TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

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23 março 2011

Felicidade?











"A busca pela felicidade é uma besteira cultural, tornou-se um produto de mercado. Serve bem para vender uma serie de coisas, ideias, crenças, que prometem nos fazer felizes.
Eu não quero ser feliz. A felicidade leva a uma serie de paradoxos completamente intoleráveis. Não quero ser feliz porque prezo a experiencia em sua variedade e intensidade. Interessa-me viver o que a vida me dá em sua plenitude. Quero poder me desesperar quando perco alguem que amo porque morre, me deixa ou a vida faz com a gente se separe. Eu quero ser infeliz.
Quero viver a complexidade de emoções e sentimentos que faz a riqueza da experiencia humana. Você vai querer se privar de uma experiencia tão rica quanto a perda do pai ou da mãe? É doloroso, mas crucial e comum a todos. Quero viver com alegria, inclusive as dores que a vida me apresenta."

Contardo Calligaris

04 março 2011

O "Ser" Homem/Mulher na Visão Psicanalítica

31 março 2010

Freud- Sobre a Morte e as Coisas Simples da Vida - Parte II


...Continuamos a conversa no escritório.


A maioria dos psicanalistas emprega o método da 'livre associação' de Freud. Eles encorajam o peciente a dizer qualquer coisa que lhes venha à cabeça, não importando o quanto o que dizem pode ser idiota, obsceno, importuno ou irrelevante. Eles não apreciam o desejo de cooperação ativa do paciente, pois têm receio que, quando descoberta a direção de sua investigação, os desejos e a resistência do paciente lutem inconscientemente para manter seus segredos, desviando o caçador psíquico da sua pista.
Freud tambem reconhece esse perigo.
"Às vezes, eu penso", disse eu, "se nós não seríamos mais felizes se conhecêssemos menos o processo que forma nossos pensamentos e emoções. A psicanálise tira o encantamento da vida, quando segue a pista de cada um dos sentimentos até os seus complexos básicos. Não ficamos felizes ao descobrir nosso lado selvagem, criminoso e animal."


Freud's psychoanalytic couch

"O que o senhor tem contra os animais?", respondeu Freud. "A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana."
"Por quê?"
"Porque os animais são muito simples. Eles não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu mecanismo intelectual e psíquico.
O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas a ele. O selvagem pode cortar a sua cabeça, comê-lo, torturá-lo, mas ele vai poupá-lo das pequenas provocações que, às vezes, tornam a vida em uma comunidade cilvilizada quase intolerável.
Os hábitos e idiossincrasias mais desagradáveis do homem, como a trapaça, a covardia e a falta de respeito, são produzidos pela sua adaptação incompleta a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura.
As emoções intensas, diretas e simples de um cachorro, ao abanar o rabo ou latir quando contrariado são muito mais agradáveis! As emoções de um cachorro", acrescentou Freud pensativo, "me fazem lembrar dos heróis da antiguidade. Talvez seja por isso que nós, inconscientemente damos aos cães nomes de heróis da antiguidade, como Aquiles ou Heitor."
"O meu próprio cachorro", interrompi, "se chama Ajax!"

Freud sorriu.

Freud e seu chow-chow
"Até mesmo o senhor, professor, acha a existência muito complexa. No entanto, me parece que o senhor mesmo é, em parte, responsável pela complexidade da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise, ninguem sabia que a personalidade era dominada por um exército beligerante de complexos bastante censuráveis. A psicanálise fez da vida um complicado quebra-cabeça."
"De jeito nenhum", respondeu Freud. A psicanálise simplifica a vida. Nós atingimos uma nova sintese depois da análise. A psicanálise cria uma nova ordem para o labirinto onde estão perdidos certos impulsos, e tenta conduzi-los para o lugar ao qual pertencem. Ou, usando outra metáfora, ela é o fio que conduz o homem para fora do labirinto do seu próprio inconsciente."
...
"Sou apenas um principiante. Consegui trazer à tona muito do que estava enterrado nas camadas mais profundas da mente. Mas, enquanto eu só descobri alguns templos, outros podem descobrir um continente."
...
"O senhor não é apenas um cientista, é tambem um poeta. A literatura americana está impregnada pela psicanálise.
"Eu sei disso", respondeu Freud, "sou grato pelo reconhecimento, mas temo pela minha própria popularidade nos Estados Unidos. O interesse dos americanos pela psicanálise não é muito profundo. A grande popularidade leva à aceitação sem uma pesquisa séria. As pessoas apenas repetem o que escutam no teatro ou lêem nos jornais. Eles pensam que compreendem a psicanálise, porque conseguem repetir os jargões!
Os americanos são generalizadores inteligentes, mas raramente são pensadores criativos. Alem disso, os médicos americanos, bem como os austríacos, tentam apropriar-se do campo. Deixar que a psicanálise permaneça somente nas mãos dos médicos será fatal para o seu desenvolvimento."

