TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

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22 julho 2010

Pensando, Sentada num Campo de Trigo

Wheat Fields with Sun, Van Gogh


Gosto de ir longe, porque sou difícil de ir. Mas se longe for entendido como profundo, e quando o profundo for algo que não se possa atingir, não me interessa ir tão fundo. Gosto de realizar. E se para isso os desafios forem imensos- e se calcarem apenas naquilo que sinto, percebo, intuo- eu vou, não importa. Gosto de viver o que sei que posso viver. E se o que posso é muito- transforma, cura- então aceito ir alem. Gosto de estar feliz com alguem. E se estar feliz é idealizar ser feliz, não quero estar com alguem. Prefiro imaginar sozinha como eu gostaria que as coisas fossem. Gosto de dar, na mesma medida em que gosto de receber. E se a troca não for rigorosamente igual, se percebo algum desequilíbrio nessa dinâmica, então não quero mais trocar. Gosto de possibilidades, de ver germinar no tempo e não perco muito tempo com o que é estéril. Gosto de estar interessada. E se estar interessada significa ter milhões de enigmas a decifrar, vou me desinteressando aos poucos. Sou assim, não tão complexa quanto possa parecer, nem tão clara quanto queira esconder. Gosto de olhar e logo ver a nudez. Completa. Inteira. Plena. E se o que eu vir for uma luz estarei lá, ainda que precise soprar para que não se apague. Gosto de ver. E se o que vejo não é o que quero, então não quero mais. É como gesso jogado ao chão, e não me interessa o que é frágil . Gosto de consistência, do palpável, não conjugo o futuro do pretérito, a não ser quando estou só. Tambem gosto de estar só, e se para isso é preciso deixar cair panos de ilusões, então não temo. Gosto do encanto, enquanto posso realizá-lo. O desencanto, prefiro vivenciá-lo sozinha. Eis um fardo que não me incomodo de carregar, o meu. Assim é que sou. E se para continuar indo longe for necessário abandonar cargas pelo caminho, então o farei, sempre que o horizonte que vislumbrei um dia estiver sob ameaça de não ser alcançado.
Denise Alves de Toledo




Obras realizadas durante a internação de Van Gogh em um sanatório em Saint-Rémy

11 maio 2010

A Ilha




Ao vê-lo caminhar já se podia perceber. O rosto inexpressivo denotava uma ausência- de brilho, de energia, de vida. A julgar pela quietude de seus passos apressados, porém tímidos, poderia passar despercebido na calçada de poucos pedestres.
O olhar era o que mais causava estranheza, vagando vazio. Junto ao céu pálido e sem inspiração, sua imagem dava a impressão de abnegado desalento.
Algumas vezes levantava a cabeça do chão para, com ar fortuito perscrutar à sua volta, mais para detectar ameaças do que por qualquer interesse pelo mundo ao seu redor.
Era claro, não queria ser notado, mas seus esforços fracassavam devido a seu jeito estranho, seu corpo sem prumo, o longo sobretudo sem cor que usava mesmo em dias mais quentes. Um chapéu escondia seu rosto, que só podia ser visto inteiro quando levantava o olhar em direção a lugar nenhum. Impossível precisar sua idade, ou das marcas que endureciam seus traços.
Passava pelos mesmos lugares, sempre. Da confeitaria, levava o mesmo petit-four seco de massa folhada, na tabacaria abastecia-se de seus inconfundíveis Gitanes e- levando também um jornal embaixo do braço- seguia em direção à praia.
Mas apenas nos dias mais frios, quando só o que se avistava eram os pescadores lançando as redes de seus pequenos barcos, na rotina eterna de seu rude e poético ofício.

Parecia sozinho. Muito sozinho.

Passava um longo tempo em pé - permitindo-se apenas tirar o chapéu - e ficava olhando ao longe, em direção à uma pequena ilha, não muito distante da praia. Quase imóvel, dava a impressão de não estar ali. Seu olhar adquiria, então, um brilho, fixado na visão daquele insignificante monte abandonado no mar. Como se lá fosse um mundo inteiro, como se ali estivesse a sua realidade- alguma vida distante, mas que desejava alcançar.
Depois, já com a noite confundindo os contornos da paisagem apenas levemente azulada, colocava seu chapéu e ia embora, retomando o ar indiferente de quando chegara.
Parecia que, não podendo ter a ilha- ou talvez porque fosse, ele mesmo, a ilha- dava-se pouco, tão pouco...
Denise Alves de Toledo




