TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

18 julho 2009

A CONTRATIO SENSU

Rembrandt; The Storm on the Sea of Galilee A Minha Felicidade -

Depois de estar cansado de procurar
Aprendi a encontrar.
Depois de um vento me ter feito frente
Navego com todos os ventos.
F. Nietzsche
~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.~.


Se tem corrente nado contra.
Não me interessa o que está selado,
se conheço o destino vou querer apressá-lo...
Qual a graça?
Grande é o mar que navego,
não importa pra onde me leva.

Não paro, não me atenho a detalhes;
o que me rege não me domina mas me conduz.
Conheço meus passos, cada um deles,
pois minha consciência está localizada em meu coração.

O que vivo é riqueza, como vivo e o que ofereço.
Desconheço a fraqueza, o que posso fazer se não temo a vida?
E quando o orgulho surge, e a desprezo um tanto,
Um mal estar logo me traz de volta ao meu real tamanho.

Às vezes chamamos de simples as coisas que são apenas óbvias.
Não me interessa, o que posso fazer?
Pra mim não importa o caminho, mas sim o que me move a ele.
E vem do coração. E sempre contra a corrente.

Em mim não há o previsivel, esse me dá sono e fastio.
Não quero tudo agora, quero o que sinto, sempre.
Diferente, consistente.
E forte, tem que ser. Hão de haver tempestades.
A vida é tempestade, engano querer controlá-la.
Pouco ganharia garantindo o que é mais fácil...

Sendo assim, a vida e eu, desafio aceito:
Dou meu coração e ela me dá os caminhos.
Não importa onde me leve...


Denise Alves de Toledo

28 junho 2009

MICHAEL, MICHAEL, MICHAEL



















Anjo.
Gabriel, Rafael, Michael ( Miguel )

Rei.
Gênio, ingênuo, homem, menino?
Branco, negro, pálido, multicor...
Máscara que escancara.
Virgem.
Virgem, Plutão, Sol.
Isolado em conjunção onde tudo é oculto.
Exilio.
O brilho dado em sacrifício...
Humano.
Sereno, meigo...entidade, et?
Delírio, suavidade, doçura;
Flutua, encanta, dança e canta...
A Voz.
É Luz.
É Negro dentro.
O corpo fala...
Manso, intenso, sensual, visceral.
E se esvai...
Ascende, hipnotiza, evapora.
Desvanece, desconfigura, e vai embora...
Um sopro, um fluido.
Transmuta, adormece, voa.
O infinito guarda um lugar encantado;
seu passo lunar o leva para lá.
Lunático e leve, tão leve, o compasso...
E os anjos lhe aguardam dançando;
brancos, as almas são negras.
Não importa a cor.
Era o que queria dizer...
Não poderia aguentar, seu corpo.
Agora, enfim, esquecer a dor
E sentir apenas o redentor e eterno
Torpor.

