TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

20 agosto 2009

Pessoa Nefasta- video




Em música (e letra forte!) de Gilberto Gil, o video apresenta uma vigorosa interpretação executada numa formação inédita, no Programa Mosaicos-A Arte de Gilberto Gil, em abril/2009:
Andreas Kisser(Sepultura)-guitarra
Clemente(Inocentes e Plebe Rude)-guitarra e vocal
Charles Gavin(Titãs)-bateria
Bi Ribeiro(Paralamas)-baixo

Abaixo, a letra, que parece ter saído das vísceras do compositor:

Tu, pessoa nefasta
Vê se afasta teu mal
Teu astral que se arrasta tão baixo no chão
Tens a aura da besta
Essa alma bissexta, essa cara de cão
Reza
Chama pelo teu guia
Ganha fé, sai a pé, vai até a Bahia
Cai aos pés do Senhor do Bonfim
Dobra
Teus joelhos cem vezes
Faz as pazes com os deuses
Carrega contigo uma figa de puro marfim
Pede
Que te façam propícia
Que retirem a cobiça, a preguiça, a malícia
A polícia de cima de ti
Basta
Ver-te em teu mundo interno
Pra sacar teu inferno
Teu inferno é aqui
Pessoa nefasta
Tu, pessoa nefasta
Gasta um dia da vida
Tratando a ferida do teu coração
Tu, pessoa nefasta
Faz o espírito obeso
Correr, perder peso, curar, ficar são
Solta
Com a alma no espaço
Vagarás, vagarás, te tornarás bagaço
Pedaço de tábua no mar
Dia
Após dia boiando
Acabarás perdendo a ansiedade, a saudade
A vontade de ser e de estar
Livre
Das dentadas do mundo
Já não terás, no fundo, desejo profundo
Por nada que não seja bom
Não mais
Que um pedaço de tábua
A boiar sobre as águas
Sem destino nenhum
Pessoa nefasta

P.S.: nossa, até 'rupiei'...

19 agosto 2009

Elixir

Pasiphae Embracing an Olive Tree- Serigraph by Henry Matisse, a quem Miller considerava um 'vidente dançarino'


Segue um fragmento do livro Sexus, primeiro da trilogia completada por Plexus e Nexus, de Henry Miller:
"Eu a amo, de corpo e alma. Ela é tudo pra mim.
E no entanto não se parece em nada com as mulheres sonhadas, aquelas criaturas ideais que eu adorava quando menino. Não corresponde a nada que eu tenha concebido na profundeza de meu ser. É uma imagem totalmente nova, algo estranho, algo que o Destino roubou de alguma esfera desconhecida para lançar em meu caminho. Olhando pra ela, amando-a pedacinho por pedacinho verifico que a sua totalidade me escapa. Meu amor se acrescenta como uma soma, mas ela, a mulher que procuro com um amor desesperado e faminto, me escapa como um elixir. É completamente minha, de uma maneira quase servil, mas eu não a possuo. Eu é que sou possuído. Sou possuído por um amor que nunca antes se tinha oferecido a mim: um amor absorvente, amor total, amor até as unhas do pé e a sujeira debaixo delas - e, no entanto, minhas mãos estão sempre esvoaçando, sempre procurando agarrar e segurar, aprisionando o vácuo."


Gosto muito dessa obra do autor, apesar de não ter lido a trilogia toda e ter como preferido o seu 'Trópico de Câncer'.
Esse trecho que escolhi me toca por expor tão claramente a fragilidade experimentada por ele (seus personagens sempre retratavam a ele, de alguma forma) ao se confrontar com o amor em sua forma mais espontanea e desavisada que, tirando-o do que lhe era conhecido e controlável, o deixava paralisado e impotente, se lhe mostrava disponível e ao mesmo tempo, inatingível...muito lindo e muito lúcido.

