
"Setenta anos de idade me ensinaram aceitar a vida com alegre humildade."
Quem fazia essa declaração era o Professor Sigmund Freud, o grande explorador austríaco do lado oculto da alma.
Assim como o trágico herói grego Édipo, cujo nome está tão intimamente ligado aos princípios fundamentais da psicanálise, Freud confrontou a esfinge sem receio.
Como Édipo, ele decifrou o enigma. Pelo menos, nenhum mortal chegou tão perto dos segredos do comportamento humano quanto Freud.
Freud é para a psicologia o que Galileu foi para a astronomia. É o Cristovão Colombo do inconsciente. Ele abre novas perspectivas, sonda novas profundezas. Freud alterou todas as relações na vida, decifrando o sentido oculto das regras do inconsciente.
Conversamos na casa de veraneio de Freud em Semmering, uma montanha nos Alpes Austríacos onde os vienenses elegantes adoram se reunir. A última vez que vira o pai da psicanálise ele estava em sua casa simples na capital austríaca. Os poucos anos que separavam minha última visita desta agora multiplicaram as rugas na sua testa e aumentaram sua palidez acadêmica. A mente estava viva, o espírito firme, a cortesia impecável como sempre, mas um leve problema de fala me preocupou.

Parece que uma doença maligna no maxilar superior necessitara de uma operação. Desde então, Freud usa um aparelho mecânico para facilitar a fala.
...
Nos dias em que Freud está bem, nem se percebe a presença dele. Mas, para Freud, ele é causa de constante irritação."Eu detesto meu maxilar mecânico porque a luta com o mecanismo consome uma força preciosa. Mas é melhor ter um maxilar mecânico do que nenhum. Ainda prefiro viver a morrer.
Nos dias em que Freud está bem, nem se percebe a presença dele. Mas, para Freud, ele é causa de constante irritação."Eu detesto meu maxilar mecânico porque a luta com o mecanismo consome uma força preciosa. Mas é melhor ter um maxilar mecânico do que nenhum. Ainda prefiro viver a morrer.
Talvez os deuses sejam generosos conosco", continuou o pai da psicanálise, "tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos, No final, a morte parece mais tolerável do que os muitos problemas que temos que enfrentar."
...
"Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta anos", continuou o mestre e pesquisador do cérebro humano.
...
"Desfrutei de muitas coisas - do companheirismo de minha esposa, dos meus filhos, do pôr do sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que me entendeu. O que mais eu posso querer?

"O senhor é famoso", disse eu. "O seu trabalho influencia a literatura de todo o mundo. O homem olha para si e para a vida com olhos diferentes por sua causa..."
...
"O fato do seu nome ser lembrado não significa nada para o senhor?"
"Absolutamente nada, mesmo que ele seja lembrado, o que não é certo..."
...
Nós andávamos por um caminho do jardim da casa. Com mãos sensíveis, Freud acariciou um arbusto que florescia.
"Estou muito mais interessado nessas flores", disse ele, "do que com o que possa acontecer comigo depois que eu morrer."
Fields of Poppies - AustriaNo que me diz respeito, estou muito satisfeito em saber que o eterno absurdo de viver terminará um dia. Nossa vida se resume a uma série de obrigações, uma luta sem fim entre o ego e seu ambiente. O desejo de um prolongamento excessivo da vida me parece absurdo."
...
Austrian Alps
"É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez os homens morram porque queiram morrer. Assim como o amor e o ódio pela mesma pessoa coexistam dentro de nós, a vida é uma mistura do desejo de viver com o desejo ambivalente de morrer." Biologicamente, todo ser humano, não importando a intensidade do seu desejo de viver, anseia pelo Nirvana, pelo fim da febre chamada vida, pelo seio de Abraão. O desejo pode ser disfarçado por rodeios. Entretanto, o objetivo final da vida é a própria extinção!".
Nós podemos considerar a idéia de que a morte nos chega por vontade própria. É possível que derrotássemos a morte, não fosse pelo aliado que ela tem dentro de nós mesmos."
Começou a esfriar no jardim.
Austrian Alpscontinua na próxima postagem...




quem é amigo de Freud amigo meu é
ResponderExcluir