Denise Alves de Toledo



11 junho 2009

Livre Arbítrio - Uma Reflexão
















Jesus, mestre e Senhor! Sei que estou submetido a leis soberanas nas quais não posso intervir, cabendo-me apenas acatar e aceitar a tua amorosa vontade como o melhor e o mais justo recurso à minha evolução!...
Mas, dentro dessas leis posso movimentar-me à vontade, aceitando ou não à sua influencia sobre mim, acertando ou errando conforme o meu desejo e minha inclinação...
Sou livre para escolher o que de melhor me serve no momento, dentro do panorama que tu me ofereces por aprendizado, tomando o rumo das estrelas ou a estrada do despenhadeiro, sempre em conformidade com o clima espiritual de minha preferencia.
Mas a minha vontade ainda é perfectivel e nem sempre, ao impulso dela, os resultados são benéficos à minha alma trazendo-me, bastas vezes, dolorosas chagas que me cumpre sempre mais tarde medicar...
Por outro lado e, por não compreender-te plenamente, ainda, às vezes não gosto do que me ofereces e por isso nem sempre tomo o caminho que desejaria que eu tomasse, para o meu proprio bem...
Olho o mundo em torno e anoto nele deficiências de toda ordem e meu coração te censura silenciosamente, infinitas vezes, por não mudares o que considero imoral, injusto e desumano!
Vejo o caos aos meus pés e clamo por tua intervenção e, ainda assim o mal progride e o violento impera, qual se te fosse mais importante verificar o grau de minha tolerancia e o limite de minha fé, perante os acontecimentos e não o sofrimento e a ruína que essas ações provocam em todos aqueles que lhes sofrem a sinistra influenciação!...
Nesses momentos, Senhor, surge a inconformação e a revolta, um gosto amargo e perene pelo que aí está, situações que tu não alteras e que eu não tenho o poder de modificar...
Queria, Senhor, eu o confesso, melhorar de um só toque o mundo em que vivo e, sem me importar com mais nada entregar paz e harmonia à Terra, independentemente de provas e provações, de durezas espirituais e dolorosos burilamentos...
Mas, impotente e frágil, nada mais posso fazer que chorar muitas vezes estendendo em torno mãos que não tocam, palavras que não consolam.
E então percebo que só tu tens o poder supremo de socorrer, salvar, modificar ou corrigir...
É muito pouco a pouco que compreendo o que significa livre-arbítrio e de que modo posso usufruí-lo em meu beneficio e ainda sem causar males ao outro.
Aprendo lentamente que existem liberdades e liberdades, dentro das quais posso alterar o meu destino para melhor ou dificultar de vez a minha evolução...
Sou livre, sim, para tomar o rumo que melhor me aprouver tomar, Senhor, mas sempre dentro do que, no momento,tu dispões visando o meu aprendizado e o meu progresso.
Se nem tudo corre como deveria, se acontecem alterações de planos, mesmo que infinitamente dolorosos não importa a ti quem os causou e nem de que forma o fizeram, mas sim a minha reação individual perante o fato, como consequencia direta e inalienável sobre o meu futuro espiritual...
Não modificas imediatamente a paisagem em torno, salvo condições especialíssimas, mas enxuga minhas lágrimas se me aproximo de ti buscando consolação e força, ou me aguardas maior entendimento para mais alem, quando eu compreender que tudo é harmonia, mesmo sob aparente dor e desordem. Que sorrir apenas na bem aventurança não é manifestação de fé, da mesma fé que posso provar ao sentir tua mão estendida quando preciso de teu colo.
Não me abandonas jamais, Senhor,à vezes aguarda ,isso sim, que o compreenda efetivamente.
Aprendo, enfim, Senhor, que se não tenho o poder de modificar a marcha natural da Terra posso fazer muito para minimizar toda a especie de sofrimento, na mesma medida meu e do outro, doando amor e solidariedade isentos de revolta, egoísmo e incompreensão, para que minha ajuda seja benção e nunca maldição...
Ampara-me, Senhor, para que eu prossiga em meu aprendizado com lucidez e boa vontade, porque comprendo tambem que, de meu gesto individual depende a paz em torno dos meus passos, e que minhas opções sempre influenciarão os outros levando concordia e alegria ou proporcionando dor e dificuldades, sempre de acordo com o meu livre arbítrio!

Assim seja.

Do espírita André Luiz


The Supper at Emmaus - 1601 - Caravaggio



08 junho 2009

Você já foi à Amazonia?










É certo que o turismo internacional foi incorporado de vez pela classe média, já há um bom tempo. Seus olhos e economias estão sempre voltados a experimentar a sensação de estar no primeiro mundo. De ser primeiro mundo.
Porem, entre um intercambio, férias, estagios e outros em países distantes há a possibilidade - dentro do que hoje se chama de ecoturismo - de se visitar a Amazonia, poderosa detentora de 20% de toda a água do planeta e a maior floresta tropical do mundo.
Ainda.
Oportunidade de se conhecer aquela que já foi considerada o 'pulmão do mundo' sem precisar para isso obter um visto de turista, já que, ao que tudo indica, em breve isso não será impossivel de acontecer.
A opção (para os bolsos mais medianos) pela hospedagem em Manaus permite passeios - e compras! - na Zona Franca, área de livre comercio que se tornou um expressivo pólo industrial especializado na montagem de aprarelhos eletrônicos importados.