14 agosto 2009

Selinho




Este selo foi um presente da autora do adorável blog http://historiasdelaurinha.blogspot.com/

Agradecendo pelo carinho e incentivo, aproveito para indicar os blogs que acompanho, a saber:


http://terradeusa.blogspot.com/ um evento em prol da sustentabilidade

http://qualquerbobagem.blogspot.com/ reflexões e questionamentos


Um beijinho, aliás, um selinho em todos...


Denise Toledo





12 agosto 2009

Sísifo: o Heroi consciente-Albert Camus


Albert Camus

Sisyphus - von Stuck
Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até o cume de uma montanha, de onde ela caía de novo, em consequencia de seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
A acreditar em Homero, Sísifo era o mais prudente dos mortais. No entanto, segundo outras tradições, tinha tendencias para a profissão de bandido. Não vejo nisto a menor contradição. As opiniões diferem sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador Inútil dos infernos. Censura-se-lhe, de inicio, certa leviandade para com os deuses. Revelou os segredos deles. Estando quase a morrer, Sísifo quis, imprudentemente pôr à prova o amor de sua mulher. Ordenou-lhe que lançasse o seu corpo sem sepultura, para o meio da praça pública. E, então encontrou-se nos infernos. Irritado com a obediencia tão contraria ao amor humano, obteve de Plutão licença para voltar à terra e castigar sua mulher. Mas, quando viu novamente o rosto desse mundo, inebriou-se pela água e o sol, os sorrisos da terra e o mar e não quis voltar à sombra infernal. Mercurio teve que vir pegar o audacioso pela gola e levá-lo à força para os infernos, onde seu rochedo já estava pronto.

Sísifo é o heroi absurdo. Tanto pelas suas paixões como pelo seu tormento. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte o levaram a esse suplicio indizivel em que o seu ser se emprega em nada terminar. É o preço que é necessario pagar pelas paixões desta terra.
Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e levar a cabo uma subida cem vezes recomeçada. No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a finalidade está atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde será preciso traze-la de novo para os cimos. E desce outra vez à planicie.
Um rosto que sofre tão perto das pedras já é, ele proprio, pedra! Desce outra vez para o tormento cujo fim nunca conhecerá.
Essa hora qué é como uma respiração e que regressa com tanta certeza como a sua desgraça, essa é a hora da consciencia. Em cada um desses instantes em que ele abandona os cumes e se enterra pouco a pouco nos covis dos deuses, Sísifo é superior ao seu destino. É mais forte do que o seu rochedo.
Se este mito é trágico, é porque seu heroi é consciente. Onde estaria, com efeito a sua tortura, se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? O operario de hoje trabalha todos os dias nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ´so é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, impotente e revoltado conhece toda a extensão de sua miseravel condição, é nela que pensa durante sua descida. A clarividencia que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo a sua vitoria. Não há destino que não se transcenda pelo desprezo.
Se esta descida faz-se, em alguns dias na dor, pode fazer-se tambem, na alegria. Imagino Sísifo voltando para o seu rochedo, no começo da dor. Quando as imagens da terra se apegam demais à lembrança, quando o chamamento da felicidade torna-se demasiado premente, acontece que a tristeza se ergue no coração do homem: é a vitoria do rochedo, é o proprio rochedo. O imenso infortunio é pesado demais para se poder carregar. Mas as verdades esmagadoras morrem quando são reconhecidas.

Só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. Toda a alegria silenciosa de Sísifo reside em saber que seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa.
Não há sol sem sombras e contemplando seu tormento, Sísifo diz sim ao único destino que ele julga fatal e desprezivel, tornando-se senhor de seus dias. Persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo.
A propria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem, em seu universo altivo e limitado.

09 agosto 2009

Feminina




Moonlit Ocean
Modigliani-Reclining Nude


O brilho da lua a traz brilhante
e distante...
Enigmática, é noite que possui
a força que não fere,
a palavra que não ensurdece,
o olhar que não cega.

