TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

15 maio 2009

A Curva da Tormenta


O cenario é simples. Quando as cortinas se abrem o teatro segue totalmente escuro até que, após longos segundos irrompe o som do riscar de um fósforo, iluminando parte do rosto, máscara e chapéu de Spirit, o heroi 'sem poderes' criado pelo americano Will Eisner.
Ao fundo vislumbra-se a projeção de sua sombra. Aos poucos o palco é desvendado, tendo como cenario apenas uma grande estrutura metálica de dois andares, a partir do lado direito; uma mesa à frente, com uma garrafa de 'brandy' e dois copos, mais duas cadeiras; um aparelho de tv, pequeno e antigo, estranhamente colocado no chão, do lado esquerdo do palco.
O plano de fundo exibe agora uma animação introduzindo à historia: um muro e um poste- desenhados com ângulos ,perspectiva e luz que evocam uma atmosfera 'noir' - e o vento carregando folhas, pedaços de papel e pó. A legenda..."A Curva da Tormenta".
A historia trata do sequestro, por um cientista maluco- A.C.(de anticristo)- do poeta, escritor e dramaturgo, o renomado, genial e insano Antonin Artaud. Conceituadíssimo na localidade não identificada em que transcorre o fato.A.C. teria-o raptado para se apoderar de seu talento e criatividade delirantes, que tanto o fascinavam e dos quais tinha uma inveja incontrolavel e desmedida.

Antonin Artaud

Desta feita, queria devorá-lo, incorporar todo seu talento em seu proprio cérebro por meio de técnicas duvidosas que desenvolveu em suas suspeitas pesquisas científicas.
(Vozes começam a ser ouvidas pelo teatro).
Locutores de uma radio repercutem o pânico que se instalou na cidade, com as pessoas perplexas e chocadas pelo desaparecimento de tal celebridade! As especulações não param, até que se anuncia a participação de Spirit como o principal investigador do caso, nomeado pela policia local. Comentaristas tecem hipóteses sobre o que poderia ter acontecido ao indefeso Artaud, que simplesmente desapareceu quando ensaiava uma nova peça de seu 'teatro da crueldade'- a expressão de inspiração anarquista e surrealista que criou para retratar a dor humana, partindo da exposição da sua propria, já que acreditava no efeito libertador desse escancaramento de si mesmo, como um espelho do sofrimento humano.
(A voz de Spirit agora toma conta do ambiente)
Reproduzindo o jeito meio tolo com que costumava demonstrar surpresa, diz:
- Mas ele desapareceu...Sem deixar vestigios!!! E surge postado na beirada do palco, abrindo os braços num gesto quase ingenuo.


As luzes se voltam à mesa, onde encontram-se sentadas Dorothy e Gleice, prostitutas amigas de Spirit, uma bebendo conhaque e a outra observando as unhas pintadas de vinho.Vestem roupas muito justas e provocantes. Falam algo que não dá pra se ouvir, intercalando aos cochichos risadas um tanto escandalosas.
Spirit surge por detrás das moças e num trejeito que é quase uma dança envolve habilidosamente a cintura das duas ao mesmo tempo, se agachando e ficando com o rosto entre seus colos:
- As garotas...esperavam por mim?- Pergunta, faceiro e sorridente.
Inicia-se, então, uma patética disputa entre elas, que se alternam em avançar sobre ele acariciando-o, o que deixa claro que ele a nenhuma delas pertence...
Spirit, sempre com pouco tempo para assuntos de ordem amorosa e, na verdade não muito interessado naquele momento -já que tinha uma dificil missão a cumprir- delicadamente deixa as garotas em seus entreveros femininos - 'Logo mais à noite, queridas...'- e sobe aos seus aposentos, na parte de cima da estrutura metálica que ocupa quase metade do cenário, provocando um belo efeito visual que, somado às projeções de luz e sombras recriam a atmosfera 'cool' dos quadrinhos de Eisner. Mais uma vez, some na escuridão repentina.
(O sono de Spirit é retratado por uma cena em que uma mulher mascarada toda vestida de negro e com os cabelos vermelhos aparece manuseando um chicote, em meio a sons de risadas e gritos ouvidos em off. Vários personagens vão surgindo-inclusive o A.C., aparecendo pela primeira vez- e, como se fizessem parte de um musical alucinado cantam e dançam trechos de operetas compostas por Artaud.)

Sadismo e euforia retratando o medo e a ansiedade nos sonhos de Spirit...