Um forno, Manaus. O chamado inverno é caracterizado por uma chuvinha fraca que cai nos finais de tarde, refrescando brevemente o intenso calor, abafado e úmido. E só. No restante do tempo, temperaturas de mais de 30º são constantes.
O que há de mais atual e interessante são os 'hotéis de selva', procuradíssimos por estrangeiros abastados. Modernos e rústicos ao mesmo tempo proporcionam uma aventura interativa com a exuberancia e misterios ali enraizados.

























Navegando pelo Rio Amazonas - o maior do mundo - em embarcações de dois andares, tem-se uma ideia da vastidão do imenso rio-mar!
Em alguns trechos não se pode avistar nenhuma de suas margens e a sensação é a de que se está no meio do oceano. Para se percorrer os igarapés - braços estreitos de rio existentes em grande número na bacia amazônica - utiliza-se canoas motorizadas e pode-se contemplar, não sem um certo espanto a marca das cheias gravadas no alto de árvores de mais de 40 metros de altura; como se tivesse sido desenhada, tamanha sua precisão.





Durante o percurso as palafitas - inacreditaveis moradias literalmente fincadas sobre o rio -têm sempre grupos de nativos com forte traços indígenas à frente, familias inteiras com suas crianças quase nuas se expondo com complacência aos olhares incrédulos daqueles desconhecidos.Quando menos se espera podem surgir botos cor de rosa circundando amistosamente a embarcação. Esses simpáticos e inteligentes 'golfinhos de água doce' costumam brindar os passageiros com esse privilégio. É lindo e emocionante!





Completando a viagem chega-se ao Encontro das Águas, fenômeno que ocorre na confluência dos rios Negro - de água preta e Solimões - de água barrenta, onde as águas dos dois rios correm lado a lado sem se misturar, devido à diferença de temperatura, densidade e velocidade. Em restaurantes flutuantes pode-se saborear pratos típicos feitos com peixes da região - dentre os mais apreciados estão o pirarucu e o tucunaré.




Na programação dos hotéis na selva estão incluídas até expedições noturnas pelo rio e caminhadas pela floresta, proporcionando ver de perto a maior biodiversidade do planeta em sua condição natural.
Dificil é não se sentir um invasor.















Sugestão de viagem fora do padrão consumista e de 'cultura de massa', conhecer a Amazonia é compreender um pouco sobre o que o homem não poderá nunca alcançar ou explicar (apesar de ter o poder de destruí-la): a perfeição da natureza!
Seja lá como tenha sido concebida...


Denise Alves de Toledo

20 maio 2009

O Velho e o Mar - Ernst Hemingway




O Autor



Desenho da animação de Alexander Petrov


Pensando em reproduzir um trecho do livro "O Velho e o Mar" (o preferido de meu pai) e folheando uma de suas primeiras edições originais, guardada por ele como preciosidade, me deparei com uma frase atribuída como lema de seu autor, Ernst Hemingway:
"A razão antes do coração."
Após uma breve surpresa - por ser um paradoxo à atribulada vida emocional do escritor e, principalmente ao final trágico que teve - compreendi que a afirmação retratava justamente seu desejo por uma estabilidade que nunca viria a alcançar.
Reproduzo a seguir partes do primeiro capítulo da obra, como uma metáfora da convivencia que tive com meu pai em uma época da infancia, o que de mais vivo mantenho na memoria e que representa a maior influencia através da qual vim a me colocar perante a vida.
A narrativa me traz a compreensão de que, quanto mais velhos ficamos mais coisas temos que deixar para trás.
E o que importa é o que transmitimos a outra pessoa, daquilo que adquirimos.
É só o que fica.
Esse é o valor do aprendizado da vida.

