
e Caim matou Abel...

The Murder,1868
by Paul Cezanne
Em um estojo tem um punhal.
Foi forjado em Toledo, a fins do século passado;
foi dado a meu pai por Luís Melián Lafinur, que o trouxe do Uruguai;
Evaristo Carriego esteve com ele algumas vezes em suas mãos.
Os que o vêem tem que brincar um pouco com ele;
se percebe que faz muito que o buscavam;
a mão se apressa em apertar o cabo que a espera;
a lâmina obediente e poderosa entra com precisão na bainha.
Outra coisa quer o punhal.
É mais que uma estrutura feita de metais;
os homens o pensaram e o formaram para um fim muito preciso;
é, de alguma forma eterno,
o punhal que esta noite matou um homem em Tacuarembó
e os punhais que mataram a César.
Quer matar, quer derramar sangue.
Em um estojo do escritorio, entre rascunhos e cartas,
interminavelmente sonha o punhal seu sonho simples de tigre,
e a mão se anima quando o rege.
Porque o metal pressente em cada contato o homicida
para o qual o criaram os homens.
Às vezes me dá pena.
Tanta dureza, tanta fé, tão amena ou inocente soberba,
e os anos passam, inúteis.



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