TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

04 abril 2009

Martim



Trabalho de Denise sobre foto de Bel


Ele foi resgatado. As duas amigas discutiram muito sobre o que fazer com ele.
Uma, medrosa e tomada por um sentimento de impotencia frente à dor, queria sacrificá-lo.
A outra, teimosa e determinada, insistia em prestar atendimento...Nenhuma das duas, porem, tinha grana, o que limitava consideravelmente qualquer iniciativa em ajudá-lo.
Por insistencia da teimosa levaram-no a uma clínica 24 hs na Rebouças, perto de onde moravam.
A veterinária de plantão concordou em deixá-lo internado sem pagamento prévio. Era um bom começo.
Começo de um longo processo que culminou com a amputação de uma das patas traseiras daquele gato malhado em amarelo e branco, grande, com pelagem curta, SRD legítimo!
Não que a amiga determinada não tenha tentado evitar o procedimento mutilador! Tentou por meses cuidar da ferida, que nunca se fechava, mas não houve jeito.
A outra amiga, a medrosa, assistia a tudo incrédula! Nunca teria coragem de ficar tanto tempo em contato com tanta dor, com tanto insucesso...
Ao final de quase um ano lá estava Martim, belo e faceiro com suas três patinhas, adaptando-se aos poucos à nova condição, miando alto, agradecido pela tenacidade da pessoa que cuidou dele e que se tornou sua dona -provavelmente a primeira- e tambem pelo lar que havia recebido graças ao acidente que quase lhe custou as 7 vidas de uma vez!

A casa era povoada por muitas crianças, o que lhe dava uma movimentação que geralmente gatos odeiam. Martim não! Ficava no cantinho mais silencioso num estado de meditação constante. De vez em quando se levantava e ia à sala, aos quartos onde as pessoas estivessem, para dar um alô. Em outras, se aconchegava no sofá, sempre perto de alguem e cochilava ao som das brincadeiras, da tv alta e da alegria de vida que ali imperava!
Desde que chegou ali adquiriu um hábito de olhar bem pra cara de sua dona e ficar miando, numa conversa que certamente remetia à historinha que viveram juntos. Relembrando e confirmando como era feliz por ela ter insistido!
Ela dizia que ele não se comportava como gato, que parecia cachorro, pela comunicabilidade que tinha com ela!
Ah! Mas justamente por isso era um gato...Se precisasse ele se faria gente até, pois o que valia era estar vivo e ter um cantinho aconchegante pra dormir...Gatos dormem muuuuuito, sábios que são, uma média de 18 horas por dia!!!

Os gatos, ao contrário do que muitos pensam, fazem-se permeáveis às situações a fim de terem seu sossego garantido! É só o que querem, ainda que não tenham muito a desejada liberdade de ir e vir, precisam poder ficar tranquilos e têm uma capacidade sem igual de conseguir isso. Sobrevivem a tudo antes de chegar a sua hora!
E são econômicos, em geral! Fazem 'festinha', sim, pros seus donos, mas não dependem disso de forma alguma!
O dono que não dependa tambem...

Nenhum outro bicho doméstico sabe ao mesmo tempo respeitar e ocupar seus espaços como um gato. Em geral eles diminuem o espaço dos donos, isso é verdade, escolhendo camas e sofás inteiros pra exercerem sua plácida existencia...Mas não se incomodam de dividir esse espaço, se não tiver jeito. Vivem bem sozinhos, desde que tenham alguem disponível para se enroscar quando queiram. Eles, não você!
Ou pra simplesmente olhar pra sua cara e miar, alto e insistentemente quando querem algo diferente pra comer. Se não tiver tudo bem, nada deixa de ficar bem quando se convive com um gato.

Assim foi com Martim até que chegou sua hora...
Quando as crianças já haviam crescido e na vida já andavam com suas próprias perninhas!
Deve ter ido em paz, acompanhou como bicho boa parte da vida de uma família de gente, de seus momentos bons e ruins, de sua união, do amor que existia ali, entre todos.
Recebeu e ofereceu. Em sua irracionalidade ensinou um pouco do que é aceitação, independencia, confiança, gratidão. Nunca é demais para o ser humano confrontar-se com esses valores. Nos animais já vem pronto.
E eles se vão quando chega a hora, silenciosos e tranquilos como vieram, porque completaram seu ciclo. Naturalmente.
Sem espalhafato, em absoluta concordancia com a natureza. Completamente integrados a ela, por isso tão seguros.

Martim foi, como milhares de outros, um gato, apenas. Que sofreu a interferencia de algum ser humano cruel em seu destino e que teve a sorte de encontrar um outro, generoso, que lhe permitiu completar o ciclo como deveria ser...

E foi.

E se foi...

Deixando saudades!

Martim, você foi especial...Fez parte da história dessas pessoas e por isso não será esquecido!
Ainda que isso seja importante apenas para nós, humanos. Pra você está tudo bem, de qualquer jeito estaria...

Para Gra, Bel, Pedro Henrique, Maria Carolina e Joãozinho, o pequeno.


Denise Alves de Toledo











6 comentários:

  1. Muito bonito, lembro ateh hoje do dia em que ele foi resgatado ....

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  2. Nossa, que lindo e mocionante!!!
    Beijos, Lucia P.

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  3. Caramba De, que história linda. Quanta generosidade, sapiencia e incrivel sensibilidade a deste Martin. A sintonia dele com sua protetora também. Adorei.

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  4. Sabe o quando defendo os animais. Não é a toa que cuido e amo de paixão duas gatinhas. São meu tesouro e minhas companhias, em tempos difíceis. Qualquer ato de amor para com os animais não tem preço. É puro conforto interior. Parabéns pelo texto. Parabéns mais uma vez pelo blog. beijos. Força na peruca..rsrs

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  5. Eu e o Morris agradecemos pela linda homenagem! Beijo grande...Val.

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  6. Essa história sempre emociona! Obrigada pela homenagem...
    Ele deixa muitas saudades...

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