Intercalo ao texto desenhos do primoroso trabalho do russo Alexander Petrov, cuja sensivel adaptação do livro rendeu-lhe um Oscar - em 2000 - de melhor curta-metragem de animação.
A cada imagem uma belíssima pintura.

Denise Alves de Toledo


...
- Santiago - disse-lhe o garoto quando saíam do banco de areia para onde o barco fora puxado-, eu gostaria de tornar a sair com você. Tenho ganho algum dinheiro.
O velho ensinara o garoto a pescar e por isso ele o adorava.
- Não - respondeu-lhe o velho. - Você está num barco de sorte. Fique com eles.
- Mas lembre-se daquela vez em que passamos mais de oitenta dias sem apanhar coisa alguma e depois pescamos dos grandes, todos os dias, durante três semanas.
- Lembro-me muto bem - tornou o velho. - E sei que no periodo de má sorte você não me abandonou nem duvidou de mim.
- Foi papai quem me fez mudar de barco. Ainda sou um garoto e tenho de obedecer a ele.
- Eu sei. - concordou o velho. - É natural.
- Papai não tem muita fé.
- Não - tornou a concordar o velho. - Mas nós temos, não é verdade?
...


...
- Lembro tudo desde que saímos juntos pela primeira vez.
O velho examinou-o com os seus olhos queimados pelo sol, muito carinhosos e confiantes.
- Se você fosse meu filho, eu o levaria comigo e desafiaria a má sorte - disse ele.- Mas você tem seu pai e sua mãe.
- Posso ir apanhar as sardinhas? Sei de um lugar onde é facil encontrar isca.
- Ainda me restam algumas de hoje.Ponho-as numa caixa com sal e servem para amanhã.
- Deixa eu ir arranjar isca fresca.
- Uma só - disse o velho. As suas esperanças e confiança nunca o tinham abandonado, mas agora estavam arrefecendo como a brisa quando se levanta no ar.
- Duas - devolveu o garoto.
- Duas - concordou o velho. - Não vai roubá-las, não é?
- Roubaria se fosse preciso - respondeu o garoto. - Mas não é.
- Obrigado - disse o velho pescador. Era demasiado simples para entender quando havia alcançado a humildade. Mas sabia que a alcançara e sabia que não era nenhuma vergonha nem representava nenhuma perda do verdadeiro orgulho.
...





























...
Seguiram juntos pela rua em direção à cabana do velho e entraram pela porta que estava sempre aberta. O velho encostou à parede o mastro com as velas enroladas em volta e o garoto pôs a caixa e as outras coisas no chão. O mastro era quase da altura do único quarto da cabana, que era revestida de guano, a resistente madeira das palmeiras-reais.
Dentro só havia uma cama, uma mesa, uma cadeira e um canto no chão sujo, onde se podia cozinhar a carvão.Nas paredes castanhas do duro guano viam-se uma imagem colorida do Sagrado Coração de Jesus e outra da Virgem de Cobre. Ambas eram reliquias de sua mulher. Em tempos, houvera na parede uma fotografia da esposa, mas ele a tinha tirado porque se sentia muito só ao olhá-la todos os dias;agora estava escondida atrás numa prateleira, debaixo de sua camisa lavada.
- O que você tem pra comer? - perguntou o garoto.
- Uma panela de arroz com peixe. Quer provar?
- Não, vou comer em casa. Quer que acenda o fogo?
- Não, não é preciso.
- Posso levar a rede?
- Naturalmente.
Não existia nenhuma rede e o garoto se lembrava muito bem de quando a tinham vendido.Mas essa era uma cena que repetiam todos os dias. Tambem não havia nenhuma panela de arroz com peixe e o garoto tambem sabia disso.
...

