

Aos cinco anos ela foi largada na linha do trem, apenas com uma trouxinha na cabeça.
No meio do nada, na imensidão seca de algum sertão do nordeste.
Caminhou em busca do que julgava ser sua única referência, a casa do pai que mal conhecia.
Nunca mais parou de caminhar.
Aos dez, depois de já haver passado por várias moradas em que almas caridosas dela se apiedavam, foi acolhida como esposa por um rapaz de uns vinte anos, que a tirara do bordel em que era mantida como protegida sem precisar exercer o ofício.
Instalou-a num quartinho na casa da mãe, de onde ela quase não saía durante as longas ausências do seu homem. Não sabia o que ele fazia, não perguntava, não reclamava. Nada lhe faltava ali...
Era feliz, porque quando voltava ele era carinhoso e cuidava dela.
Uma noite, véspera de outra viagem do companheiro, sentiu-se mal sem saber porque.
Uma angústia, um aperto no peito lhe dizendo que dessa vez ele não voltaria...
Não voltou...A polícia veio avisar, dias depois, que ele havia sido morto com alguns tiros, lá na capital.
Ela, então, pegou a trouxinha e foi embora mais uma vez.
Agora feita mulher.
Prosseguiu caminhando, à mercê do destino, sabendo apenas que deveria ir, não importava muito pra onde.
A vida era isso, não havia o que controlar ou esperar. Era o mundão.
Não temia.
Ia.
Teve outros homens, se apaixonou, ficou 'cega', quase matou .
Teve filhos, sem querer, sem poder, alguns deixou pelo caminho....
Trabalhou, trabalhou, sequer aprendeu a ler.
De vez em quando dava um negócio e ela ia atrás da mãe! Ficava uns poucos dias e já dava comichão de ir embora...Não se dava com a mãe. Não suportava estar muito tempo confrontando aquele sentimento de rejeição, aquela certeza de que não era amada.
Quando a conheci percebi logo seu carisma. E sua inteligência. E seu coração!
Daquela figura franzina de feições marcadas pelas estradas poeirentas emanava força e suavidade, coragem e leveza! Que olhar afiado e brilhante!
Não pude deixar de imaginar que se ela tivesse uma compleição digamos, mais forte, teria se tornado truculenta. Não combinaria com ela.
Seu andar revela sua humildade, sua altivez denota que é orgulhosa, provavelmente por saber que já fez muito em ter sobrevivido.
Mais do que isso, de ter conseguido manter o sorriso para a vida.
Por ter sabido transformar alguma migalha de afeto que recebeu em capacidade de dar.
De estar no mundo com amor, com gratidão.
Não um amor zeloso por família e filhos, não em uma relação de amor bem sucedida, que aliás nunca teve.
Mais do que isso, um estar generoso no mundo, em que não vê as pessoas como ameaça, mas se lança a elas de coração aberto.
Porque foi jogada fora literalmente e se viu só. E descobriu que tinha um coração! E em sua sabedoria instintiva decidiu usá-lo como arma, resolveu lutar a favor e não contra!
E se aliou ao vasto mundo. E o percorre com genuína alegria!
E já decidiu que eu vou ensiná-la a ler e escrever. Seu sonho!
Eu que não me atrevo a dizer não...
Nunca mais amou um homem de verdade, depois daquele que a resgatou, lhe protegeu e lhe deu carinho sem pedir nada em troca, que a amava, com quem se tornou precocemente mulher e que se foi...Sem querer.
Em seus dias de aflição, em que todas as suas dores teimam em vir de uma vez como um furacão carregando toda sua história, ela me conta que é a foto dele que pega em suas mãos para lhe dar forças.
Então se acalma. E adormece.
Pra no dia que ainda não nasceu recomeçar a caminhada. Porque ela não pode parar.
Nunca vai...
Denise Alves de Toledo



Querida,sem mesmo ser convidada,fui me metendo onde eu queria ser chamada.
ResponderExcluirAdorei, e fico feliz por você.
Beijoca
Luiza