

Desenho da animação de Alexander Petrov
Pensando em reproduzir um trecho do livro "O Velho e o Mar" (o preferido de meu pai) e folheando uma de suas primeiras edições originais, guardada por ele como preciosidade, me deparei com uma frase atribuída como lema de seu autor, Ernst Hemingway:
"A razão antes do coração."
Após uma breve surpresa - por ser um paradoxo à atribulada vida emocional do escritor e, principalmente ao final trágico que teve - compreendi que a afirmação retratava justamente seu desejo por uma estabilidade que nunca viria a alcançar.
Reproduzo a seguir partes do primeiro capítulo da obra, como uma metáfora da convivencia que tive com meu pai em uma época da infancia, o que de mais vivo mantenho na memoria e que representa a maior influencia através da qual vim a me colocar perante a vida.
A narrativa me traz a compreensão de que, quanto mais velhos ficamos mais coisas temos que deixar para trás.
E o que importa é o que transmitimos a outra pessoa, daquilo que adquirimos.
É só o que fica.
Esse é o valor do aprendizado da vida.
Intercalo ao texto desenhos do primoroso trabalho do russo Alexander Petrov, cuja sensivel adaptação do livro rendeu-lhe um Oscar - em 2000 - de melhor curta-metragem de animação.
A cada imagem uma belíssima pintura.
Denise Alves de Toledo

...
- Santiago - disse-lhe o garoto quando saíam do banco de areia para onde o barco fora puxado-, eu gostaria de tornar a sair com você. Tenho ganho algum dinheiro.
- Santiago - disse-lhe o garoto quando saíam do banco de areia para onde o barco fora puxado-, eu gostaria de tornar a sair com você. Tenho ganho algum dinheiro.
O velho ensinara o garoto a pescar e por isso ele o adorava.
- Não - respondeu-lhe o velho. - Você está num barco de sorte. Fique com eles.
- Mas lembre-se daquela vez em que passamos mais de oitenta dias sem apanhar coisa alguma e depois pescamos dos grandes, todos os dias, durante três semanas.
- Lembro-me muto bem - tornou o velho. - E sei que no periodo de má sorte você não me abandonou nem duvidou de mim.
- Foi papai quem me fez mudar de barco. Ainda sou um garoto e tenho de obedecer a ele.
- Eu sei. - concordou o velho. - É natural.
- Papai não tem muita fé.
- Não - tornou a concordar o velho. - Mas nós temos, não é verdade?
...

...
- Lembro tudo desde que saímos juntos pela primeira vez.
O velho examinou-o com os seus olhos queimados pelo sol, muito carinhosos e confiantes.
- Se você fosse meu filho, eu o levaria comigo e desafiaria a má sorte - disse ele.- Mas você tem seu pai e sua mãe.
- Posso ir apanhar as sardinhas? Sei de um lugar onde é facil encontrar isca.
- Ainda me restam algumas de hoje.Ponho-as numa caixa com sal e servem para amanhã.
- Deixa eu ir arranjar isca fresca.
- Uma só - disse o velho. As suas esperanças e confiança nunca o tinham abandonado, mas agora estavam arrefecendo como a brisa quando se levanta no ar.
- Duas - devolveu o garoto.
- Duas - concordou o velho. - Não vai roubá-las, não é?
- Roubaria se fosse preciso - respondeu o garoto. - Mas não é.
- Obrigado - disse o velho pescador. Era demasiado simples para entender quando havia alcançado a humildade. Mas sabia que a alcançara e sabia que não era nenhuma vergonha nem representava nenhuma perda do verdadeiro orgulho.
...
...
Seguiram juntos pela rua em direção à cabana do velho e entraram pela porta que estava sempre aberta. O velho encostou à parede o mastro com as velas enroladas em volta e o garoto pôs a caixa e as outras coisas no chão. O mastro era quase da altura do único quarto da cabana, que era revestida de guano, a resistente madeira das palmeiras-reais.
Dentro só havia uma cama, uma mesa, uma cadeira e um canto no chão sujo, onde se podia cozinhar a carvão.Nas paredes castanhas do duro guano viam-se uma imagem colorida do Sagrado Coração de Jesus e outra da Virgem de Cobre. Ambas eram reliquias de sua mulher. Em tempos, houvera na parede uma fotografia da esposa, mas ele a tinha tirado porque se sentia muito só ao olhá-la todos os dias;agora estava escondida atrás numa prateleira, debaixo de sua camisa lavada.
- O que você tem pra comer? - perguntou o garoto.
- Uma panela de arroz com peixe. Quer provar?
- Não, vou comer em casa. Quer que acenda o fogo?
- Não, não é preciso.
- Posso levar a rede?
- Naturalmente.
Não existia nenhuma rede e o garoto se lembrava muito bem de quando a tinham vendido.Mas essa era uma cena que repetiam todos os dias. Tambem não havia nenhuma panela de arroz com peixe e o garoto tambem sabia disso.
...
...

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- Quando eu tinha a sua idade, meu garoto, andava na proa de um navio que fazia carreira para a África e foi lá que vi leões na praia, à noitinha.
- Eu sei. Você já me contou.
- Quer que eu fale da África ou de beisebol?
- Prefiro beisebol - optou o garoto.
...
- Mas afinal,qual é o maior treinador, o Luke ou o Mike Gonzales?
- Na minha opinião, os dois são da mesma categoria.
- E o melhor pescador é você.
- Não.Conheço outros melhores.
- Qué vá! - exclamou o garoto.
- Existem muitos pescadores bons e alguns mesmo ótimos. Mas como você não há nenhum.
- Obrigado. Gosto de ouvir você dizer isso e espero que não me apareça pela frente nenhum peixe grande demais para desmenti-lo.
- Não existe nenhum peixe grande o bastante para isso, se você ainda é tão forte como diz.
- Pode ser que eu não esteja tão forte como penso - admitiu o velho,- mas conheço todos os truques e não me falta decisão.
- Agora devia ir deitar para estar descansado amanhã de manhã. Vou levar estas coisas até a Esplanada.
- Então,boa noite. Irei acordá-lo de manhã.
- Você é o meu despertador - disse o garoto.
- E o meu é a idade - replicou o velho. Por que será que os velhos acordam sempre cedo? Será para terem um dia mais comprido?
- Não sei - redarguiu o garoto.- O que sei é que os moços acordam sempre tarde e mal dispostos.
- Lembro-me muito bem disso - concordou o velho. - Descanse à vontade, que acordo você a tempo.
- Durma bem,meu velho.





Consegui, amiga. hahaha! Comunicação é tudo. Ah! O texto é magnifico e sublime. Não tenho dúvida que o importante das voltas que a vida dá, é o que deixamos de aprendizado vivido. Bjs.
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