TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

29 novembro 2009

Sobre o que eu não sei dizer para Luke







ODE AO GATO
Pablo Neruda

Os animais foram
imperfeitos
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.


Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.


Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial,
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.


Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas misterio,
todo mundo sabe de ti e pertence
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.


Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos tem números de ouro.


(Navegaciones y Regresos, 1959)




'Girassol' - acrílico sobre tela, de André Peticov

5 comentários:

  1. São nossos gatos. É o nosso Luke. ai, que saudade!!!

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  2. Meu lindo, meu anjo, meu príncipe...gato perfeito, meigo e sereno.
    Meu companheiro de preguiça, de tantas horas, tantas fases, tantos anos!
    Tua confiança em mim me fez te oferecer meu melhor.
    Vc está comigo, sigo te levando aqui...

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  3. luke eu estou com muita sáudade de vc e eu queria que vc estivesse aqui no meu cólo e vc era o gato mais bonito do mundo inteiro eu adorava vc eu não queria que vc morresse vc é o gato mais bonito mais peludo do mundo e vc está no fundo do coração e eu nunca vou esquecer de
    vc e vc nunca vai me esquecer quando eu morrer eu vou estar lenbrando de vc nós dois somos machos e os machos nunca esquece do outro se um vai em um lugar o outro tabém vai não esquece disso entendeu um bei'jo pra vc
    thauassinado pedro de toledo nascimento

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  4. o luck pra mim éra o gato mais lindo do mundo e da nossa casa quando ele dormia na minha cama eu adorava e ele éra um gato tão gostoso de abraçar mas e quando eu não sabia quem éra quem?eu pegava ele no colo e a mamãe falava!
    cuidado com as patolonas dele!um beijo para o luck e descançe bem tchau! Iago

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  5. Caramba, que poesia linda, não precisa falar mais nada.

    Beijo

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