Que não escancara,
sugere...
Que não diz, é sopro que chega
aos ouvidos...

No corpo que é movimento e forma pura,
seu desenho alimenta
o mistério...
Dentro e fora a suavidade, que a faz única,
é permeável...

Nessa imagem mais que perfeita
retrata sua função, divina e unicamente
bela...
De receber a criação.

Aos poucos, servindo em pequenas doses
revela...
Como magia que desnuda
e completa...
É luz que no alto do céu impera,
mas discreta...

E é assim, graciosa
e quieta...
Que descobre o véu
Da verdade do mundo.


Denise Alves de Toledo

01 agosto 2009

A LONGA CHUVA - Ray Bradbury




A chuva continuava. Era uma chuva pesada, uma chuva perpétua, suarenta e cheia de vapor; uma catadupa, uma tromba d'água, uma fonte, um chicotear os olhos, uma ressaca, à altura dos tornozelos; era uma chuva de afogar todas as chuvas e a memória das chuvas. Vinha às libras e às toneladas, destroçava a floresta e abatia as árvores como tesoura, e podava a grama e abria túneis pelo chão e derretia os arbustos. Reduzia as mãos dos homens a mãos encarquilhadas de macacos; caía uma chuva vítrea e sólida, e não parava nunca.
- Quanto falta ainda,Tenente?
- Não sei. Uma milha, dez milhas, mil.
- Não está certo?
- Como posso estar certo?
- Não gosto dessa chuva.Se pelo menos soubéssemos a que distância está o Domo Solar, eu me sentiria melhor.
- Mais uma hora ou duas, a partir daqui.
- Mesmo, Tenente?
- Claro.
- Ou você está mentindo só pra nos animar?
- Estou tentando animá-los. E cale a boca!
Os dois homens sentaram-se sob a chuva. Atrás deles, mais dois outros, molhados e cansados, que deixaram-se cair como argila que derretia.
O tenente ergueu o olhar. Tinha um rosto que já tinha sido moreno, mas que a chuva tornara pálido, e a chuva tinha lavado a cor de seus olhos, e estavam brancos, como seus dentes, como seu cabelo. Estava todo branco. Mesmo seu uniforme estava começando a embranquecer, e talvez, meio verde, com os fungos.
O tenente sentia a chuva em suas faces. - Há quantos milhões de anos foi a última estiagem, aqui em Vênus?
- Não seja tolo - falou um dos outros dois. - Nunca pára de chover em Vênus. Apenas continua, sempre e sempre. Vivi aqui por dez anos, e nunca vi um minuto, nem mesmo um segundo em que não chovesse.
- É como viver sob a água - falou o tenente, e ergueu-se pondo as armas no lugar. - Bem, é melhor ir andando. Ainda vamos achar aquele Domo Solar.
- Ou não o encontraremos - acrescentou o cínico.
- Mais uma hora, mais ou menos.
...
Andavam em fila indiana, sem falar. Chegaram a um rio amplo, e tranquilo, e marron, que escoava para o grande Mar Único. Sua superficie estava pontilhada em um bilhão de lugares, pela chuva.
O Tenente sentiu a fria chuva em seu rosto e em seu pescoço e em seus braços, em movimento. O frio estava começando a esgueirar-se para dentro de seus pulmões. Sentia a chuva em suas orelhas, em seus olhos, em suas pernas.
- Não dormi, a noite passada - falou.
- Quem poderia? Quem dormiu? Quando? Quantas noites dormimos? Trinta noites, trinta dias ! Quem pode dormir com a chuva martelando a cabeça, golpeando continuamente...eu daria qualquer coisa por um chapéu! Qualquer coisa, que não deixe que ela fique batendo na minha cabeça. Fico com dor de cabeça. Minha cabeça dói; dói todo o tempo.
Estou arrependido de ter vindo para a China - falou um dos outros.
- É a primeira vez que ouço chamarem Vênus de China.
- Claro, China. Cura chinesa pela água. Lembra-se da velha tortura? Você fica amarrado num poste. Uma gota de água em sua cabeça a cada meia hora. Você enlouquece, esperando pela próxima gota. Bem ,Vênus é assim, mas em grande escala. não fomos feitos para água. Não pode respirar, não pode dormir, e enlouquece só por estar molhado. Se estivéssemos bem equipados para um pouso de emergencia, teríamos trazido chapéus, e uniform,es à prova d'água. É esta chuva batendo na nossa cabeça que enlouquece. É tão pesada. É que nem chumbo miúdo. Não sei quanto tempo ainda vou aguentar.
- Rapaz, não vejo a hora de chegar ao Domo Solar! O homem que os inventou, realmente fez uma grande coisa.
Cruzaram o rio, e ao cruzá-lo, pensavam no Domo Solar, em algum ponto à sua frente, brilhando, na chuva da selva. Uma casa amarela, redonda e luminosa, como o Sol. Uma casa de quarenta pés de altura e cem pés de diâmetro, onde havia calor, e silencio, e comida quente, e nada de chuva. E no centro do Domo Solar, é claro, um sol. Um pequeno globo flutuando livremente, de fogo amarelo, boiando num espaço na parte superior da construção, onde você podia olhar para ele, sentado, fumando, ou lendo um livro, ou bebendo seu chocolate quente, com marshmallow, ou bebendo alguma outra coisa. Lá estaria ele, o sol amarelo, do tamanho do sol da Terra, e era quente e permanente, e o mundo chuvoso de Vênus estaria esquecido, enquanto se ficasse lá dentro, com todo o tempo do mundo.
...

