TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

06 abril 2009

Escrita Automática I


















AGUILAR - Os 365 Dias - 1989 (Vidro)






















AGUILAR - Il Paradiso - 1986


A "escrita automática" é uma proposta que surgiu nos primórdios da Psicanálise, parte do 'automatismo psíquico', através do qual expressa-se o processo real do pensamento, seja verbalmente, por escrito ou por qualquer outro meio. O escritor surrealista André Breton chamava de 'texto puro', sem reflexão, concentração ou qualquer correção, o 'poema surgido do inconsciente'...Definia a técnica como 'o traço fundamental do surrealismo',o "...ditado do pensamento, na ausencia de todo controle exercido pela razão e de toda preocupação estética ou moral..."
Afirmava que o sonho tem realidade objetiva e exerce sua influencia na realidade consciente objetiva.
Se para Freud o sonho consiste num conteúdo inconsciente que assume formas do mundo da experiencia, para Breton o sonho é a própria experiencia.

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O sonho que sonhei me deu medo quando acordei não estava mais lá não sei de onde vinha nem sabia onde estava o suor escorria e precisava saber se você estava bem mais uma vez levantei tonta sem poder chegar à sala estava escuro pensei em voltar mas precisava ver mas mal podia andar tentei de novo pensar já não conseguia era algo que não podia decifrar que via acontecer e que tinha dor não tinha lógica era rápido tinha um som surdo e seco e tinha cores escuras eu ali sem poder me mexer o ar faltava procurava chegar ao telefone não podia quase caía e me segurava no batente da porta que parecia torta porque tudo girava o chão já não chegava parei por um instante fechei os olhos quis imaginar que tinha acordado e que tudo não havia passado de um sonho ruim abri os olhos estava tudo turvo e cheio de bolinhas que piscavam não podia enxergar bebi um pouco d'água achei bom tambem jogar no rosto despertei um pouco mas o frio na barriga não passava resolvi sentar tremia e a cabeça não pensava só o corpo sentia aquela certeza que não podia haver porque nada podia ter acontecido a você e não ia sossegar enquanto não ouvisse a tua voz dizendo que tudo estava bem que foi só imaginação do meu sono mesmo sabendo que não era e eu iria te dizer então que não compreendia o que era aquela sensação pois aconteceu num sonho e os sonhos são indecifráveis quando não se encontra um contexto e eu não via ali nenhum contexto nas imagens misturadas e desfocadas na verdade nem havia imagens era um não sei o quê apertando meu estômago para ver se saía pela boca que ligação mais estranha essa em que sempre que algo de ruim te acontecia eu precisava prever sem poder avisar precisava sofrer sem poder evitar pra que serviria então se não fosse só pra me atazanar porque não podia ter um sonho bom enquanto algo de ruim te acontecesse já que não tinha outra função senão a de me machucar antes de machucar você como se eu tivesse fadada a sentir tua dor e pior antes de você se pelo menos servisse para diminuir a tua mas não não alterava nada pois fatalmente eu teria a noticia logo depois de que nada estava bem e eu teria que ficar bem para que pudesse ajudá-lo pois simplesmente não podia conceber que você não estivesse então tratava de me refazer e levantar pra te resgatar e te trazer para perto de mim e preservar-te de tudo que pudesse te fazer mal por isso sabia que o melhor mesmo seria nunca ficar longe de mim porque os sonhos que eu tinha pra me avisar eram pesadelos e quase tiravam a força que eu precisava ter pra cuidar de você e a grande verdade é que só posso te proteger para que fique protegida então quando você abria a porta antes de entrar eu já sabia nos teus olhos me mostrava tentava esconder mas mais uma vez eu percebia o quanto estava assustado e ao me mostrar tuas mãos eu já sabia elas estavam cheias de sangue e tudo que esperava era que eu umedecesse uma toalha e as limpasse para que mais uma vez pudesse me abraçar e naquele momento só então e só ali poder acreditar que quem sabe um dia iria me libertar...


Denise Alves de Toledo

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