TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

13 abril 2010

Uma Bela Sugestão




"NÃO TENTO DANÇAR MELHOR DO QUE NINGUEM. APENAS TENTO DANÇAR MELHOR DO QUE EU MESMO."

















MIKHAIL BARYSHNIKOV

11 abril 2010

Verdade - Carlos Drummond de Andrade


A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.




Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

03 abril 2010

Amor é Virtude; Desejo é Vício

Virtues and Vices: Nobility Anger and Accidie Envy


Não é em qualquer situação
Nem sob qualquer condição
Que o desejo se impõe
Justifica, legitima e transpõe
Barreiras, distâncias, mundos inteiros
E bastantes a si mesmos

Não é pervertendo verdades
Invertendo realidades de outrem
Invadindo histórias alheias
Ou desrespeitando a vida de alguem
Que se cria uma própria, por não possuir nenhuma

Não é com dissimulação, oportunismo ou mera ilusão
Que os erros serão esquecidos
Enganos esclarecidos
E que o passado indesejado se enterrará de vez

Não, não é com egoísmo e pretensão
Que se chega à conquista, seja lá de que valor
Pelo menos, não de verdade
Certamente, não por muito tempo
Nunca se irá esquecer o que no fundo se sabe muito bem
O que foi feito, como e porque
As circunstâncias...

Tudo emerge, de uma vez ou aos poucos
Pra mostrar e lembrar e colocar no lugar
Cada coisa, fatos suspensos no tempo
Trocados na estrada por um enganoso atalho
Não deveria ser assim...

Os erros, há alguns imperdoáveis
Afastam a leveza, o que sempre se busca
Apesar da violência disfarçada...
E aquele bem-estar, almejada sensação
De que está tudo certo
De que tudo, enfim, está em seu devido lugar
Não está

O que está como sempre esteve, e sempre estará
Inabalável e forte, sereno e tranquilo
É o amor que, incondicional em essência
Não se priva de libertar
E deixar ir, pra não se deixar corromper no vício

Pois o que se sente não se escolhe, é virtude dada
Mas o que se quer ter, sim.
Assim como o preço a pagar.



Denise Alves de Toledo

"O rosto enganador deve ocultar o que o falso coração sabe."
Willian Shakespeare




31 março 2010

Freud- Sobre a Morte e as Coisas Simples da Vida - Parte II


...Continuamos a conversa no escritório.


A maioria dos psicanalistas emprega o método da 'livre associação' de Freud. Eles encorajam o peciente a dizer qualquer coisa que lhes venha à cabeça, não importando o quanto o que dizem pode ser idiota, obsceno, importuno ou irrelevante. Eles não apreciam o desejo de cooperação ativa do paciente, pois têm receio que, quando descoberta a direção de sua investigação, os desejos e a resistência do paciente lutem inconscientemente para manter seus segredos, desviando o caçador psíquico da sua pista.
Freud tambem reconhece esse perigo.
"Às vezes, eu penso", disse eu, "se nós não seríamos mais felizes se conhecêssemos menos o processo que forma nossos pensamentos e emoções. A psicanálise tira o encantamento da vida, quando segue a pista de cada um dos sentimentos até os seus complexos básicos. Não ficamos felizes ao descobrir nosso lado selvagem, criminoso e animal."


Freud's psychoanalytic couch

"O que o senhor tem contra os animais?", respondeu Freud. "A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana."
"Por quê?"
"Porque os animais são muito simples. Eles não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu mecanismo intelectual e psíquico.
O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas a ele. O selvagem pode cortar a sua cabeça, comê-lo, torturá-lo, mas ele vai poupá-lo das pequenas provocações que, às vezes, tornam a vida em uma comunidade cilvilizada quase intolerável.
Os hábitos e idiossincrasias mais desagradáveis do homem, como a trapaça, a covardia e a falta de respeito, são produzidos pela sua adaptação incompleta a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura.
As emoções intensas, diretas e simples de um cachorro, ao abanar o rabo ou latir quando contrariado são muito mais agradáveis! As emoções de um cachorro", acrescentou Freud pensativo, "me fazem lembrar dos heróis da antiguidade. Talvez seja por isso que nós, inconscientemente damos aos cães nomes de heróis da antiguidade, como Aquiles ou Heitor."
"O meu próprio cachorro", interrompi, "se chama Ajax!"

Freud sorriu.