Fotos de Mari Toledo

20 novembro 2009

Il cammino di Santiago















Uma das coisas mais prazeirosas para quem gosta de sentir o vento da liberdade batendo no rosto é pegar uma estrada sozinha.
Muito agradável fazer o mesmo acompanhada de seu amor, é claro, ocasiões em que o compartilhar possibilita uma intimidade diferente, com a natureza como cúmplice de uma aventura a dois. Porque pegar uma bela estrada (sim, tem que ser bela) sempre é uma aventura! Simboliza um desafio, requer certa audácia, confiança e determinação.
Mas sozinha de tudo, você e a estrada, apenas, e toda a beleza à sua volta, é infinitamente melhor. Traz uma sensação de completude sem igual.
Pegar uma certa estrada, e fazer uma parada numa praia de nome Santiago: destino que se coloca à frente das curvas, em meio às lindas e infindáveis montanhas que acompanham o percurso.
Com cuidado, para não interromper o curso espontâneo da vida que se oferece, generosa e promissora. Percorrer o caminho, sem pressa, o caminho...
De cima, bem do alto, as praias por vezes se insinuam com águas prateadas num horizonte claro e firme. Por outras, a vegetação se impõe em sua diversidade densa e misteriosa -sugestiva-, tão próxima e tão inatingível ao mesmo tempo.
Poder observar, absorver a imponência das montanhas ao longe...Grandes, altas, enormes, longas e extensas, tão suaves, tão quietas!
Estáveis como a certeza do que o espera naquele lugar escolhido, porem trazido de surpresa, sutil artimanha do Criador que brinda a quem mantem os olhos abertos na estrada. Que não deixou que a luz do sol ofuscasse a vista, ou que a neblina empalidecesse as cores...
Subindo e descendo, entregando-se ao ritmo tranquilo, fazer-se mais próximo e reconhecer novas nuances no desenho da terra, harmonioso e perfeito.
Sentir-se parte e sentir-se inteiro.
E depois de elevar-se para perto do bem longe do Universo, chegar ao lugar de onde não mais sairá, a não ser para pegar a estrada de vez em quando, sozinha.
Pois quando percorro sozinha a estrada, é mais gostoso partir e uma certeza voltar...!
Denise Alves de Toledo

17 outubro 2009

Brincadeira, Amor, Criança, Tudo





















HAPPY TOGHETER!!!




Juntavam seus filhos e no total dava cinco. Três meninos e duas meninas, todos lindos, cada um de uma cor!
Considerando-se o ar de alegria em seus rostos, tambem, então o numero aumentava para sete.
Sete alminhas puras, brincando ingenuamente -e tão felizes!- numa tarde de sol, céu azul demais da conta e sobremesas geladas e cheias de calda doce.
Os sorrisos no rosto e as bochechas vermelhas expressavam seu vigor, e abraços e beijinhos eram distribuídos generosamente, a todo momento.
Bonito de se ver! O invejoso, certamente morderia os lábios...Nem seria notado, porem, é verdade. Ali imperava o amor e a aura que os circundava protegia-os de qualquer coisa ruim.
Nunca choveria ali, os carros já não passavam, gente triste se alegraria, os ladrões nem se atreviam...
E as rodas eram feitas de cantoria, afinadas pelo espírito de união que ali havia.
As mais simples brincadeiras, pega-pega, pular corda, empinar pipa, amarelinha, desenhos com giz no chão...Eram entremeadas com gargalhadas, tão espontâneas e animadas que deviam ser ouvidas no céu e contagiar a todos os anjos. Bem, mais certo é que os anjos deviam é estar lá, regendo toda a orquestra.
Os dois sorriam, um para o outro, cúmplices naquela celebração, de vida e de amor, fazendo por merecer seu encontro, que juntou tanta gente pequena pelo fato de estarem juntos, e agora estendia isso a tantos outros.
Não enfrentaram juntos a parte mais chata, quando todas aquelas crianças eram tão pequenas e ainda faltava tanto para poderem se expressar de um jeito mais compreensível e pleno, quando tudo tinha que ser menos solto, menos livre e mais serio.
Haviam se conhecido quando as crianças já tinham uma historinha, já haviam passado pelo primeiro começo, já se encontravam um pouco prontas para saber o que é ser feliz!
Com essa sorte, tudo era recheado de gostosuras e 'deliciosidades'...Inclusive falar errado, como era bom!
Ouvir um dos pequenos fazendo um comentario em que a conjugação do verbo se dava na direção contrària às regras gramaticais: -"eu tinha fazido...", "eu se assustei..."- tão bom de ouvir, antes que a ordem das coisas ensine que não pode.
E nesses dias, domingos abençoados que eles decidiram que seriam dedicados ao lazer na rua, ao ar livre, a felicidade se instalava, permeada por um amor que tambem era livre. Pelo respeito que tinham um pelo outro, pela aceitação dos filhos que não eram seus, um prolongamento daquele a quem se ama- verdadeira e incondicionalmente- com quem se quer apenas estar junto. Sem amarras, sem restrições. Sem pressa, sem exigencias. Abertura plena ao amor.
Dividido, somado, acrescentado, multiplicado por mil através daqueles serezinhos que ainda são projetos de gente. Pelo jeito, de gente boa...
E o que é mais importante nessa vida? Do que domingos que unem, a compartilhar um espaço lúdico, conectados com o puro e espontaneo da vida que é brincar! Não fechados numa redoma, mas com todos, abertos ao mundo. Assim, avisaram: - quem quiser pode chegar. A rua é de todos. A liberdade tambem...
E o que era sete, virou dezessete, depois vinte e sete, e mais, e mais...Um pequeno, simples, fraterno e poderoso universo!
Denise Alves de Toledo

