...
- Quando eu tinha a sua idade, meu garoto, andava na proa de um navio que fazia carreira para a África e foi lá que vi leões na praia, à noitinha.
- Eu sei. Você já me contou.
- Quer que eu fale da África ou de beisebol?
- Prefiro beisebol - optou o garoto.
...
- Mas afinal,qual é o maior treinador, o Luke ou o Mike Gonzales?
- Na minha opinião, os dois são da mesma categoria.
- E o melhor pescador é você.
- Não.Conheço outros melhores.
- Qué vá! - exclamou o garoto.
- Existem muitos pescadores bons e alguns mesmo ótimos. Mas como você não há nenhum.
- Obrigado. Gosto de ouvir você dizer isso e espero que não me apareça pela frente nenhum peixe grande demais para desmenti-lo.
- Não existe nenhum peixe grande o bastante para isso, se você ainda é tão forte como diz.
- Pode ser que eu não esteja tão forte como penso - admitiu o velho,- mas conheço todos os truques e não me falta decisão.
- Agora devia ir deitar para estar descansado amanhã de manhã. Vou levar estas coisas até a Esplanada.
- Então,boa noite. Irei acordá-lo de manhã.
- Você é o meu despertador - disse o garoto.
- E o meu é a idade - replicou o velho. Por que será que os velhos acordam sempre cedo? Será para terem um dia mais comprido?
- Não sei - redarguiu o garoto.- O que sei é que os moços acordam sempre tarde e mal dispostos.
- Lembro-me muito bem disso - concordou o velho. - Descanse à vontade, que acordo você a tempo.
- Durma bem,meu velho.

15 maio 2009

A Curva da Tormenta


O cenario é simples. Quando as cortinas se abrem o teatro segue totalmente escuro até que, após longos segundos irrompe o som do riscar de um fósforo, iluminando parte do rosto, máscara e chapéu de Spirit, o heroi 'sem poderes' criado pelo americano Will Eisner.
Ao fundo vislumbra-se a projeção de sua sombra. Aos poucos o palco é desvendado, tendo como cenario apenas uma grande estrutura metálica de dois andares, a partir do lado direito; uma mesa à frente, com uma garrafa de 'brandy' e dois copos, mais duas cadeiras; um aparelho de tv, pequeno e antigo, estranhamente colocado no chão, do lado esquerdo do palco.
O plano de fundo exibe agora uma animação introduzindo à historia: um muro e um poste- desenhados com ângulos ,perspectiva e luz que evocam uma atmosfera 'noir' - e o vento carregando folhas, pedaços de papel e pó. A legenda..."A Curva da Tormenta".
A historia trata do sequestro, por um cientista maluco- A.C.(de anticristo)- do poeta, escritor e dramaturgo, o renomado, genial e insano Antonin Artaud. Conceituadíssimo na localidade não identificada em que transcorre o fato.A.C. teria-o raptado para se apoderar de seu talento e criatividade delirantes, que tanto o fascinavam e dos quais tinha uma inveja incontrolavel e desmedida.

Antonin Artaud

Desta feita, queria devorá-lo, incorporar todo seu talento em seu proprio cérebro por meio de técnicas duvidosas que desenvolveu em suas suspeitas pesquisas científicas.
(Vozes começam a ser ouvidas pelo teatro).
Locutores de uma radio repercutem o pânico que se instalou na cidade, com as pessoas perplexas e chocadas pelo desaparecimento de tal celebridade! As especulações não param, até que se anuncia a participação de Spirit como o principal investigador do caso, nomeado pela policia local. Comentaristas tecem hipóteses sobre o que poderia ter acontecido ao indefeso Artaud, que simplesmente desapareceu quando ensaiava uma nova peça de seu 'teatro da crueldade'- a expressão de inspiração anarquista e surrealista que criou para retratar a dor humana, partindo da exposição da sua propria, já que acreditava no efeito libertador desse escancaramento de si mesmo, como um espelho do sofrimento humano.
(A voz de Spirit agora toma conta do ambiente)
Reproduzindo o jeito meio tolo com que costumava demonstrar surpresa, diz:
- Mas ele desapareceu...Sem deixar vestigios!!! E surge postado na beirada do palco, abrindo os braços num gesto quase ingenuo.


