TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

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24 novembro 2010

As Impressões, na Estranha Vida



Soleil Levant, Claude Monet


A madrugada o acordou com a cantoria dos pássaros, que pareciam cantar mais e mais alto como a garantir a chegada da primavera, até então meio incerta.

Da cama imaginou a cena lá fora, a cor do céu, o ar ainda frio da alvorada. Pensou que devia ser cedo para intuir se o sol saudaria ao novo dia descaradamente ou com parcimônia, nessa imprevisibilidade que já havia se tornado rotineira. Decidiu ficar devaneando um pouco mais, ainda entre sensações do sono mal saciado e o efeito que o despertar repentino lhe provocava. Era uma sensação de irrealidade, que costumava durar algum tempo, sem nunca saber se passaria totalmente, ou se ainda teimaria em acompanhá-lo ao sair à rua, prejudicando a percepção das coisas à sua volta. Quando isso acontecia, era preciso fazer um esforço imenso para conseguir concentrar-se e fixar um grau mínimo de consciência que lhe permitisse atravessar a rua sem maiores riscos, por exemplo.


Sentia-se um pouco exausto, apesar do sono de mais de dez horas seguidas, e tentou pensar como faria para estar dali a duas horas na rua tal e encontrar-se com ela para, juntos, pegarem a estrada em uma direção qualquer. Sem data para retornar. Era o combinado, mas precisava ainda identificar sua disposição, que, invariavelmente se dava em função do clima que se anunciava pelo ar matinal. Nem importava tanto o que poderia acontecer ao longo do dia, se chuvas após calor intenso, sol escaldante após um amanhecer pálido e pouco promissor. Era aquele momento, imediatamente antes do nascer do sol, que lhe sinalizava a inspiração (ou a falta dela) de seu espírito para enfrentar mais um dia.

Nos dias em que não acordava, sincronicamente, nesse exato instante, que dispunha para se compor- nesses minutos em que a natureza ficava numa espécie de suspensão-,  sentia-se vulnerável e seu dia transcorria estranho.

Sabia que isso tinha a ver com sua própria natureza, essa falta de sentido que o acompanhava desde sempre e contra a qual já havia desistido de lutar.

Por isso até havia topado a proposta dela, aquela mulher misteriosa mas, ao mesmo tempo, tão confiável, que havia conhecido há poucos meses e com quem já estabelecera uma intimidade rara, numa convivência espontânea e sem compromisso. Ela iria de qualquer jeito, achou de lhe convidar por pensar que as afinidades entre eles poderiam enriquecer a aventura. Quem sabe trazer algum sentido, só pra variar...Por quê não?

Ela era misteriosa porque traduzia o próprio jeito de ser dele, o havia feito perceber o quanto realmente não julgava importante saber para onde ir, querer chegar a algum lugar. Mas ela o era à sua maneira, bem  mais divertida.

Isso o intrigava, gostava de perder tempo pensando naquela mulher que havia conhecido tão sem querer numa noite- bebericando sozinho, nem triste nem alegre-, que se sentou ao lado dele e começou a comentar sobre como gostava de beber martini, e se ele podia dividir o seu com ela.

Falou bem mais do que ele por toda a noite e, quando se despediram, ele ficou com uma sensação que há muito não tinha. Estranhou ter até lhe dado vontade de que ela o acompanhasse à sua casa, se deitasse ali com ele e o fizesse dormir, enquanto contava suas histórias com vivacidade e graça, ainda que às vezes tivessem um final não tão divertido.

Seus encontros eram totalmente livres de qualquer combinado, simplesmente quando um queria ver o outro, telefonava e se encontravam, em geral na casa dela. Saíam, às vezes, mas em geral ficavam a sós, compartilhando seu mundo interno um com o outro como se fossem extensões de um mesmo ser, ainda que de personalidades bem diversas.

O que os unia era a maneira como sentiam-se inseridos no mundo. Não se sentiam, descobriram.

Assim, aceitar seu convite a uma viagem sem roteiro foi algo natural, sem necessidade de motivos maiores. Afinal, em quê, diabos, havia sentido? Aceitou e só.