Freud e seu chow-chow
"Até mesmo o senhor, professor, acha a existência muito complexa. No entanto, me parece que o senhor mesmo é, em parte, responsável pela complexidade da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise, ninguem sabia que a personalidade era dominada por um exército beligerante de complexos bastante censuráveis. A psicanálise fez da vida um complicado quebra-cabeça."
"De jeito nenhum", respondeu Freud. A psicanálise simplifica a vida. Nós atingimos uma nova sintese depois da análise. A psicanálise cria uma nova ordem para o labirinto onde estão perdidos certos impulsos, e tenta conduzi-los para o lugar ao qual pertencem. Ou, usando outra metáfora, ela é o fio que conduz o homem para fora do labirinto do seu próprio inconsciente."
...
"Sou apenas um principiante. Consegui trazer à tona muito do que estava enterrado nas camadas mais profundas da mente. Mas, enquanto eu só descobri alguns templos, outros podem descobrir um continente."
...
"O senhor não é apenas um cientista, é tambem um poeta. A literatura americana está impregnada pela psicanálise.
"Eu sei disso", respondeu Freud, "sou grato pelo reconhecimento, mas temo pela minha própria popularidade nos Estados Unidos. O interesse dos americanos pela psicanálise não é muito profundo. A grande popularidade leva à aceitação sem uma pesquisa séria. As pessoas apenas repetem o que escutam no teatro ou lêem nos jornais. Eles pensam que compreendem a psicanálise, porque conseguem repetir os jargões!
Os americanos são generalizadores inteligentes, mas raramente são pensadores criativos. Alem disso, os médicos americanos, bem como os austríacos, tentam apropriar-se do campo. Deixar que a psicanálise permaneça somente nas mãos dos médicos será fatal para o seu desenvolvimento."

Freud precisa dizer a verdade a todo custo! Não consegue se forçar a lisonjear os Estados Unidos onde tem a maioria de seus admiradores. Não consegue, mesmo estando em desvantagem, fazer as pazes com a profissão médica, que até hoje o aceita com grande relutância.
Apesar da sua integridade inflexível, Freud é muito cortês. Ele ouve qualquer sugestão com paciência, sem jamais tentar intimidar o entrevistador. É raro um convidado partir sem algum presente, uma lembrança de sua hospitalidade!

A noite chegara.
Estava na hora de pegar o trem de volta para a cidade que um dia abrigara esplendor imperial dos Habsburgos.
"Não me faça parecer um pessimista", comentou depois do último aperto de mão.
"Eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! As flores", acrescentou ele sorrindo, "felizmente não têm personalidade ou complexidades. Adoro as minhas flores. E não sou infeliz - pelo menos, não mais do que as outras pessoas."

O apito do meu trem soou na noite. O carro me levou à estação com rapidez. Aos poucos, a figura levemente curvada e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram ao longe.

Como Édipo, Freud olhou fundo nos olhos da Esfinge. O monstro propõe seu enigma a qualquer viajante. O andarilho que não souber a resposta será cruelmente agarrado e atirado contra as rochas. Mesmo assim, ela talvez seja mais gentil com aqueles que destrói do que com os que adivinham seu segredo.





Freud - Sobre a Morte e as Coisas Simples da Vida - Parte I

Entrevista de George Sylvester Viereck, incluída no livro "A Arte da Entrevista" - Uma Antologia de 1823 a nossos dias, organizada por Fábio Altman



"Setenta anos de idade me ensinaram aceitar a vida com alegre humildade."

Quem fazia essa declaração era o Professor Sigmund Freud, o grande explorador austríaco do lado oculto da alma.
Assim como o trágico herói grego Édipo, cujo nome está tão intimamente ligado aos princípios fundamentais da psicanálise, Freud confrontou a esfinge sem receio.
Como Édipo, ele decifrou o enigma. Pelo menos, nenhum mortal chegou tão perto dos segredos do comportamento humano quanto Freud.
Freud é para a psicologia o que Galileu foi para a astronomia. É o Cristovão Colombo do inconsciente. Ele abre novas perspectivas, sonda novas profundezas. Freud alterou todas as relações na vida, decifrando o sentido oculto das regras do inconsciente.
Conversamos na casa de veraneio de Freud em Semmering, uma montanha nos Alpes Austríacos onde os vienenses elegantes adoram se reunir. A última vez que vira o pai da psicanálise ele estava em sua casa simples na capital austríaca. Os poucos anos que separavam minha última visita desta agora multiplicaram as rugas na sua testa e aumentaram sua palidez acadêmica. A mente estava viva, o espírito firme, a cortesia impecável como sempre, mas um leve problema de fala me preocupou.









Parece que uma doença maligna no maxilar superior necessitara de uma operação. Desde então, Freud usa um aparelho mecânico para facilitar a fala.
...
Nos dias em que Freud está bem, nem se percebe a presença dele. Mas, para Freud, ele é causa de constante irritação."Eu detesto meu maxilar mecânico porque a luta com o mecanismo consome uma força preciosa. Mas é melhor ter um maxilar mecânico do que nenhum. Ainda prefiro viver a morrer.
Talvez os deuses sejam generosos conosco", continuou o pai da psicanálise, "tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos, No final, a morte parece mais tolerável do que os muitos problemas que temos que enfrentar."
...
"Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta anos", continuou o mestre e pesquisador do cérebro humano.
...
"Desfrutei de muitas coisas - do companheirismo de minha esposa, dos meus filhos, do pôr do sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que me entendeu. O que mais eu posso querer?