Freud precisa dizer a verdade a todo custo! Não consegue se forçar a lisonjear os Estados Unidos onde tem a maioria de seus admiradores. Não consegue, mesmo estando em desvantagem, fazer as pazes com a profissão médica, que até hoje o aceita com grande relutância.
Apesar da sua integridade inflexível, Freud é muito cortês. Ele ouve qualquer sugestão com paciência, sem jamais tentar intimidar o entrevistador. É raro um convidado partir sem algum presente, uma lembrança de sua hospitalidade!

A noite chegara.
Estava na hora de pegar o trem de volta para a cidade que um dia abrigara esplendor imperial dos Habsburgos.
"Não me faça parecer um pessimista", comentou depois do último aperto de mão.
"Eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! As flores", acrescentou ele sorrindo, "felizmente não têm personalidade ou complexidades. Adoro as minhas flores. E não sou infeliz - pelo menos, não mais do que as outras pessoas."

O apito do meu trem soou na noite. O carro me levou à estação com rapidez. Aos poucos, a figura levemente curvada e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram ao longe.

Como Édipo, Freud olhou fundo nos olhos da Esfinge. O monstro propõe seu enigma a qualquer viajante. O andarilho que não souber a resposta será cruelmente agarrado e atirado contra as rochas. Mesmo assim, ela talvez seja mais gentil com aqueles que destrói do que com os que adivinham seu segredo.





Freud - Sobre a Morte e as Coisas Simples da Vida - Parte I

Entrevista de George Sylvester Viereck, incluída no livro "A Arte da Entrevista" - Uma Antologia de 1823 a nossos dias, organizada por Fábio Altman



"Setenta anos de idade me ensinaram aceitar a vida com alegre humildade."

Quem fazia essa declaração era o Professor Sigmund Freud, o grande explorador austríaco do lado oculto da alma.
Assim como o trágico herói grego Édipo, cujo nome está tão intimamente ligado aos princípios fundamentais da psicanálise, Freud confrontou a esfinge sem receio.
Como Édipo, ele decifrou o enigma. Pelo menos, nenhum mortal chegou tão perto dos segredos do comportamento humano quanto Freud.
Freud é para a psicologia o que Galileu foi para a astronomia. É o Cristovão Colombo do inconsciente. Ele abre novas perspectivas, sonda novas profundezas. Freud alterou todas as relações na vida, decifrando o sentido oculto das regras do inconsciente.
Conversamos na casa de veraneio de Freud em Semmering, uma montanha nos Alpes Austríacos onde os vienenses elegantes adoram se reunir. A última vez que vira o pai da psicanálise ele estava em sua casa simples na capital austríaca. Os poucos anos que separavam minha última visita desta agora multiplicaram as rugas na sua testa e aumentaram sua palidez acadêmica. A mente estava viva, o espírito firme, a cortesia impecável como sempre, mas um leve problema de fala me preocupou.









