TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

15 outubro 2010

Não o Tempo; Só Silêncio



Atordoada com palavras tento escapar
Ziguezagueio em meio a verdades
Tiroteio de ilusões
Não consigo me ouvir
Não quero, não quero!


Encolhida em minha quietude anseio
Pelo silêncio
Penso no tempo, logo irá passar
Mas logo volta a torrente das vozes
Anunciando respostas, travestidas de deuses!


Volto o olhar para o céu, e o que vejo é o passado
Será que isso não basta?
Tão presente, e tão inatingível!
Me aconchego, então, em seus braços
Não me deixe enganar, não me deixe...


Me deixo levar, já não importa
Os gritos lá fora já não me ensurdecem
Me solto, completamente e forte
Os sons emudecem e fracos
O universo é silêncio, e me acolhe.

É só o que quero, não desvendá-lo.



Red Balloon-Paul Klee, 1922

06 outubro 2010

Chorando no Campo - Lobão

A chuva cai chorando

E meu amor vai e vem

No céu o chão a rede vai (me vai levando)

A noite alem da noite

Me faz lembrar

O que não vivi

E toda essa história

Esse segredo

Memória num vendaval

Pela estrada enquanto eu passo

O cinema é só ilusão

Vou chorando pelo campo

No meio do temporal

A chuva dá saudade

De um lugar que eu nunca fui

E o vento vai soprando o choro tão distante

Pela estrada enquanto eu passo

O cinema é só ilusão

Vou chorando pelo campo

No meio do temporal

03 outubro 2010

Boa Eleição, Brasileiros!

23 setembro 2010

Nem Sempre Amor

Demorei a perceber, ou fui percebendo aos poucos: você estava feliz. Não a tranquilidade forçada, o sorriso doído, as palavras calculadas. Te vi desarmado, sem se dar conta de que corria o risco de ficar entregue. Tanto teatro pra nada!
Não foi porque quis que vi, não esperava você assim, tão nu. Sei lá, talvez as palavras acabaram por te enfraquecer, tanto tempo, quantos recomeços do mesmo ponto. Talvez a ingenuidade com que tudo era tratado tomou conta da cena e ao longo dos intermináveis- e incrivelmente perseverantes- dias tornou desnecessário manter o personagem. Ou inútil, quem sabe.
Só sei dizer que me surpreendi! Por um momento fiquei a contemplar, naquele instante estive a te observar de longe, não misturada.
Passei então a pensar o que você faria, assim que algo em você mesmo o chamasse de volta. Sim, porque isso iria acontecer, não iria aguentar correr o perigo de tornar-se um idiota.
Depois que te olhei assim, de fora, não consegui mais voltar, pois já estava com as armas nas mãos.

O Amor é uma Arte? e a Arte...Ilusão ?

17 setembro 2010

REFLEXÕES (4)


"Por mais que aparentemente o discurso seja pouco importante, as interdições que o atingem logo e depressa revelam a sua ligação com o desejo e com o poder. E o que há de surpreendente nisso, já que o discurso - como a psicanálise nos demonstrou - não é simplesmente o que manifesta(ou oculta) o desejo; é tambem o que é o objeto do desejo; e já que - a história não cessa de nos indicar - o discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, aquilo pelo que se luta, o poder do qual procuramos apoderar-nos."

Michel Foucault, in 'A Ordem do Discurso'

PENSE.

10 setembro 2010

Não Pertenço (uma visão fenomenológica)



Eu sou livre
Eu tenho o direito de me construir
Apesar da angústia de ser só
Por essa angústia de existir só
Eu sou livre

Quero dar o meu sentido
O olhar de mais ninguem
Não decidi começar
Lançado à sorte sem saber pra onde
Que seja autêntica, pois, minha existência

Não escolho fugir, quero encontrar
Não sou massa, não me dissolvo
Não sou pedaços
Não me perco de mim

Meu amparo sou eu mesmo
Na profundidade de me re-conhecer
É no agora, a busca eterna
A liberdade é minha sina.


08 setembro 2010

Percepção de Felicidade

Amarilis; Açucena; Flor-de-Lis do Japão, ou de São Tiago


Ao acordar, viu que o céu estava claro, apesar do sol que se fizera tímido nesse começo de outono. O azul quase se desvanecia nas vaporosas formas das nuvens, e isso lhe trouxe uma sensação de leveza. Agradável, sem dúvida, começar o dia assim. Quando desceu as escadas para tomar seu café, percebeu que as flores no beiral da grande janela que dava para o jardim ainda estavam ali, alheias à nova estação. A Amarilis, tão desprovida de pretensão e mistério, mostrava-se atrevidamente bela, com suas pétalas vermelhas gritando para si toda atenção num cenário de resto manso. Um sorriso de grata surpresa se formou em seus lábios, pela ousadia desse esplendor retardatário; afinal, já era outono e ela, como tudo, deveria estar pronta pra se recolher, desprender e dar lugar. .
Saboreou o café fresco e bem quente(como gostava) sem pressa, jornal ao lado- que abriu, meio desinteressado, meio lunático, arrebatado por uma sensação etérea. O gato teve que miar alto pra avisar que a comida havia acabado. Sorriu novamente e encheu-lhe o prato com sua ração preferida.
Saiu caminhando pela rua ainda sem o movimento habitual. Passos largos, sentiu-se livre sem saber porque. Começou a pensar sobre isso. E começou a prestar atenção a tudo à sua volta. Viu o menino passando por ele apressado, mochila nas costas, meio descabelado, cara de sono. Sorriu, sozinho. Lembrou de si mesmo, lá pelos dez anos, relutando em levantar da cama quentinha, e atender ao insistente chamado da mãe: - ''Você só tem 15 minutos até tocar o sinal! Levanta e lava o rosto pra espantar esse sono, menino! Pega meia limpa na gaveta...''
Bons tempos em que sua única obrigação era ir à escola, o que por sorte lhe era agradável, gostava de aprender. Uma sirene tocou estridente e ele nem ouviu. Metido em seus pensamentos, sentiu a brisa refrescar seu rosto. Olhou para o céu e cismou um pouco sobre sua imensidão. -Bonito, refletiu. A vida é bem assim como o céu, imenso até não sabermos onde. Achou bonito porque, afinal, - pensou- é por não sabermos onde vai dar que estamos sempre querendo ir. Mais e mais.
Sorriu novamente e então percebeu que estava feliz! Achou que devia entender o porquê de estar assim. Por que acordara tão bem disposto, com um olhar tão generoso para consigo mesmo e o que o rodeava? Teria sonhado algo prazeroso que não estava conseguindo lembrar? Talvez devesse entender melhor esse sentimento (meio bobo até) de bem-estar, de simpática receptividade a um dia que ainda começava e nem imaginava que rumo iria tomar. Seria mesmo felicidade um estado assim tão sem motivo, sem nada grandioso a envolvê-lo ou palpável a explicá-lo - um momento em que detalhes aleatórios do passado e do presente se unissem numa harmoniosa sensação de bem-estar - , que se bastava por si mesmo, sem se preocupar com nada senão aquele instante?
De novo olhou para o céu. Continuava ali, quieto, nuvens leves passando devagar, quase transparentes, mas era como se o olhassem e dissessem: - ''Não há o que compreender, mistério a desvendar. Não hoje. Talvez não haja motivos, talvez todos os motivos ainda não lhe explicassem.''
Sorriu, e continuou a caminhar. Sem se dar conta, já cantarolava junto com os pássaros.



 
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