Bavarian Sunrise - Austria

"O senhor é famoso", disse eu. "O seu trabalho influencia a literatura de todo o mundo. O homem olha para si e para a vida com olhos diferentes por sua causa..."
...
"O fato do seu nome ser lembrado não significa nada para o senhor?"
"Absolutamente nada, mesmo que ele seja lembrado, o que não é certo..."
...
Nós andávamos por um caminho do jardim da casa. Com mãos sensíveis, Freud acariciou um arbusto que florescia.
"Estou muito mais interessado nessas flores", disse ele, "do que com o que possa acontecer comigo depois que eu morrer."

Fields of Poppies - Austria


No que me diz respeito, estou muito satisfeito em saber que o eterno absurdo de viver terminará um dia. Nossa vida se resume a uma série de obrigações, uma luta sem fim entre o ego e seu ambiente. O desejo de um prolongamento excessivo da vida me parece absurdo."
...
"É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez os homens morram porque queiram morrer. Assim como o amor e o ódio pela mesma pessoa coexistam dentro de nós, a vida é uma mistura do desejo de viver com o desejo ambivalente de morrer." Biologicamente, todo ser humano, não importando a intensidade do seu desejo de viver, anseia pelo Nirvana, pelo fim da febre chamada vida, pelo seio de Abraão. O desejo pode ser disfarçado por rodeios. Entretanto, o objetivo final da vida é a própria extinção!".
Nós podemos considerar a idéia de que a morte nos chega por vontade própria. É possível que derrotássemos a morte, não fosse pelo aliado que ela tem dentro de nós mesmos."

Começou a esfriar no jardim.

Austrian Alps


continua na próxima postagem...

23 março 2010

Saudade é bom!



Mecanismo misterioso
Da memória intenção
De eternizar, manter vivo, valor da existência
Em algum lugar, segredos que permanecem
Enternece, a sua presença
Lembrança, acompanha
Vai pra longe...E volta de repente
Em detalhes, o tempo se desloca
Agora ou antes, nunca se espera

Eis algo que não se pode escolher
Vem de lá, do desconhecido
Incontrolável, inexplicável
Questionável, alguns pensam...
Não sei porque esperam tanto

Tão real, tão sincera, tão verdade de você
De vez em quando visita, dá um olá, leva um sorriso
Faz com que olhe para o céu, sem perceber e sinta
Como é vasta a existência, tanto quanto o azul que agora vê
O mesmo de ontem, e de amanhã
Porem, pouco se compreende, por querer muito
O mundo, o mundo...
O de fora é quase nada, dias ou fatos
O que traz é o que está vivo, e não está pronto
Nunca estará
Mas é o que te dá sentido, aqui estás
Pra seguir sorrindo, por que não?
Denise Alves de Toledo


"- Você viaja para rever seu passado? Ou, será
que você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco;
os outros lugares são espelhos em negativo.
O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo
O muito que não teve e o que não terá."

Ítalo Calvino


22 março 2010

O Mal, a Fonte












Life's Question - Paul Gauguin





Não adianta fingir que o mal não existe
não querer olhar pra trás, as verdadeiras amarras
entender a origem de tudo, abandonada num grão de poeira
...cósmica?
que lhe disseram pra lançar ao universo
o passado sempre volta, alguem vem lhe lembrar
desmentindo a ilusão de que o que passou, passou...
a contaminação ronda, há que se estar inteiro, atento e forte
para que o norte não se desoriente, e a fonte não apodreça

Esse oásis inesgotável, porem tênue
que o arranca da dimensão que vibra mal, que busca o mal, que faz mal
e maldiz, ainda: -Não há cura, não há para sempre...

Ah! mas há o olhar, a porta que se abre
a coragem de adentrá-la e a recompensa escondida
de onde se bebe, sem precisar saciar-se
o que se buscava foi alcançado
é o caminho, a direção, que se mostrou e foi aceita
de querer bem, ver o bem, estar bem
com a condição de estar vivo, agora e só por um breve instante
breve mas tão completo e perfeito em si mesmo
pois nele cabe tudo e é preenchido, infinitamente
com o futuro que vai se delineando, sempre e sempre...

Não desviar o olhar, uma vez conhecida a fonte
em todo lugar, em qualquer tempo ela estará lá
se encontrada não se pode mais perde-la
venha o passado, o futuro, monstros ou fadas

Nunca secará...

É agora a própria vida!
Denise Alves de Toledo



 
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