E quando acordou viu-se cansado, e pensou que precisaria saber sobre o tempo, ou não conseguiria. Gastou os instantes que tinha até o dia nascer tentando lembrar o que estava sonhando, se é que estava. Só lhe vieram algumas imagens de poeira, em meio à uma luz forte, ar seco e o gesto de apanhar um cantil preso ao cinto e saciar com prazer a sede, que era tambem uma sede diferente, que a cada gole fazia-o perceber que a poeira se desvanecia sob um vento ameno, deixando ver as cores do caminho à sua frente.

Deu de ombros à lembrança, mas viu-se disposto a levantar e fazer um bom desjejum. Tinha bastante tempo para preparar as poucas coisas que pretendia levar consigo: mochila com o essencial para duas ou três trocas de roupa, seus óculos escuros e os de leitura, alguns de seus livros de cabeceira (dentre eles um de poemas de Conrad, seu autor predileto), o caderno de anotações que sempre levava consigo. Escrever era quase uma compulsão, se bem que não compreendia bem porque escrevia suas impressões sobre coisas tão banais como 'o homem tirou seu chapéu quando a mulher passou à sua frente, e ela nem olhou para ele"...


Ao sair de casa pela última vez pensou no canto dos pássaros que sempre vinham lhe anunciar o dia que ainda estava por nascer. Seus amigos, talvez. Ou não, apenas viviam, como ele, acompanhando o tempo, as intempéries do tempo, a necessidade de se viver, mesmo sem saber porque.

Sentia-se bem. O horizonte surgia serenamente, a luz que se apresentava insinuava um dia de sol ameno, talvez aquela chuvinha de fim de tarde de primavera (finalmente, a primavera!), cheirosa e refrescante.

Achou que seria bom pegar uma estrada. Alem disso, nada mais precisava saber, por hoje. As impressões do despertar lhe trariam o amanhã. E o depois, e depois, o depois de amanhã...






Claude Monet

15 outubro 2010

Não o Tempo; Só Silêncio



Atordoada com palavras tento escapar
Ziguezagueio em meio a verdades
Tiroteio de ilusões
Não consigo me ouvir
Não quero, não quero!


Encolhida em minha quietude anseio
Pelo silêncio
Penso no tempo, logo irá passar
Mas logo volta a torrente das vozes
Anunciando respostas, travestidas de deuses!


Volto o olhar para o céu, e o que vejo é o passado
Será que isso não basta?
Tão presente, e tão inatingível!
Me aconchego, então, em seus braços
Não me deixe enganar, não me deixe...


Me deixo levar, já não importa
Os gritos lá fora já não me ensurdecem
Me solto, completamente e forte
Os sons emudecem e fracos
O universo é silêncio, e me acolhe.

É só o que quero, não desvendá-lo.



Red Balloon-Paul Klee, 1922

22 agosto 2009

Uma Tarde, Para Sempre


Um recanto, um refúgio
De céu e geografia perfeitos
Emolduram o encontro, quase secreto
Tão particular
O silêncio enquadra a cena
Em que o calor se abriga
No sopro do vento discreto
A visão colorida pelo ambiente
Percebe cores vivas
Porem, serenas

Eles, então, ali se abrigam
Mas é como se não estivessem
Incorporam-se ao que parece imóvel
Mas os leva para longe dali
Misturam-se ao verde e ao brilho do sol
Pelo branco das nuvens perpassam
E riem
Como crianças fazendo arte, escondidas
Ninguem pode ouvi-los
Quem sabe a longínqua estrela
Ao lado de quem já brincam
Felizes
Sem se aperceber do tempo
Num espaço que a eles pertence
Ao mesmo tempo em que pertencem a ele

E nesse exato momento compreendem
Ainda que não lhes importe
Que aquela tarde que o acaso
Fez questão de trazer, caprichoso
Não se acabaria, mesmo após o regresso
Pois o quadro que ali foi pintado
Bem que se poderia dizer
Retratava a eternidade...

Denise Alves de Toledo



12 maio 2009

Transformação





Chovia e chovia...
Presságio de sol, eu sabia.
Impossível não perceber o movimento
lento e criador,
no murmúrio intermitente
que era só o que se podia ouvir.

O céu não importava, naqueles dias.
Ao cair da chuva empalidecia, se apagava um pouco, em espera.
A vida se detinha à terra que, receptiva em sua essência,
serena, absorvia...

E todas as coisas se alteravam,
não podia ser diferente.
Os casulos, as folhas secas, as copas das árvores, as raízes;
a natureza toda se movendo sem alarde,
com seu jeito manso
de provocar transformação...

