TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

29 junho 2010

REFLEXÕES (1)

Início de uma série de trechos de autores que leio, sugerindo reflexões para quem estiver a fim.
Refletir sempre leva ao crescimento se estivermos abertos, internamente.

Os textos serão inseridos periodicamente, conforme tocarem a mim e me levarem a querer compartilhar neste espaço.





A Liberdade e a Justiça

"A revolução do século XX separou arbitrariamente, para fins desmesurados de conquista, duas noções inseparáveis. A liberdade absoluta mete a justiça a ridículo. A justiça absoluta nega a liberdade. Para serem fecundas, as duas noções devem descobrir os seus limites uma dentro da outra. Nenhum homem considera livre a sua condição se ela não for ao mesmo tempo justa, nem justa se não for livre. Precisamente, não pode conceber-se a liberdade sem o poder de clarificar o justo e o injusto, de reivindicar todo o ser em nome de uma parcela de ser que se recusa a extinguir-se. Finalmente, tem de haver uma justiça, embora bem diferente, para se restaurar a liberdade, único valor imperecível da história. Os homens só morrem bem quando o fizeram pela liberdade: pois, nessa altura, não acreditavam que morressem por completo."

Albert Camus, in "O Mito de Sísifo"

PENSE.

27 junho 2010

Maybe

Pode ser
Talvez
Eu sinta muito
Eu sinta tudo

O que é e o que não pode ser

Pode ser
Quem sabe
Eu pense muito
Eu pense tudo

O que eu vou e o que eu não vou dizer

Pode ser
Por mero acaso
Eu veja muito
Eu veja tudo

O que eu quero e o que eu não quero ver

Pode ser
Que um dia qualquer
Sem querer
Saber

O que eu penso
O que eu sinto
O que eu vejo
O que eu quero

Seja muito
Seja tudo
O que vai acontecer
E aí já não mais importe
Quem sabe?...


Denise Alves de Toledo





Moon-Woman Cuts the Circle - Pollock, 1946

24 junho 2010

Meu São Joãozinho

Eu não sei direito como funcionam essas coisas aí em cima, mas como o senhor é primo do 'homem', poderia intervir pra que Ele dê uma aliviada pro pessoal lá das Alagoas e de Pernambuco.




A coisa tá triste, meu querido São João e o senhor- que tambem é padroeiro dos adoentados- pelo jeito vai ter muito trabalho, pois as águas dos rios que transbordaram e arrasaram várias cidades de lá, têm grande concentração de esquistossomose- uma doença esquisita e feia como tantas que temos por aqui.
Dá uma sensação de impotência irremediável ver pela televisão as imagens de sofrimento e desespero das pessoas, em sua maioria já tão privadas de tudo, nesta região que distoa do fato de estar localizada num país tão rico...
Sabe, querido São João, não se sabe bem o porquê, mas a chuva se concentrou perto dos leitos dos rios, o que os fez transbordar com uma violência tamanha que parecia o mar- que ali não há- engolindo tudo o que via pela frente. Não sobrou nada e, para abrigar as pessoas, tiveram que levá-las para o alto das colinas, onde fica a parte alta das cidadezinhas.
Sem querer exagerar, meu santinho, ouvi dizer que os bombeiros que ali chegaram- os mesmos que estiveram no Haiti- disseram que estava tudo muito parecido com o que viram por lá, onde o terrível terremoto matou e destruiu tanto!


E assim, este ano não puderam comemorar o seu dia, São João, com a alegria das festas que costumam organizar com tanta dedicação. As bandeirinhas coloridas penduradas nas ruas viraram, junto com todo o resto da cidade montes e montes de barro e desolação.
Espero que até o final deste mês marcado pelas festas- que surgiram em sua homenagem(chamavam-se 'joaninas' por sua causa, lembra?) e se estenderam aos outros queridos Santo Antonio e São Pedro- as pessoas daquele lugar possam ter o alento de que tudo poderá recomeçar.
Sob vossa benção e proteção!
Amém.
Denise Alves de Toledo

23 junho 2010

RESPIRE FUNDO - Walter Franco


Abra os braços

Respire fundo

E corte os laços todos deste mundo

Com a sua imagem e semelhança

Nos mesmos traços de uma criança


Muito mansa e muito louca

Com a sua voz na minha boca

Um segundo Jesus Cristo

Por todos nós, por tudo isso



Nem sei dizer o quanto essa música me diz . É cósmico, é arquetípico, sei lá!

Melhor ouvir.




12 junho 2010

Distorções, Perversões e Só



O olhar esbugalhado não mente, não engana
O peso é triste, se arrasta, e o que vê pela frente,
E é repulsivo.
Mórbido.

Apesar da compulsão de ter/reter
Afugentar recalques- devem ser tão doídos
Esquecidos a quais duras penas
O que acontece é que se fortalecem, mais e mais
Cristalizam-se, os complexos.
Pelo corpo truculento- ações, ardis nada exemplares
Se denuncia, sem reconhecer
Seria como enxergar a sua hediondez
Não pode.

Passam-se os tempos, todos, os fatos, os desatinos, estragos
Voltas e voltas, disfarces- egocêntricos e feridos
Para cair sempre, e de novo, eterno ciclo que não se rompe
Naquele enorme vazio (mas só queria fugir...!)
E apesar de maldizer a qualquer um por seu infortúnio
Conhece muito bem (velho parceiro)
O volume, o exagero da sua gula, da sua gana, do seu horrível olhar voraz

Freud's Perverse Polymorph (Bulgarian Chil Eating a Rat)-1939-Salvador Dali

Da perversidade latente
Que surrupia, ao invés de criar
Mente
Acumula, sabendo que nada tem- fome que nunca irá passar ( mas não percebe)
Agrega em si, tristemente e tudo, incapaz de equilibrar, dar forma, harmonizar


Nunca a redenção
Nunca a singela alegria
Tomará a expressão do rosto, só pela vida
Ingênua, gratuita
Nunca sem arroubos para justificar (de novo, o peso)

E o que faz, para manter o absurdo de si mesmo
É oferecer-se a lentes de visão distorcida (presa fácil)
Que não podem - frágeis, alteradas, doentes
Traduzir o que realmente vêem à frente.
O que, afinal, talvez seja só o que lhe caiba.

Bom seria se todos pudessem ser felizes em sua insanidade.
Denise Alves de Toledo




Obra de Lucien Freud

02 junho 2010

Beijo na Boca

Rodin



Fonte e essência.
O encontro.
Irá tocar onde o corpo vira alma...
Exatamente.

O começo.

Por onde inicia a caminhar,
por onde seguirá...
Eternamente.

Entranhas.

Mistura intensa e rara,
e a intimidade se dá...
Profundamente.

Entrega.

O tempo se desfaz, é sensação, agora.
O fora tambem; é dentro, é longe.
É.
Tão longe, vai...
Tão longe vão.
Fusão.

Fechar os olhos e querer ver.
Permitir.
Ir...
E se encontrar.
Se deixar, se abandonar
só um pouquinho,
pra ser um sem estar só...
O medo não mais resiste.
Desiste,
e depois a gratidão
pelo amor que, então,
acontece.
Trazendo mais e longos beijos, assim...
Denise Alves de Toledo


Rodin
 
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