Parece que uma doença maligna no maxilar superior necessitara de uma operação. Desde então, Freud usa um aparelho mecânico para facilitar a fala.
...
Nos dias em que Freud está bem, nem se percebe a presença dele. Mas, para Freud, ele é causa de constante irritação."Eu detesto meu maxilar mecânico porque a luta com o mecanismo consome uma força preciosa. Mas é melhor ter um maxilar mecânico do que nenhum. Ainda prefiro viver a morrer.
Talvez os deuses sejam generosos conosco", continuou o pai da psicanálise, "tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos, No final, a morte parece mais tolerável do que os muitos problemas que temos que enfrentar."
...
"Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta anos", continuou o mestre e pesquisador do cérebro humano.
...
"Desfrutei de muitas coisas - do companheirismo de minha esposa, dos meus filhos, do pôr do sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que me entendeu. O que mais eu posso querer?


Bavarian Sunrise - Austria

"O senhor é famoso", disse eu. "O seu trabalho influencia a literatura de todo o mundo. O homem olha para si e para a vida com olhos diferentes por sua causa..."
...
"O fato do seu nome ser lembrado não significa nada para o senhor?"
"Absolutamente nada, mesmo que ele seja lembrado, o que não é certo..."
...
Nós andávamos por um caminho do jardim da casa. Com mãos sensíveis, Freud acariciou um arbusto que florescia.
"Estou muito mais interessado nessas flores", disse ele, "do que com o que possa acontecer comigo depois que eu morrer."

Fields of Poppies - Austria


No que me diz respeito, estou muito satisfeito em saber que o eterno absurdo de viver terminará um dia. Nossa vida se resume a uma série de obrigações, uma luta sem fim entre o ego e seu ambiente. O desejo de um prolongamento excessivo da vida me parece absurdo."
...
"É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez os homens morram porque queiram morrer. Assim como o amor e o ódio pela mesma pessoa coexistam dentro de nós, a vida é uma mistura do desejo de viver com o desejo ambivalente de morrer." Biologicamente, todo ser humano, não importando a intensidade do seu desejo de viver, anseia pelo Nirvana, pelo fim da febre chamada vida, pelo seio de Abraão. O desejo pode ser disfarçado por rodeios. Entretanto, o objetivo final da vida é a própria extinção!".
Nós podemos considerar a idéia de que a morte nos chega por vontade própria. É possível que derrotássemos a morte, não fosse pelo aliado que ela tem dentro de nós mesmos."

Começou a esfriar no jardim.

Austrian Alps


continua na próxima postagem...

13 abril 2009

A Inveja é Fome do Outro. - Um Pouco de Psicanálise I

Poster -"Envy"- 1950,UK

Acho producente esclarecer que não é o objetivo deste blog discutir teoricamente os assuntos abordados. É mais um exercicio da escrita que aqui realizo, manifestando-me através de poesias, pequenos contos ou crônicas ,preferencialmente. Porem, o tema desse post me remeteu à minha formação, como forma de melhor me colocar frente a como eu o entendo.
Os adeptos de outras teorias poderão questionar a abordagem, ou se não ao menos o acharão repetitivo. Aos leigos poderá parecer complexo e maçante de se ler. De qualquer maneira é apenas um olhar sobre o tema, dirigido a quem gosta de ler e refletir, simplesmente, com abertura e imparcialidade. Usufrua, se possivel com prazer...

