TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

22 agosto 2009

Chuva e Sol


desenho de Pedro
















desenho de Iago




Pode ser chuva ou pode ser sol
Caranguejo ou caracol
Capoeira ou futebol
Um sorriso ou uma careta,
Traquinagem ou coisa certa.

Falar muito, até que os ouvidos transbordem
Pode cantar ou assobiar
Pode ter sempre replay,
Ser em dobro ou um por vez
Movimentar-se como não fosse possível...Parar
Ter muita fome de tudo
Contudo, antes saber dar.

Ser branco, negro, arco-íris na alma
Pequena mas de alegria enorme
Pode ter nos olhos o brilho, por vezes lágrima
Ter medo do monstro ou ser super herói
Que conquista o mundo todo dia
Mas é do bem, isso não varia.

Pode o azul ser claro ou escuro
Do céu ou do mar, sempre em seus traços
Rabiscados com a língua pra fora
Ou em silêncio compenetrado.
Podem seus dedos serem rápidos
Ou o pensamento voar pelas horas...

Pode ou não compreender
Quando nem lhe dizem tchau
Mas já sabe que amizade sincera
Necessita um bem-querer
Pode sentir-se só ou junto
Nesse começar no mundo
Mas sabe que o só vai passar, e o junto permanecer.

Pode querer tudo o que vê
A figurinha ou a TV
De incontáveis polegadas
Ou entender que já tem tudo...
Pode ter cachorro e gato
E ainda querer salvar mil outros
Esboço de compaixão que revela
Coração já vem de berço, pulsando.

Pode qualquer coisa, na verdade
Semente de mostarda ou árvore frondosa!
Faça chuva ou faça sol
Só o que não poderia
Era deixar de ser o que são
Amados sem condição!


Para Pedro e Iago

Denise Alves de Toledo



Uma Tarde, Para Sempre


Um recanto, um refúgio
De céu e geografia perfeitos
Emolduram o encontro, quase secreto
Tão particular
O silêncio enquadra a cena
Em que o calor se abriga
No sopro do vento discreto
A visão colorida pelo ambiente
Percebe cores vivas
Porem, serenas

Eles, então, ali se abrigam
Mas é como se não estivessem
Incorporam-se ao que parece imóvel
Mas os leva para longe dali
Misturam-se ao verde e ao brilho do sol
Pelo branco das nuvens perpassam
E riem
Como crianças fazendo arte, escondidas
Ninguem pode ouvi-los
Quem sabe a longínqua estrela
Ao lado de quem já brincam
Felizes
Sem se aperceber do tempo
Num espaço que a eles pertence
Ao mesmo tempo em que pertencem a ele

E nesse exato momento compreendem
Ainda que não lhes importe
Que aquela tarde que o acaso
Fez questão de trazer, caprichoso
Não se acabaria, mesmo após o regresso
Pois o quadro que ali foi pintado
Bem que se poderia dizer
Retratava a eternidade...

Denise Alves de Toledo



20 agosto 2009

Pessoa Nefasta- video




Em música (e letra forte!) de Gilberto Gil, o video apresenta uma vigorosa interpretação executada numa formação inédita, no Programa Mosaicos-A Arte de Gilberto Gil, em abril/2009:
Andreas Kisser(Sepultura)-guitarra
Clemente(Inocentes e Plebe Rude)-guitarra e vocal
Charles Gavin(Titãs)-bateria
Bi Ribeiro(Paralamas)-baixo

Abaixo, a letra, que parece ter saído das vísceras do compositor:

Tu, pessoa nefasta
Vê se afasta teu mal
Teu astral que se arrasta tão baixo no chão
Tens a aura da besta
Essa alma bissexta, essa cara de cão
Reza
Chama pelo teu guia
Ganha fé, sai a pé, vai até a Bahia
Cai aos pés do Senhor do Bonfim
Dobra
Teus joelhos cem vezes
Faz as pazes com os deuses
Carrega contigo uma figa de puro marfim
Pede
Que te façam propícia
Que retirem a cobiça, a preguiça, a malícia
A polícia de cima de ti
Basta
Ver-te em teu mundo interno
Pra sacar teu inferno
Teu inferno é aqui
Pessoa nefasta
Tu, pessoa nefasta
Gasta um dia da vida
Tratando a ferida do teu coração
Tu, pessoa nefasta
Faz o espírito obeso
Correr, perder peso, curar, ficar são
Solta
Com a alma no espaço
Vagarás, vagarás, te tornarás bagaço
Pedaço de tábua no mar
Dia
Após dia boiando
Acabarás perdendo a ansiedade, a saudade
A vontade de ser e de estar
Livre
Das dentadas do mundo
Já não terás, no fundo, desejo profundo
Por nada que não seja bom
Não mais
Que um pedaço de tábua
A boiar sobre as águas
Sem destino nenhum
Pessoa nefasta

P.S.: nossa, até 'rupiei'...

19 agosto 2009

Elixir

Pasiphae Embracing an Olive Tree- Serigraph by Henry Matisse, a quem Miller considerava um 'vidente dançarino'


Segue um fragmento do livro Sexus, primeiro da trilogia completada por Plexus e Nexus, de Henry Miller:
"Eu a amo, de corpo e alma. Ela é tudo pra mim.
E no entanto não se parece em nada com as mulheres sonhadas, aquelas criaturas ideais que eu adorava quando menino. Não corresponde a nada que eu tenha concebido na profundeza de meu ser. É uma imagem totalmente nova, algo estranho, algo que o Destino roubou de alguma esfera desconhecida para lançar em meu caminho. Olhando pra ela, amando-a pedacinho por pedacinho verifico que a sua totalidade me escapa. Meu amor se acrescenta como uma soma, mas ela, a mulher que procuro com um amor desesperado e faminto, me escapa como um elixir. É completamente minha, de uma maneira quase servil, mas eu não a possuo. Eu é que sou possuído. Sou possuído por um amor que nunca antes se tinha oferecido a mim: um amor absorvente, amor total, amor até as unhas do pé e a sujeira debaixo delas - e, no entanto, minhas mãos estão sempre esvoaçando, sempre procurando agarrar e segurar, aprisionando o vácuo."