11 junho 2009

Livre Arbítrio - Uma Reflexão
















Jesus, mestre e Senhor! Sei que estou submetido a leis soberanas nas quais não posso intervir, cabendo-me apenas acatar e aceitar a tua amorosa vontade como o melhor e o mais justo recurso à minha evolução!...
Mas, dentro dessas leis posso movimentar-me à vontade, aceitando ou não à sua influencia sobre mim, acertando ou errando conforme o meu desejo e minha inclinação...
Sou livre para escolher o que de melhor me serve no momento, dentro do panorama que tu me ofereces por aprendizado, tomando o rumo das estrelas ou a estrada do despenhadeiro, sempre em conformidade com o clima espiritual de minha preferencia.
Mas a minha vontade ainda é perfectivel e nem sempre, ao impulso dela, os resultados são benéficos à minha alma trazendo-me, bastas vezes, dolorosas chagas que me cumpre sempre mais tarde medicar...
Por outro lado e, por não compreender-te plenamente, ainda, às vezes não gosto do que me ofereces e por isso nem sempre tomo o caminho que desejaria que eu tomasse, para o meu proprio bem...
Olho o mundo em torno e anoto nele deficiências de toda ordem e meu coração te censura silenciosamente, infinitas vezes, por não mudares o que considero imoral, injusto e desumano!
Vejo o caos aos meus pés e clamo por tua intervenção e, ainda assim o mal progride e o violento impera, qual se te fosse mais importante verificar o grau de minha tolerancia e o limite de minha fé, perante os acontecimentos e não o sofrimento e a ruína que essas ações provocam em todos aqueles que lhes sofrem a sinistra influenciação!...
Nesses momentos, Senhor, surge a inconformação e a revolta, um gosto amargo e perene pelo que aí está, situações que tu não alteras e que eu não tenho o poder de modificar...
Queria, Senhor, eu o confesso, melhorar de um só toque o mundo em que vivo e, sem me importar com mais nada entregar paz e harmonia à Terra, independentemente de provas e provações, de durezas espirituais e dolorosos burilamentos...
Mas, impotente e frágil, nada mais posso fazer que chorar muitas vezes estendendo em torno mãos que não tocam, palavras que não consolam.
E então percebo que só tu tens o poder supremo de socorrer, salvar, modificar ou corrigir...
É muito pouco a pouco que compreendo o que significa livre-arbítrio e de que modo posso usufruí-lo em meu beneficio e ainda sem causar males ao outro.
Aprendo lentamente que existem liberdades e liberdades, dentro das quais posso alterar o meu destino para melhor ou dificultar de vez a minha evolução...
Sou livre, sim, para tomar o rumo que melhor me aprouver tomar, Senhor, mas sempre dentro do que, no momento,tu dispões visando o meu aprendizado e o meu progresso.
Se nem tudo corre como deveria, se acontecem alterações de planos, mesmo que infinitamente dolorosos não importa a ti quem os causou e nem de que forma o fizeram, mas sim a minha reação individual perante o fato, como consequencia direta e inalienável sobre o meu futuro espiritual...
Não modificas imediatamente a paisagem em torno, salvo condições especialíssimas, mas enxuga minhas lágrimas se me aproximo de ti buscando consolação e força, ou me aguardas maior entendimento para mais alem, quando eu compreender que tudo é harmonia, mesmo sob aparente dor e desordem. Que sorrir apenas na bem aventurança não é manifestação de fé, da mesma fé que posso provar ao sentir tua mão estendida quando preciso de teu colo.
Não me abandonas jamais, Senhor,à vezes aguarda ,isso sim, que o compreenda efetivamente.
Aprendo, enfim, Senhor, que se não tenho o poder de modificar a marcha natural da Terra posso fazer muito para minimizar toda a especie de sofrimento, na mesma medida meu e do outro, doando amor e solidariedade isentos de revolta, egoísmo e incompreensão, para que minha ajuda seja benção e nunca maldição...
Ampara-me, Senhor, para que eu prossiga em meu aprendizado com lucidez e boa vontade, porque comprendo tambem que, de meu gesto individual depende a paz em torno dos meus passos, e que minhas opções sempre influenciarão os outros levando concordia e alegria ou proporcionando dor e dificuldades, sempre de acordo com o meu livre arbítrio!

Assim seja.

Do espírita André Luiz


The Supper at Emmaus - 1601 - Caravaggio



 
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