TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

08 setembro 2010

Percepção de Felicidade

Amarilis; Açucena; Flor-de-Lis do Japão, ou de São Tiago


Ao acordar, viu que o céu estava claro, apesar do sol que se fizera tímido nesse começo de outono. O azul quase se desvanecia nas vaporosas formas das nuvens, e isso lhe trouxe uma sensação de leveza. Agradável, sem dúvida, começar o dia assim. Quando desceu as escadas para tomar seu café, percebeu que as flores no beiral da grande janela que dava para o jardim ainda estavam ali, alheias à nova estação. A Amarilis, tão desprovida de pretensão e mistério, mostrava-se atrevidamente bela, com suas pétalas vermelhas gritando para si toda atenção num cenário de resto manso. Um sorriso de grata surpresa se formou em seus lábios, pela ousadia desse esplendor retardatário; afinal, já era outono e ela, como tudo, deveria estar pronta pra se recolher, desprender e dar lugar. .
Saboreou o café fresco e bem quente(como gostava) sem pressa, jornal ao lado- que abriu, meio desinteressado, meio lunático, arrebatado por uma sensação etérea. O gato teve que miar alto pra avisar que a comida havia acabado. Sorriu novamente e encheu-lhe o prato com sua ração preferida.
Saiu caminhando pela rua ainda sem o movimento habitual. Passos largos, sentiu-se livre sem saber porque. Começou a pensar sobre isso. E começou a prestar atenção a tudo à sua volta. Viu o menino passando por ele apressado, mochila nas costas, meio descabelado, cara de sono. Sorriu, sozinho. Lembrou de si mesmo, lá pelos dez anos, relutando em levantar da cama quentinha, e atender ao insistente chamado da mãe: - ''Você só tem 15 minutos até tocar o sinal! Levanta e lava o rosto pra espantar esse sono, menino! Pega meia limpa na gaveta...''
Bons tempos em que sua única obrigação era ir à escola, o que por sorte lhe era agradável, gostava de aprender. Uma sirene tocou estridente e ele nem ouviu. Metido em seus pensamentos, sentiu a brisa refrescar seu rosto. Olhou para o céu e cismou um pouco sobre sua imensidão. -Bonito, refletiu. A vida é bem assim como o céu, imenso até não sabermos onde. Achou bonito porque, afinal, - pensou- é por não sabermos onde vai dar que estamos sempre querendo ir. Mais e mais.
Sorriu novamente e então percebeu que estava feliz! Achou que devia entender o porquê de estar assim. Por que acordara tão bem disposto, com um olhar tão generoso para consigo mesmo e o que o rodeava? Teria sonhado algo prazeroso que não estava conseguindo lembrar? Talvez devesse entender melhor esse sentimento (meio bobo até) de bem-estar, de simpática receptividade a um dia que ainda começava e nem imaginava que rumo iria tomar. Seria mesmo felicidade um estado assim tão sem motivo, sem nada grandioso a envolvê-lo ou palpável a explicá-lo - um momento em que detalhes aleatórios do passado e do presente se unissem numa harmoniosa sensação de bem-estar - , que se bastava por si mesmo, sem se preocupar com nada senão aquele instante?
De novo olhou para o céu. Continuava ali, quieto, nuvens leves passando devagar, quase transparentes, mas era como se o olhassem e dissessem: - ''Não há o que compreender, mistério a desvendar. Não hoje. Talvez não haja motivos, talvez todos os motivos ainda não lhe explicassem.''
Sorriu, e continuou a caminhar. Sem se dar conta, já cantarolava junto com os pássaros.



Um comentário:

  1. O AQUI E AGORA, HOMEOPATICAMENTE...
    CADA QUAL COM SUA BELEZA, SEU DESAFIO, SUA INQUIETAÇÃO E SUA BÊNÇÃO.

    BELO, SERENO, INCOMUM ATÉ AQUI.

    BJ

    MALU

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