas as relações na vida, decifrando o sentido oculto das regras do inconsciente.
Conversamos na casa de veraneio de Freud em Semmering, uma montanha nos Alpes Austríacos onde os vienenses elegantes adoram se reunir. A última vez que vira o pai da psicanálise ele estava em sua casa simples na capital austríaca. Os poucos anos que separavam minha última visita desta agora multiplicaram as rugas na sua testa e aumentaram sua palidez acadêmica. A mente estava viva, o espírito firme, a cortesia impecável como sempre, mas um leve problema de fala me preocupou.









Parece que uma doença maligna no maxilar superior necessitara de uma operação. Desde então, Freud usa um aparelho mecânico para facilitar a fala.
...
Nos dias em que Freud está bem, nem se percebe a presença dele. Mas, para Freud, ele é causa de constante irritação."Eu detesto meu maxilar mecânico porque a luta com o mecanismo consome uma força preciosa. Mas é melhor ter um maxilar mecânico do que nenhum. Ainda prefiro viver a morrer.
Talvez os deuses sejam generosos conosco", continuou o pai da psicanálise, "tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos, No final, a morte parece mais tolerável do que os muitos problemas que temos que enfrentar."
...
"Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta anos", continuou o mestre e pesquisador do cérebro humano.
...
"Desfrutei de muitas coisas - do companheirismo de minha esposa, dos meus filhos, do pôr do sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que me entendeu. O que mais eu posso querer?


Bavarian Sunrise - Austria

"O senhor é famoso", disse eu. "O seu trabalho influencia a literatura de todo o mundo. O homem olha para si e para a vida com olhos diferentes por sua causa..."
...
"O fato do seu nome ser lembrado não significa nada para o senhor?"
"Absolutamente nada, mesmo que ele seja lembrado, o que não é certo..."
...
Nós andávamos por um caminho do jardim da casa. Com mãos sensíveis, Freud acariciou um arbusto que florescia.
"Estou muito mais interessado nessas flores", disse ele, "do que com o que possa acontecer comigo depois que eu morrer."

Fields of Poppies - Austria


No que me diz respeito, estou muito satisfeito em saber que o eterno absurdo de viver terminará um dia. Nossa vida se resume a uma série de obrigações, uma luta sem fim entre o ego e seu ambiente. O desejo de um prolongamento excessivo da vida me parece absurdo."
...
"É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez os homens morram porque queiram morrer. Assim como o amor e o ódio pela mesma pessoa coexistam dentro de nós, a vida é uma mistura do desejo de viver com o desejo ambivalente de morrer." Biologicamente, todo ser humano, não importando a intensidade do seu desejo de viver, anseia pelo Nirvana, pelo fim da febre chamada vida, pelo seio de Abraão. O desejo pode ser disfarçado por rodeios. Entretanto, o objetivo final da vida é a própria extinção!".
Nós podemos considerar a idéia de que a morte nos chega por vontade própria. É possível que derrotássemos a morte, não fosse pelo aliado que ela tem dentro de nós mesmos."

Começou a esfriar no jardim.

Austrian Alps


continua na próxima postagem...

11 março 2010

Minhas cores

às vezes como um esboço sem cor (obra de Jackson Pollock)



vão surgindo como música (J. Pollock )



e irrompem em explosão (Pollock)

















ou da forma clara de cor vazia



















takes me to myself (obra de Kandinski)

















cores que não se misturam













ou intensidade que expande















fragmentos (Pollock)


















que se unem e revelam (Pollock)

por fim, o que é mais importante, e o fim e o começo:
O que reconheço das cores que me compõem é o artista que as conduz:
meu coração.
Denise Alves de Toledo



François Boucher

22 janeiro 2010

Dá-me a Tua Mão - Clarice Lispector



Dá -me tua mão :
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
Que sempre foi a minha busca cega e secreta .
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois ,
de como vi a linha de mistério e fogo ,
e que é linha sub - reptícia .
Entre duas notas de música existe uma nota ,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia , por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
Existe um sentir que é entre o sentir
-nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

29 novembro 2009

Sobre o que eu não sei dizer para Luke







ODE AO GATO
Pablo Neruda

Os animais foram
imperfeitos
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.


Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.


Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial,
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.


Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas misterio,
todo mundo sabe de ti e pertence
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.


Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos tem números de ouro.


(Navegaciones y Regresos, 1959)




'Girassol' - acrílico sobre tela, de André Peticov

24 outubro 2009

Aprendendo a subir














A seguir, "Instruciones pra subir una escalera", por Julio Cortázar:


Nadie habrá dejado de observar que con frecuencia el suelo se pliega de manera tal que una parte sube en ángulo recto con el plano del suelo, y luego la parte siguiente se coloca paralela a este plano, para dar paso a una nueva perpendicular, conducta que se repite en espiral o en linea quebrada hasta alturas sumamente variables. Agachándose e poniendo la mano izquierda en una de las partes verticales, y la derecha en la horizontal correspondiente, se está en possessión momentánea de un peldaño o escalón. Cada uno de estos peldaños, formados como se ve por dos elementos, se sitúa un tanto más arriba e adelante que el anterior, principio que da sentido a la escalera,ya que cualquiera otra combinación producirá formas quiçá más belas o pintorescas, pero incapaces de trasladar de una planta baja a un primer piso.

Las escaleras se suben de frente, pois hacia atrás o de costado resultan particularmente incómodas. La actitude natural consiste em mantenerse de pie, los brazos colgando sin esfuerzo, la cabeza erguida aunque no tanto que los ojos dejen de ver los peldaños inmediatamente superiores al que se pisa, y respirando lenta e regularmente.



"Nu Descendant un Escalier", Marcel Duchamp


Para subir una escalera se comienza por levantar esa parte del cuerpo situada a la derecha abajo, envuelta casi siempre en cuero o gamuza, y que salvo excepciones cabe exactamente en el escalón. Puesta en el primer peldaño dicha parte, que para abreviar llamaremos pie, se recoge la parte equivalente de la izquierda ( también llamada pie, pero que no ha de confundirse con el pie antes citado), y llevándola a la altura del pie, se le hace seguir hasta colocarla en el segundo peldaño, con lo qual en éste descansará el pie, y en el primero descansará el pie. ( Los primeros peldaños son siempre los más dificiles, hasta conseguir la coordinación necesaria. La coincidencia del nombre entre el pie y el pie hace dificil la explicación. Cuidese especialmente de non levantar al miesmo tiempo el pie y el pie).


Llegado en esta forma al segundo peldaño, basta repetir alternadamente los movimientos hasta encontrarse con el final de la escalera. Se sale de ella fácilmente, con un ligero golpe de talón que la fija en su sitio, del que no se moverá hasta el momento del descenso.


FIN





















Artists Demonstrating a Step of the Lindy Hop
 
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