
...Continuamos a conversa no escritório.
A maioria dos psicanalistas emprega o método da 'livre associação' de Freud. Eles encorajam o peciente a dizer qualquer coisa que lhes venha à cabeça, não importando o quanto o que dizem pode ser idiota, obsceno, importuno ou irrelevante. Eles não apreciam o desejo de cooperação ativa do paciente, pois têm receio que, quando descoberta a direção de sua investigação, os desejos e a resistência do paciente lutem inconscientemente para manter seus segredos, desviando o caçador psíquico da sua pista.
Freud tambem reconhece esse perigo.
"Às vezes, eu penso", disse eu, "se nós não seríamos mais felizes se conhecêssemos menos o processo que forma nossos pensamentos e emoções. A psicanálise tira o encantamento da vida, quando segue a pista de cada um dos sentimentos até os seus complexos básicos. Não ficamos felizes ao descobrir nosso lado selvagem, criminoso e animal."

Freud's psychoanalytic couch
"O que o senhor tem contra os animais?", respondeu Freud. "A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana."
"Por quê?"
"Porque os animais são muito simples. Eles não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu mecanismo intelectual e psíquico.
O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas a ele. O selvagem pode cortar a sua cabeça, comê-lo, torturá-lo, mas ele vai poupá-lo das pequenas provocações que, às vezes, tornam a vida em uma comunidade cilvilizada quase intolerável.
Os hábitos e idiossincrasias mais desagradáveis do homem, como a trapaça, a covardia e a falta de respeito, são produzidos pela sua adaptação incompleta a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura.
As emoções intensas, diretas e simples de um cachorro, ao abanar o rabo ou latir quando contrariado são muito mais agradáveis! As emoções de um cachorro", acrescentou Freud pensativo, "me fazem lembrar dos heróis da antiguidade. Talvez seja por isso que nós, inconscientemente damos aos cães nomes de heróis da antiguidade, como Aquiles ou Heitor."
"O meu próprio cachorro", interrompi, "se chama Ajax!"
Freud sorriu.
Freud e seu chow-chow "Até mesmo o senhor, professor, acha a existência muito complexa. No entanto, me parece que o senhor mesmo é, em parte, responsável pela complexidade da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise, ninguem sabia que a personalidade era dominada por um exército beligerante de complexos bastante censuráveis. A psicanálise fez da vida um complicado quebra-cabeça."
"De jeito nenhum", respondeu Freud. A psicanálise simplifica a vida. Nós atingimos uma nova sintese depois da análise. A psicanálise cria uma nova ordem para o labirinto onde estão perdidos certos impulsos, e tenta conduzi-los para o lugar ao qual pertencem. Ou, usando outra metáfora, ela é o fio que conduz o homem para fora do labirinto do seu próprio inconsciente."
...
"Sou apenas um principiante. Consegui trazer à tona muito do que estava enterrado nas camadas mais profundas da mente. Mas, enquanto eu só descobri alguns templos, outros podem descobrir um continente."
...
"O senhor não é apenas um cientista, é tambem um poeta. A literatura americana está impregnada pela psicanálise.
"Eu sei disso", respondeu Freud, "sou grato pelo reconhecimento, mas temo pela minha própria popularidade nos Estados Unidos. O interesse dos americanos pela psicanálise não é muito profundo. A grande popularidade leva à aceitação sem uma pesquisa séria. As pessoas apenas repetem o que escutam no teatro ou lêem nos jornais. Eles pensam que compreendem a psicanálise, porque conseguem repetir os jargões!
Os americanos são generalizadores inteligentes, mas raramente são pensadores criativos. Alem disso, os médicos americanos, bem como os austríacos, tentam apropriar-se do campo. Deixar que a psicanálise permaneça somente nas mãos dos médicos será fatal para o seu desenvolvimento."
Freud precisa dizer a verdade a todo custo! Não consegue se forçar a lisonjear os Estados Unidos onde tem a maioria de seus admiradores. Não consegue, mesmo estando em desvantagem, fazer as pazes com a profissão médica, que até hoje o aceita com grande relutância.
Apesar da sua integridade inflexível, Freud é muito cortês. Ele ouve qualquer sugestão com paciência, sem jamais tentar intimidar o entrevistador. É raro um convidado partir sem algum presente, uma lembrança de sua hospitalidade!
A noite chegara.
Estava na hora de pegar o trem de volta para a cidade que um dia abrigara esplendor imperial dos Habsburgos.
"Não me faça parecer um pessimista", comentou depois do último aperto de mão.
"Eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! As flores", acrescentou ele sorrindo, "felizmente não têm personalidade ou complexidades. Adoro as minhas flores. E não sou infeliz - pelo menos, não mais do que as outras pessoas."
O apito do meu trem soou na noite. O carro me levou à estação com rapidez. Aos poucos, a figura levemente curvada e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram ao longe.
Como Édipo, Freud olhou fundo nos olhos da Esfinge. O monstro propõe seu enigma a qualquer viajante. O andarilho que não souber a resposta será cruelmente agarrado e atirado contra as rochas. Mesmo assim, ela talvez seja mais gentil com aqueles que destrói do que com os que adivinham seu segredo.




"se nós não seríamos mais felizes se conhecêssemos menos o processo que forma nossos pensamentos "...Me identifiquei com essa observação/questionamento...Depois que a fisiologia passou a fazer parte da minha vida,a "paixão" perdeu a graça pra mim...Ou mudou o "barato"...Sei lá ,hoje acho mais incrível o mecanismo que causa a neurodepencia química que faz as pessoas se aproximarem , que o olhar galanteador que roubava o sorriso do objeto de desejo...Mas quando olho pra trás acho que me divertia mais, quando não sabia nada disso e suspirava com os beijos dos romances...
ResponderExcluiracho q é o curso natural da vida. amadurecer tem a ver com perder as ilusões. acho q muda o 'barato', vc disse bem. não posso dizer q hj queria viver nas nuvens como qdo era mais jovem. gosto da realidade.
ResponderExcluirmesmo com ela, dá pra se divertir, ainda.
bj