Gosto muito dessa obra do autor, apesar de não ter lido a trilogia toda e ter como preferido o seu 'Trópico de Câncer'.
Esse trecho que escolhi me toca por expor tão claramente a fragilidade experimentada por ele (seus personagens sempre retratavam a ele, de alguma forma) ao se confrontar com o amor em sua forma mais espontanea e desavisada que, tirando-o do que lhe era conhecido e controlável, o deixava paralisado e impotente, se lhe mostrava disponível e ao mesmo tempo, inatingível...muito lindo e muito lúcido.

14 agosto 2009

Selinho




Este selo foi um presente da autora do adorável blog http://historiasdelaurinha.blogspot.com/

Agradecendo pelo carinho e incentivo, aproveito para indicar os blogs que acompanho, a saber:


http://terradeusa.blogspot.com/ um evento em prol da sustentabilidade

http://qualquerbobagem.blogspot.com/ reflexões e questionamentos


Um beijinho, aliás, um selinho em todos...


Denise Toledo





12 agosto 2009

Sísifo: o Heroi consciente-Albert Camus


Albert Camus

Sisyphus - von Stuck
Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até o cume de uma montanha, de onde ela caía de novo, em consequencia de seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
A acreditar em Homero, Sísifo era o mais prudente dos mortais. No entanto, segundo outras tradições, tinha tendencias para a profissão de bandido. Não vejo nisto a menor contradição. As opiniões diferem sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador Inútil dos infernos. Censura-se-lhe, de inicio, certa leviandade para com os deuses. Revelou os segredos deles. Estando quase a morrer, Sísifo quis, imprudentemente pôr à prova o amor de sua mulher. Ordenou-lhe que lançasse o seu corpo sem sepultura, para o meio da praça pública. E, então encontrou-se nos infernos. Irritado com a obediencia tão contraria ao amor humano, obteve de Plutão licença para voltar à terra e castigar sua mulher. Mas, quando viu novamente o rosto desse mundo, inebriou-se pela água e o sol, os sorrisos da terra e o mar e não quis voltar à sombra infernal. Mercurio teve que vir pegar o audacioso pela gola e levá-lo à força para os infernos, onde seu rochedo já estava pronto.

Sísifo é o heroi absurdo. Tanto pelas suas paixões como pelo seu tormento. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte o levaram a esse suplicio indizivel em que o seu ser se emprega em nada terminar. É o preço que é necessario pagar pelas paixões desta terra.
Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e levar a cabo uma subida cem vezes recomeçada. No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a finalidade está atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde será preciso traze-la de novo para os cimos. E desce outra vez à planicie.
Um rosto que sofre tão perto das pedras já é, ele proprio, pedra! Desce outra vez para o tormento cujo fim nunca conhecerá.
Essa hora qué é como uma respiração e que regressa com tanta certeza como a sua desgraça, essa é a hora da consciencia. Em cada um desses instantes em que ele abandona os cumes e se enterra pouco a pouco nos covis dos deuses, Sísifo é superior ao seu destino. É mais forte do que o seu rochedo.
Se este mito é trágico, é porque seu heroi é consciente. Onde estaria, com efeito a sua tortura, se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? O operario de hoje trabalha todos os dias nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ´so é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, impotente e revoltado conhece toda a extensão de sua miseravel condição, é nela que pensa durante sua descida. A clarividencia que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo a sua vitoria. Não há destino que não se transcenda pelo desprezo.
Se esta descida faz-se, em alguns dias na dor, pode fazer-se tambem, na alegria. Imagino Sísifo voltando para o seu rochedo, no começo da dor. Quando as imagens da terra se apegam demais à lembrança, quando o chamamento da felicidade torna-se demasiado premente, acontece que a tristeza se ergue no coração do homem: é a vitoria do rochedo, é o proprio rochedo. O imenso infortunio é pesado demais para se poder carregar. Mas as verdades esmagadoras morrem quando são reconhecidas.

Só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. Toda a alegria silenciosa de Sísifo reside em saber que seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa.
Não há sol sem sombras e contemplando seu tormento, Sísifo diz sim ao único destino que ele julga fatal e desprezivel, tornando-se senhor de seus dias. Persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo.
A propria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem, em seu universo altivo e limitado.

09 agosto 2009

Feminina




Moonlit Ocean
Modigliani-Reclining Nude


O brilho da lua a traz brilhante
e distante...
Enigmática, é noite que possui
a força que não fere,
a palavra que não ensurdece,
o olhar que não cega.

Que não escancara,
sugere...
Que não diz, é sopro que chega
aos ouvidos...

No corpo que é movimento e forma pura,
seu desenho alimenta
o mistério...
Dentro e fora a suavidade, que a faz única,
é permeável...

Nessa imagem mais que perfeita
retrata sua função, divina e unicamente
bela...
De receber a criação.

Aos poucos, servindo em pequenas doses
revela...
Como magia que desnuda
e completa...
É luz que no alto do céu impera,
mas discreta...

E é assim, graciosa
e quieta...
Que descobre o véu
Da verdade do mundo.


Denise Alves de Toledo
 
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