TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

02 abril 2009

Uma Vida Singela


Homem Bebendo - di Cavalcanti






















Mulata-di Cavalcanti



Sábado era dia de roda no vilarejo, como eram chamados os pequenos bailes de rua para o povo do lugar.
Rosinha não perdia, punha seu vestidinho de algodão mais florido, um pouco curto mas confortável, ajustando-se à sua cintura e decotado, sem ser vulgar.
Era pequena e seu corpo tinha as formas típicas da mestiçagem brasileira, fortes e bem delineadas.
Graciosa, penteava com apreço seu longo cabelo escuro e liso, amarrando em volta da cabeça um comprido e colorido lenço, o que deixava os traços expressivos de seu rosto ainda mais evidentes. A pele era morena, os olhos castanhos tinham um brilho dócil mas envolvente; nos lábios um batom carmim e nos pés esmalte cor de rosa, vestidos com sandálias de couro trançadas até o tornozelo. Borrifava-se com água de colônia fresca, arrastava seu Antonio e passava boa parte da noite dançando no chão de terra, ao som dos batuques das músicas regionais.
Antonio ficava, invariavelmente, sentado numa das mesinhas em frente ao boteco ali estrategicamente instalado, conversando e jogando sinuca. De vez em quando olhava Rosinha- que adorava ser admirada por ele- e nesses momentos, então, aproximava-se dele com movimentos provocantes como que a convidá-lo a se juntar a ela. E, invariavelmente, algum tempo depois ele se aproximava e os dois deixavam-se levar pelo ritmo inebriante, corpos coladinhos em movimentos sensuais e harmoniosos.
Rosinha abria um sorriso, fechava os olhos, jogava para trás a cabeça, deixando seu homem conduzir seu corpo já suado e solto...Ele a olhava e ela sorria.
Ela o amava. Não era mais tão menina, mas desde lá o amava. Esperara por ele desde quando ainda nem entendia o que era o amor, mas já o tinha escolhido para quando chegasse a hora!Ele era mais velho, já era um homem quando o viu pela primeira vez...
Achou-o lindo e prometeu a si mesma que era com ele que iria viver, um dia. Ele tinha a pele mais clara que a dela, os olhos de um negro profundo, bem como os cabelos que formavam largos cachos, os lábios carnudos e um sorriso...Ah, foi o sorriso que a cativou! Não, foi sua beleza inteira mas o sorriso que ele lhe abriu mostrou-lhe sua alma. De um jeito que ela nunca saberia explicar estampou-se no rosto daquele homem seu futuro. Um caminho que não seguiria só, depois de uma infãncia de tantas incertezas aquela era a primeira verdade. Que lhe chegava através do olhar de um homem que a chamou para si.
O chapéu que usava, invariavelmente, dava-lhe um ar jovial e ao mesmo tempo responsável. Era alto e seu corpo era forte. Ela achava suas pernas lindas, bem desenhadas que eram graças às andanças que fazia por ser ele um viajante. Os olhos denunciavam-lhe a ascendência "basca", eram amendoados e tinham uma expressão segura e confiável, nunca lhe fugiam.
Quando se viu com idade suficiente aproximou-se dele e o conquistou, atraente que era e tão certa do que queria. Antonio, a despeito de ser bastante vivido, nunca tinha encontrado alguem que lhe amasse assim, tão espontaneamente e sem exigências. Aceitou de bom grado essa moça que, desde adolescente dizia amá-lo, cuja inocência tocou -lhe o coração e cuja faceirice o encantava.
Viviam juntos surpreendendo-se com a intimidade verdadeira que construíam a cada dia, por terem aceitado um ao outro. Aventuravam-se pelo mundo, ele esculpia em madeira graciosos bonequinhos, pintava-os em alegres cores e ela o ajudava a vendê-los pelos vilarejos, sempre conhecendo gente nova em lugares diferentes. Lançavam-se e usufruíam das surpresas que a vida naturalmente trazia- num movimento que não precisavam forjar, o próprio curso do tempo ia trazendo- e ao qual se integravam com naturalidade.
E quando voltavam para casa, estavam cheios de novas bagagens...Eram os períodos de criação e produção do material que era, ao mesmo tempo sua aventura e seu sustento: bonequinhos que retratavam personagens da cultura da qual faziam parte, rica e diversificada, de raízes simples como seu universo.
Então, aos sábados iam às danças de roda onde Antonio podia contemplar a liberdade que Rosinha exalava ao dançar e se deixar levar pelo som contagiante, num ritmo e numa suavidade que o seduziam e fazia-o (ali tambem), invariavelmente, render-se a ela.Tarde da noite, às vezes já com o dia querendo aparecer, voltavam à casa. Ao entrar no quarto Antonio já sabia que, invariavelmente, Rosinha iria tirar as sandálias, o vestido e o lenço, refrescar-se no chuveiro e, exausta e tranquila, despojar-se de tudo, em silêncio aproximar-se dele e deixar que, mais uma vez, sua alma o encontrasse...Naquela singela expressão do existir que havia escolhido para si.

Denise Alves de Toledo

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