As luzes se voltam à mesa, onde encontram-se sentadas Dorothy e Gleice, prostitutas amigas de Spirit, uma bebendo conhaque e a outra observando as unhas pintadas de vinho.Vestem roupas muito justas e provocantes. Falam algo que não dá pra se ouvir, intercalando aos cochichos risadas um tanto escandalosas.
Spirit surge por detrás das moças e num trejeito que é quase uma dança envolve habilidosamente a cintura das duas ao mesmo tempo, se agachando e ficando com o rosto entre seus colos:
- As garotas...esperavam por mim?- Pergunta, faceiro e sorridente.
Inicia-se, então, uma patética disputa entre elas, que se alternam em avançar sobre ele acariciando-o, o que deixa claro que ele a nenhuma delas pertence...
Spirit, sempre com pouco tempo para assuntos de ordem amorosa e, na verdade não muito interessado naquele momento -já que tinha uma dificil missão a cumprir- delicadamente deixa as garotas em seus entreveros femininos - 'Logo mais à noite, queridas...'- e sobe aos seus aposentos, na parte de cima da estrutura metálica que ocupa quase metade do cenário, provocando um belo efeito visual que, somado às projeções de luz e sombras recriam a atmosfera 'cool' dos quadrinhos de Eisner. Mais uma vez, some na escuridão repentina.
(O sono de Spirit é retratado por uma cena em que uma mulher mascarada toda vestida de negro e com os cabelos vermelhos aparece manuseando um chicote, em meio a sons de risadas e gritos ouvidos em off. Vários personagens vão surgindo-inclusive o A.C., aparecendo pela primeira vez- e, como se fizessem parte de um musical alucinado cantam e dançam trechos de operetas compostas por Artaud.)

Sadismo e euforia retratando o medo e a ansiedade nos sonhos de Spirit...

Faz-se um momentaneo silencio e com o palco ainda escuro pode-se ver imagens na tv colocada no canto esquerdo. Uma mão se aproxima da tela, ao mesmo tempo em que as luzes reacendem. É A.C., que sintoniza melhor a tv e o que aparece são imagens dele falando, aparentemente numa gravação que ele mesmo enviou às emissoras, em que justifica o sequestro e avisa que não...! Não é nenhum resgate o que está pedindo. É a vida de Artaud que tenciona 'sugar', através da técnica secreta que desenvolveu, durante anos, especialmente para esse fim.
Não há possibilidade de devolvê-lo vivo ao mundo- deixa claro, em tom ameaçador- às suas criações geniais, ao sofrimento insano com que vaga pela vida!
Inesperadamente surge Artaud ao seu lado na gravação, dizendo-se amarrado voluntariamente, para não ser tentado à fuga, pois fora completamente seduzido pela missão 'redentora' de seu sequestrador, segundo sua interpretação.
Assim, brada em alto e bom som, em mais um de seus delirios:
"Fui aprisionado e assim me liberto. É o êxtase final! Num crime assentido pela propria vítima me faço personagem de meu proprio fim. Protagonista da tragedia de minha vida, enceno-a na realidade, concretizando o que previ e sempre exaltei. Representada aos pedaços em minha obra chega a seu último ato na entrega de meu corpo e de minha alma..."
(Bruscamente a imagem some do ar e o ruído da interferencia é amplificado atordoando os ouvidos.)
Uma movimentação no palco chama à atenção.
Uns dez atores se colocam a realizar números circenses, mulheres semi-nuas engolem fogo ao mesmo tempo em que dançam languidamente ao redor de homens sujos e bêbados, perigosamente 'lambidos' de leve pelas labaredas que lhes saem das bocas; mais adiante, as duas prostitutas, Dorothy e Gleice cantam muito alto, com voz aguda e entrecortada músicas sem sentido, parecendo mais um exercicio de improvisos sonoros. Uma especie de transe coletivo se instala, ao qual todos vão se juntando, menos Spirit.

A cena quase surrealista retrata seus pensamentos, confusos e desordenados à procura de uma solução ao misterio que se lhe apresenta.

