
Ao vê-lo caminhar já se podia perceber. O rosto inexpressivo denotava uma ausência- de brilho, de energia, de vida. A julgar pela quietude de seus passos apressados, porém tímidos, poderia passar despercebido na calçada de poucos pedestres.
O olhar era o que mais causava estranheza, vagando vazio. Junto ao céu pálido e sem inspiração, sua imagem dava a impressão de abnegado desalento.
Algumas vezes levantava a cabeça do chão para, com ar fortuito perscrutar à sua volta, mais para detectar ameaças do que por qualquer interesse pelo mundo ao seu redor.
Era claro, não queria ser notado, mas seus esforços fracassavam devido a seu jeito estranho, seu corpo sem prumo, o longo sobretudo sem cor que usava mesmo em dias mais quentes. Um chapéu escondia seu rosto, que só podia ser visto inteiro quando levantava o olhar em direção a lugar nenhum. Impossível precisar sua idade, ou das marcas que endureciam seus traços.
Passava pelos mesmos lugares, sempre. Da confeitaria, levava o mesmo petit-four seco de massa folhada, na tabacaria abastecia-se de seus inconfundíveis Gitanes e- levando também um jornal embaixo do braço- seguia em direção à praia.
Mas apenas nos dias mais frios, quando só o que se avistava eram os pescadores lançando as redes de seus pequenos barcos, na rotina eterna de seu rude e poético ofício.
Parecia sozinho. Muito sozinho.
Passava um longo tempo em pé - permitindo-se apenas tirar o chapéu - e ficava olhando ao longe, em direção à uma pequena ilha, não muito distante da praia. Quase imóvel, dava a impressão de não estar ali. Seu olhar adquiria, então, um brilho, fixado na visão daquele insignificante monte abandonado no mar. Como se lá fosse um mundo inteiro, como se ali estivesse a sua realidade- alguma vida distante, mas que desejava alcançar.
Depois, já com a noite confundindo os contornos da paisagem apenas levemente azulada, colocava seu chapéu e ia embora, retomando o ar indiferente de quando chegara.
Parecia que, não podendo ter a ilha- ou talvez porque fosse, ele mesmo, a ilha- dava-se pouco, tão pouco...
Denise Alves de Toledo

Fotos de Mari Toledo



Mãe, ficou lind o conto! podia fazer vários e publicar
ResponderExcluirbeijos
Deu vontade de quero mais...
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