O mecanismo da inveja remete, como todos os sentimentos, sejam eles bons ou maus à mais remota infancia. A primeira experiencia de frustração ao perceber que o seio materno não existe em função de satisfaze-la leva a criança a querer destruí-lo, já que a pulsão primordial é narcisista e voraz. Um pouco mais tarde a vivencia do sentimento de abandono por parte da mãe não mais provedora e a constatação de que esta 'pertence' ao pai e não a ela provoca uma reação de ódio e hostilidade. Sente-se inferiorizada e se estabelece internamente uma falta, um vazio não suprido pelo objeto de afeto.
Melanie Klein a define como sendo "Um sentimento irado de que outra pessoa possui e desfruta de algo desejavel..." e o impulso que se manifesta é o de tirá-lo dela ou roubá-lo.
Freud a contextualiza no sentimento particular da "falta", com origem lá no complexo de castração que provoca a 'inveja do pênis'. No caso de meninas, ao perceberem que lhes falta "algo" podem sentir-se em desvantagem e humilhadas. No caso dos meninos a inveja seria da incapacidade de gerar filhos e amamentar.
Num processo de desenvolvimento saudável o individuo canaliza o sentimento de inveja transformando-o de forma a ver o outro como exemplo, o que propicia uma atitude positiva em ser realizador para legitimar seu valor, tendo constatado que este não existe apenas em função de suas necessidade egóicas e que poderá utilizar-se da energia contida no conflito de maneira criativa a fim de que possa ocupar plenamente seu lugar no mundo.
Quando se fica "fixado" nessa experiencia primaria estabelece-se um padrão 'reativo' de exacerbada competitividade, rivalidade e destrutividade, já que não se supera a frustração e o sentimento de inferioridade causados pelo não atendimento ao seu desejo 'egoísta' por parte do objeto de afeto original.
Deseja-se o que é do outro por não sentir-se em condições de estabelecer o que é seu.
Deseja-se possuir o outro por não poder sê-lo.
A escolha do objeto passa a não ser feita a partir de suas próprias necessidades mas sim em função da escolha dos outros. A ferida não foi cicatrizada e o individuo se mantem aprisionado no que o fez sofrer, reagindo à fragilidade estrutural da personalidade através da criação de mecanismos de defesa, em que adota padrões de comportamento distorcidos que acabam por perpetuar a dor, pois são calcados na "luta do mais fraco contra o mais forte". Desenvolve-se uma compulsão em obter qualquer coisa que se deseje, passando por cima de quem quer que seja para vencer tentando superar o sentimento de inferioridade que o acompanha.
Restringe-se a possibilidade de obtenção de prazer, desviando-a para a necessidade de posse do objeto e isto se aplica em diversas áreas da vida, já que a frustração que o move está por trás de todas as suas ações.
Tendo passado pela experiencia da inveja na infância todos os individuos podem senti-la e sentem-na, eventualmente.
Porem, ao contrario, se se adquiriu recursos num processo adequado de desenvolvimento da estrutura emocional tenderá a converte-la em admiração, por exemplo, que catalize sua capacidade de realização e aperfeiçoamento, já que por trás do sentimento de inveja existe uma auto-estima destruída pela sensação de fracasso na resolução do conflito que a originou.
Assim, pode-se utilizar a agressividade latente nesse complexo de maneira positiva e madura.
A inveja reside em lugar obscuro, onde não há confiança, mas temor de não recuperar o objeto primario perdido na infancia. Projeta-se no outro sua própria insegurança, tenta-se impor um dominio e aprisioná-lo ou destruí-lo, na tentativa de reter ou aniquilar o objeto e não mais perde-lo ou de sobrepujá-lo.
Apenas lançar um olhar corajoso para dentro de si mesmo, confrontar seus sentimentos mais condenáveis, seu lado menos atraente é que torna possivel ao individuo sair do aprisionamento em que ele mesmo se colocou.
A vaidade e o orgulho inerentes ao homem são reforçados pelas imposições trazidas pelo desenvolvimento da civilização, em que a competição, o individualismo e o sucesso a qualquer preço cada vez mais orientam as atitudes e tornam-se seus maiores 'valores'. Isso apenas o afasta do conhecimento de si mesmo, justamente de sua tão almejada individualidade, mantendo-o diluído numa ilusão de poder e força que não tem, verdadeiramente e caminhando inevitavelmente para a auto- destruição. A inscrição feita no oráculo de Delfos, na Grécia Antiga há mais de dois mil anos já apontava a premência de o homem encarar sua 'outra face', afirmando como sua única esperança de salvação o confronto com a própria vaidade: "CONHECE-TE A TI MESMO." - atribuída aos Sete Sábios,650 a.C.-550 a.C.

Denise Alves de Toledo


"É preciso ir ao fundo do ser humano; ele tem uma face linda e outra hedionda.
O ser humano só se salvará se,ao passar a mão no rosto reconhecer a sua propria hediondez."