Um pouco de ficção científica, num conto do livro F de Foguete, do mesmo autor de "Farenheit 451", adaptado para o cinema por François Truffaut, em 1966.
Para 'viajar' um pouco e imaginarmos que, no final das contas, aqui na Terra AINDA está tudo bem...

Obs.: clique aqui para ler o conto completo:
http://riesemberg.blogspot.com/2009/10/chuva-ray-bradbury.html
Cheers !

18 julho 2009

A CONTRATIO SENSU

Rembrandt; The Storm on the Sea of Galilee A Minha Felicidade -

Depois de estar cansado de procurar
Aprendi a encontrar.
Depois de um vento me ter feito frente
Navego com todos os ventos.
F. Nietzsche
~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.


Se tem corrente nado contra.
Não me interessa o que está selado,
se conheço o destino vou querer apressá-lo...
Qual a graça?
Grande é o mar que navego,
não importa pra onde me leva.

Não paro, não me atenho a detalhes;
o que me rege não me domina mas me conduz.
Conheço meus passos, cada um deles,
pois minha consciência está localizada em meu coração.

O que vivo é riqueza, como vivo e o que ofereço.
Desconheço a fraqueza, o que posso fazer se não temo a vida?
E quando o orgulho surge, e a desprezo um tanto,
Um mal estar logo me traz de volta ao meu real tamanho.

Às vezes chamamos de simples as coisas que são apenas óbvias.
Não me interessa, o que posso fazer?
Pra mim não importa o caminho, mas sim o que me move a ele.
E vem do coração. E sempre contra a corrente.

Em mim não há o previsivel, esse me dá sono e fastio.
Não quero tudo agora, quero o que sinto, sempre.
Diferente, consistente.
E forte, tem que ser. Hão de haver tempestades.
A vida é tempestade, engano querer controlá-la.
Pouco ganharia garantindo o que é mais fácil...

Sendo assim, a vida e eu, desafio aceito:
Dou meu coração e ela me dá os caminhos.
Não importa onde me leve...


Denise Alves de Toledo
 
Licença Creative Commons
Apenas Conto o que Senti de Denise Toledo é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.
Based on a work at apenascontooquesenti.blogspot.com.