Quando o canhão de luz roxa se direciona ao seu quarto, o que se vê é Spirit sentado num banco estreito e alto- mão segurando o queixo, cotovelos apoiados no joelho- cismando:
- Alguma coisa não está encaixando nessa historia! Não, Artaud não quer morrer, eu posso pressentir...Intempestivamente levanta-se e desce, escorregando por um cano.
Põe-se no meio do palco e ordena a A.C. que traga, imediatamente Artaud ao recinto para que possa terminar de montar a sua peça. A negociação envolve a promessa de que A.C. se torne o ator principal da companhia, ocupando o lugar do proprio Artaud!
-Ohhh!- Exclamam todos, virando-se imediata e sincronizadamente, com expressão de surpresa agradável em direção ao eficiente, discreto, elegante e mascarado Spirit:
-Mas que ideia brilhante...!
-Claro como água, meus caros! Todos querem as luzes dos holofotes, nada mais do que isso. Agora, com licença que vou encontrar umas amigas...
E sai, com seu andar silencioso(como se fora um espírito) que justifica o nome pelo qual se tornou conhecido, mais uma vez confirmando ter o 'sexto sentido' como sua arma mais poderosa.

Todos se retiram do palco e as luzes se fixam apenas nele, que permanece. Sua imagem passa a fazer parte da animação que começa a ser projetada no plano de fundo- seus passos vão em direção ao beco escuro, o vento carrega detritos, mais adiante o poste de luz permite enxergar um bêbado que dorme na calçada, ao lado de um menino, na rua estreita e deserta...
Na esquina, com prédios de parede descascadas e úmidas Dorothy e Gleice tiritam de frio, esperando-o.
Spirit se aproxima com seu charme bobo, arruma o chapéu, ajeita a gola do sobretudo e, abraçando as duas, arrasta-as pra dentro do bar na porta ao lado da esquina.
Ao som de Miles Davis', o desenho prossegue pela rua de chão molhado e de pouca luz, que aos poucos se apaga completamente...


Essa montagem teatral foi realizada por um grupo de artistas paulistas quando a utilização de recursos multimidia ainda eram raros em espetáculos e, a partir de então, se estabeleceu definitivamente.
Vanguardistas, niilistas, meio loucos, meio visionários, seus idealizadores não tinham muita pretensão; a expressão artística brotava espontaneamente, da inquietação natural provocada por suas capacidades criadoras.
Uma pequena companhia foi montada e o processo de criação foi coletivo, com a participação de amigos, esposas, namoradas e alguns profissionais, todos de alguma forma ligados à arte.
Um exemplo bem sucedido do bordão "do it yourself" ,apregoado pelos punks no final da década de 70, a peça ficou em cartaz em algumas salas de importantes teatros do circuito paulistano, durante alguns meses.
Sua lembrança é muito pontual em nossos dias, em que todos fazem muito.
Do mesmo.
Nada de novo no 'front'!
Como já lembrava- há muito tempo, em uma de suas múisicas- Clemente, um velho punk ...

por Denise Alves de Toledo

12 maio 2009

Transformação





Chovia e chovia...
Presságio de sol, eu sabia.
Impossível não perceber o movimento
lento e criador,
no murmúrio intermitente
que era só o que se podia ouvir.

O céu não importava, naqueles dias.
Ao cair da chuva empalidecia, se apagava um pouco, em espera.
A vida se detinha à terra que, receptiva em sua essência,
serena, absorvia...

E todas as coisas se alteravam,
não podia ser diferente.
Os casulos, as folhas secas, as copas das árvores, as raízes;
a natureza toda se movendo sem alarde,
com seu jeito manso
de provocar transformação...

Ao abrir a janela eu já imaginava,
por ter me misturado à chuva
e me feito parte da renovação,
que você surgiria junto com o sol pródigo,
com lindas flores nas mãos.
Aproximar-se-ia com seu jeito franco e meigo,
e confiante e forte e inteiro me levaria
pelo novo caminho que acabara de se abrir para nós...
E o que digo é o bastante, terra que sou,
permeável ao que me chega suave, nada demais.
Sublime é a natureza
que me mostra aonde vou !


Denise Alves de Toledo




 
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