Nelson Rodrigues

06 abril 2009

Escrita Automática I


















AGUILAR - Os 365 Dias - 1989 (Vidro)






















AGUILAR - Il Paradiso - 1986


A "escrita automática" é uma proposta que surgiu nos primórdios da Psicanálise, parte do 'automatismo psíquico', através do qual expressa-se o processo real do pensamento, seja verbalmente, por escrito ou por qualquer outro meio. O escritor surrealista André Breton chamava de 'texto puro', sem reflexão, concentração ou qualquer correção, o 'poema surgido do inconsciente'...Definia a técnica como 'o traço fundamental do surrealismo',o "...ditado do pensamento, na ausencia de todo controle exercido pela razão e de toda preocupação estética ou moral..."
Afirmava que o sonho tem realidade objetiva e exerce sua influencia na realidade consciente objetiva.
Se para Freud o sonho consiste num conteúdo inconsciente que assume formas do mundo da experiencia, para Breton o sonho é a própria experiencia.

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O sonho que sonhei me deu medo quando acordei não estava mais lá não sei de onde vinha nem sabia onde estava o suor escorria e precisava saber se você estava bem mais uma vez levantei tonta sem poder chegar à sala estava escuro pensei em voltar mas precisava ver mas mal podia andar tentei de novo pensar já não conseguia era algo que não podia decifrar que via acontecer e que tinha dor não tinha lógica era rápido tinha um som surdo e seco e tinha cores escuras eu ali sem poder me mexer o ar faltava procurava chegar ao telefone não podia quase caía e me segurava no batente da porta que parecia torta porque tudo girava o chão já não chegava parei por um instante fechei os olhos quis imaginar que tinha acordado e que tudo não havia passado de um sonho ruim abri os olhos estava tudo turvo e cheio de bolinhas que piscavam não podia enxergar bebi um pouco d'água achei bom tambem jogar no rosto despertei um pouco mas o frio na barriga não passava resolvi sentar tremia e a cabeça não pensava só o corpo sentia aquela certeza que não podia haver porque nada podia ter acontecido a você e não ia sossegar enquanto não ouvisse a tua voz dizendo que tudo estava bem que foi só imaginação do meu sono mesmo sabendo que não era e eu iria te dizer então que não compreendia o que era aquela sensação pois aconteceu num sonho e os sonhos são indecifráveis quando não se encontra um contexto e eu não via ali nenhum contexto nas imagens misturadas e desfocadas na verdade nem havia imagens era um não sei o quê apertando meu estômago para ver se saía pela boca que ligação mais estranha essa em que sempre que algo de ruim te acontecia eu precisava prever sem poder avisar precisava sofrer sem poder evitar pra que serviria então se não fosse só pra me atazanar porque não podia ter um sonho bom enquanto algo de ruim te acontecesse já que não tinha outra função senão a de me machucar antes de machucar você como se eu tivesse fadada a sentir tua dor e pior antes de você se pelo menos servisse para diminuir a tua mas não não alterava nada pois fatalmente eu teria a noticia logo depois de que nada estava bem e eu teria que ficar bem para que pudesse ajudá-lo pois simplesmente não podia conceber que você não estivesse então tratava de me refazer e levantar pra te resgatar e te trazer para perto de mim e preservar-te de tudo que pudesse te fazer mal por isso sabia que o melhor mesmo seria nunca ficar longe de mim porque os sonhos que eu tinha pra me avisar eram pesadelos e quase tiravam a força que eu precisava ter pra cuidar de você e a grande verdade é que só posso te proteger para que fique protegida então quando você abria a porta antes de entrar eu já sabia nos teus olhos me mostrava tentava esconder mas mais uma vez eu percebia o quanto estava assustado e ao me mostrar tuas mãos eu já sabia elas estavam cheias de sangue e tudo que esperava era que eu umedecesse uma toalha e as limpasse para que mais uma vez pudesse me abraçar e naquele momento só então e só ali poder acreditar que quem sabe um dia iria me libertar...


Denise Alves de Toledo
 
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