Faz-se um momentaneo silencio e com o palco ainda escuro pode-se ver imagens na tv colocada no canto esquerdo. Uma mão se aproxima da tela, ao mesmo tempo em que as luzes reacendem. É A.C., que sintoniza melhor a tv e o que aparece são imagens dele falando, aparentemente numa gravação que ele mesmo enviou às emissoras, em que justifica o sequestro e avisa que não...! Não é nenhum resgate o que está pedindo. É a vida de Artaud que tenciona 'sugar', através da técnica secreta que desenvolveu, durante anos, especialmente para esse fim.
Não há possibilidade de devolvê-lo vivo ao mundo- deixa claro, em tom ameaçador- às suas criações geniais, ao sofrimento insano com que vaga pela vida!
Inesperadamente surge Artaud ao seu lado na gravação, dizendo-se amarrado voluntariamente, para não ser tentado à fuga, pois fora completamente seduzido pela missão 'redentora' de seu sequestrador, segundo sua interpretação.
Assim, brada em alto e bom som, em mais um de seus delirios:
"Fui aprisionado e assim me liberto. É o êxtase final! Num crime assentido pela propria vítima me faço personagem de meu proprio fim. Protagonista da tragedia de minha vida, enceno-a na realidade, concretizando o que previ e sempre exaltei. Representada aos pedaços em minha obra chega a seu último ato na entrega de meu corpo e de minha alma..."
(Bruscamente a imagem some do ar e o ruído da interferencia é amplificado atordoando os ouvidos.)
Uma movimentação no palco chama à atenção.
Uns dez atores se colocam a realizar números circenses, mulheres semi-nuas engolem fogo ao mesmo tempo em que dançam languidamente ao redor de homens sujos e bêbados, perigosamente 'lambidos' de leve pelas labaredas que lhes saem das bocas; mais adiante, as duas prostitutas, Dorothy e Gleice cantam muito alto, com voz aguda e entrecortada músicas sem sentido, parecendo mais um exercicio de improvisos sonoros. Uma especie de transe coletivo se instala, ao qual todos vão se juntando, menos Spirit.

A cena quase surrealista retrata seus pensamentos, confusos e desordenados à procura de uma solução ao misterio que se lhe apresenta.

Quando o canhão de luz roxa se direciona ao seu quarto, o que se vê é Spirit sentado num banco estreito e alto- mão segurando o queixo, cotovelos apoiados no joelho- cismando:
- Alguma coisa não está encaixando nessa historia! Não, Artaud não quer morrer, eu posso pressentir...Intempestivamente levanta-se e desce, escorregando por um cano.
Põe-se no meio do palco e ordena a A.C. que traga, imediatamente Artaud ao recinto para que possa terminar de montar a sua peça. A negociação envolve a promessa de que A.C. se torne o ator principal da companhia, ocupando o lugar do proprio Artaud!
-Ohhh!- Exclamam todos, virando-se imediata e sincronizadamente, com expressão de surpresa agradável em direção ao eficiente, discreto, elegante e mascarado Spirit:
-Mas que ideia brilhante...!
-Claro como água, meus caros! Todos querem as luzes dos holofotes, nada mais do que isso. Agora, com licença que vou encontrar umas amigas...
E sai, com seu andar silencioso(como se fora um espírito) que justifica o nome pelo qual se tornou conhecido, mais uma vez confirmando ter o 'sexto sentido' como sua arma mais poderosa.

Todos se retiram do palco e as luzes se fixam apenas nele, que permanece. Sua imagem passa a fazer parte da animação que começa a ser projetada no plano de fundo- seus passos vão em direção ao beco escuro, o vento carrega detritos, mais adiante o poste de luz permite enxergar um bêbado que dorme na calçada, ao lado de um menino, na rua estreita e deserta...
Na esquina, com prédios de parede descascadas e úmidas Dorothy e Gleice tiritam de frio, esperando-o.
Spirit se aproxima com seu charme bobo, arruma o chapéu, ajeita a gola do sobretudo e, abraçando as duas, arrasta-as pra dentro do bar na porta ao lado da esquina.
Ao som de Miles Davis', o desenho prossegue pela rua de chão molhado e de pouca luz, que aos poucos se apaga completamente...


Essa montagem teatral foi realizada por um grupo de artistas paulistas quando a utilização de recursos multimidia ainda eram raros em espetáculos e, a partir de então, se estabeleceu definitivamente.
Vanguardistas, niilistas, meio loucos, meio visionários, seus idealizadores não tinham muita pretensão; a expressão artística brotava espontaneamente, da inquietação natural provocada por suas capacidades criadoras.
Uma pequena companhia foi montada e o processo de criação foi coletivo, com a participação de amigos, esposas, namoradas e alguns profissionais, todos de alguma forma ligados à arte.
Um exemplo bem sucedido do bordão "do it yourself" ,apregoado pelos punks no final da década de 70, a peça ficou em cartaz em algumas salas de importantes teatros do circuito paulistano, durante alguns meses.
Sua lembrança é muito pontual em nossos dias, em que todos fazem muito.
Do mesmo.
Nada de novo no 'front'!
Como já lembrava- há muito tempo, em uma de suas múisicas- Clemente, um velho punk ...

por Denise Alves de Toledo

Um comentário:

  1. Tem novidades no front sim...rsrs Retornei pra te ler, mais um pouquinho e me incluir como seguidora oficial de seu blog. Te gosto e torço muitão por vc! Beijinhos mil

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