Ao abrir a janela eu já imaginava,
por ter me misturado à chuva
e me feito parte da renovação,
que você surgiria junto com o sol pródigo,
com lindas flores nas mãos.
Aproximar-se-ia com seu jeito franco e meigo,
e confiante e forte e inteiro me levaria
pelo novo caminho que acabara de se abrir para nós...
E o que digo é o bastante, terra que sou,
permeável ao que me chega suave, nada demais.
Sublime é a natureza
que me mostra aonde vou !


Denise Alves de Toledo




16 abril 2009

Outono e o que vem depois







Folhagem - Denise Toledo






Outono -Denise Toledo

O céu está mais suave e o calor agora ameno.
Um clima de silêncio tranquilo se espalha,
inspirando à quietude e à contemplação.
Sorve-se o aroma agradável que o ar exala;
delicadamente percebe-se da existência a amplitude,
ao percorrer com os olhos o espaço que o rodeia.

A luz é clara mas não mais ofusca.
As cores, que poderiam parecer pálidas não perdem, porem, seu brilho...
Apenas acalmam, cálidas, os ânimos dos excessos.
O que se vê é uma conformação em nova ordem
de coisas, estados, nuances, mas tambem a certeza de um regresso
que o vento anuncia em sua calma passagem.

Vê-se com mais nitidez o contorno das montanhas,
que mantêm-se firmes delineando a paisagem.
Os mares de morros reafirmam os percursos
que os desvios não puderam de todo apagar.
E a estiagem se acaba, trazendo de volta a água dos rios;
naturalmente todas as coisas retomam seu curso.

O que ficou esquecido retorna a seu lugar,
reencontra no outono seu nutriente.
Para tudo que não havia ainda esgotado
sempre haverá a vontade de recomeçar!
As estações se alternam pra mostrar
que o trabalho em terra boa frutifica, cedo ou tarde.

A colheita vem generosa - a seu tempo chegará, na boa hora.
Os campos verdejam a recebê-la alegremente,
quando o sol estiver manso e a visão não mais turvar.
O que se plantou com cuidado não vai embora
como fogo que consome a mata de repente.
Fica ali como se não estivesse, germinando sem pressa.

Os dias passam, a paisagem muda, há o calor sufocante...
As chuvas chegam, o mar se ressente e de novo se acalma...
Passam as chuvas, as cores estão mais vivas e a alma renovada!
Abrindo ao olhar o que ainda está lá, não perdeu o rumo.
Agora já pronto, exalando o perfume e instigando os sentidos.
Meu pomar!
Dos frutos o sumo é doce e não sei quanto a você
mas eu vou saborear..

Denise Alves de Toledo


25 março 2009

O céu do Futuro

"When the Moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with mars
Then peace will guide the planets
And Love will steer the stars."
trecho do Musical "Hair"-Broadway,1968.








Desde pequena gosto de olhar o céu
Sempre imaginei a que distâncias poderia chegar se por lá fosse passear
O tempo parecia materializar-se na luz - azul ou branca de dia, escura e densa à noite
Como se aquela visão abrangesse tudo que existiu e ainda existirá
Como se nada se movimentasse, aquela fosse a configuração da eternidade
Era um volume sem peso, um infinito numa imagem
Dava a sensação de perda da forma, da inutilidade de se haver forma
E me levava ao futuro ver aquele céu do passado
Um futuro distante que ficava imaginando onde estaria...
Atrás do brilho da última estrela que conseguia enxergar?
Era pra onde o sol ia quando se escondia no horizonte?
E depois voltava?
O tempo...Como entender esse senhor da existência
Que impera no céu, abriga o acaso, o caos, o ontem e o amanhã?
E aquele silêncio...Sugeria que as respostas deveriam ser minhas
Tudo permaneceria lá e eu daqui deveria compreender
E reconhecer e buscar e encontrar
O futuro ali representado desde sempre
Sem que eu pudesse ainda alcançar
Menina, esperava chegar
Naquela composição perfeita e desconhecida
Eu sabia que teria que penetrar
Em meio ao azul, à luz da lua, à incandescência do sol...
E do futuro fazer parte...Num tempo que não existia
Alem do que via então!


Denise Alves de Toledo
 
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