TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

12 agosto 2009

Sísifo: o Heroi consciente-Albert Camus


Albert Camus

Sisyphus - von Stuck
Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até o cume de uma montanha, de onde ela caía de novo, em consequencia de seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
A acreditar em Homero, Sísifo era o mais prudente dos mortais. No entanto, segundo outras tradições, tinha tendencias para a profissão de bandido. Não vejo nisto a menor contradição. As opiniões diferem sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador Inútil dos infernos. Censura-se-lhe, de inicio, certa leviandade para com os deuses. Revelou os segredos deles. Estando quase a morrer, Sísifo quis, imprudentemente pôr à prova o amor de sua mulher. Ordenou-lhe que lançasse o seu corpo sem sepultura, para o meio da praça pública. E, então encontrou-se nos infernos. Irritado com a obediencia tão contraria ao amor humano, obteve de Plutão licença para voltar à terra e castigar sua mulher. Mas, quando viu novamente o rosto desse mundo, inebriou-se pela água e o sol, os sorrisos da terra e o mar e não quis voltar à sombra infernal. Mercurio teve que vir pegar o audacioso pela gola e levá-lo à força para os infernos, onde seu rochedo já estava pronto.

Sísifo é o heroi absurdo. Tanto pelas suas paixões como pelo seu tormento. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte o levaram a esse suplicio indizivel em que o seu ser se emprega em nada terminar. É o preço que é necessario pagar pelas paixões desta terra.
Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e levar a cabo uma subida cem vezes recomeçada. No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a finalidade está atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde será preciso traze-la de novo para os cimos. E desce outra vez à planicie.
Um rosto que sofre tão perto das pedras já é, ele proprio, pedra! Desce outra vez para o tormento cujo fim nunca conhecerá.
Essa hora qué é como uma respiração e que regressa com tanta certeza como a sua desgraça, essa é a hora da consciencia. Em cada um desses instantes em que ele abandona os cumes e se enterra pouco a pouco nos covis dos deuses, Sísifo é superior ao seu destino. É mais forte do que o seu rochedo.
Se este mito é trágico, é porque seu heroi é consciente. Onde estaria, com efeito a sua tortura, se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? O operario de hoje trabalha todos os dias nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ´so é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, impotente e revoltado conhece toda a extensão de sua miseravel condição, é nela que pensa durante sua descida. A clarividencia que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo a sua vitoria. Não há destino que não se transcenda pelo desprezo.
Se esta descida faz-se, em alguns dias na dor, pode fazer-se tambem, na alegria. Imagino Sísifo voltando para o seu rochedo, no começo da dor. Quando as imagens da terra se apegam demais à lembrança, quando o chamamento da felicidade torna-se demasiado premente, acontece que a tristeza se ergue no coração do homem: é a vitoria do rochedo, é o proprio rochedo. O imenso infortunio é pesado demais para se poder carregar. Mas as verdades esmagadoras morrem quando são reconhecidas.

Só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. Toda a alegria silenciosa de Sísifo reside em saber que seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa.
Não há sol sem sombras e contemplando seu tormento, Sísifo diz sim ao único destino que ele julga fatal e desprezivel, tornando-se senhor de seus dias. Persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo.
A propria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem, em seu universo altivo e limitado.

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