TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

03 maio 2009

Humildade.Lealdade.Procedimento.



Lembrando a linguagem da velha malandragem punk de tempos atrás : - "Certo, mano, gostei do proceder..." - o lema da Gaviões da Fiel, maravilhosa torcida do Corinthians e a maior organizada do país, retrata perfeitamente o espírito corintiano. Poderia ainda incluir carisma, não fosse ele uma característica natural nesse que é sem dúvida o mais amado e tambem o mais odiado time do Brasil.
Dificil ver um torcedor corintiano que não seja absolutamente apaixonado, orgulhoso, tanto na vitória quanto na derrota (eis aí um diferencial) por fazer parte dessa 'nação'- como se auto intitulam- sugerindo formar um povo à parte. Mais difícil ainda é ver um não-corintiano não odiá-lo. Odiá-lo. Não simplesmente rechaçá-lo...Desprezá-lo, então, ninguem o faz. Passa longe disso! Dá pra dizer que há um certo despeito, às vezes claro outras nem tanto, por tamanha capacidade de identificação com a 'massa'. No mínimo por isso.
Não sou apta a fazer nenhum tratado sociológico, filosófico ou mesmo apaixonado sobre futebol. Mas que o Corinthians é diferente, isso é inegável. Qualquer acontecimento alvinegro toma uma enorme dimensão, interessa tanto a seus torcedores quanto a seus adversários. É nítido que o Corinthians tem um 'algo mais' e isso não passa despercebido por seus rivais. Há muitos palmeirenses, são paulinos, que quase gastam mais tempo preocupados em atacar o 'todo poderoso' Timão do que com seus próprios times do coração. Sabemos como o ódio está próximo do amor...
O fato é que, verdadeiramente, não há outro time que provoque tamanha identificação com sua torcida. A mais popular. A dos pobres coitados, dos que não tem educação, dignidade ou mesmo dentes. Dos humildes. Dos bandidos, da favela, dos que vivem à margem do sistema. Dos sem-pátria, que criaram uma nação própria nesse universo tão particular e simbólico que é o futebol.



Não vou fazer aqui uma "ode" ao poderoso Corinthians 'das massas', pois não é necessário, a sua história mostra por si só o que é. E tambem porque resolvi minha tendência ao fanatismo(vou explicar porque a tinha) mantendo um providencial afastamento quando o tema é futebol.
Historinha pra contar eu tenho, afinal estou aqui pra isso. Tive um pai corintiano, no melhor estilo sofredor;contido, calado.
Fui com ele ao Morumbi algumas vezes, quando criança. Nada tão emocionante como entrar num Pacaembu lotado pra ver um Corinthians com Marcelinho Carioca no auge x Flamengo nos tempos de Romário, por exemplo. Entendo e acato o que dizia Nelson Rodrigues, algo como o tempo parar, no caso para ver o Timão entrar em campo. Uma sensação que transcende; mais do que físico, o negócio é 'meta-físico' mesmo!
O fato de ser mulher complica um pouco. Não é fácil estar na arquibancada- mesmo o mais uniformizada possível- sem sentir-se uma corça indefesa, irremediavelmente cercada por centenas de leões famintos! É a natureza do homem, fazer o quê...Há contextos que propiciam um retorno aos primórdios da civilização. Melhor evitar.
Mais seguro instalar-se na tribuna de honra do Morumbi com meu pai, que era amigo do presidente do clube na época. E participar daquele espetáculo a uma confortável distância.
Assistir ao jogo com meu pai era meio sem graça. Ele não xingava, não reclamava, - às vezes saía um 'seu burro' e só - eu percebia que ficava nervoso mas era muito, muito educado para usar de uma palavra mais chula na frente da filha, a quem fazia questão de levar para lhe fazer companhia (já que não teve filhos homens). Tampouco se excedia nas comemorações de vitoria. Eu, quietinha. Minha mãe, com a ironia que lhe é peculiar, juuuura que eu usava um bonezinho do 'curintia'. Lembro disso, não...
Ela já era mais visceral! Seu pai italiano a levava para ver jogos de basquete quando menina, década de 30. Palestra ItáliaxSão Paulo. Meu avô, é claro, torcia para o time de seus compatriotas mas minha mãe apontava para o tricolor: - Eu gosto desse!
E assim foi e é até hoje. Cresci ouvindo e vendo por tabela toda a programação esportiva que falava sobre o São Paulo. Pior: ela me levava ao Pacaembu à tarde, escondida de meu pai e junto com a empregada (não sei o porque da empregada na parada,talvez como cúmplice?...) para ver jogos do Campeonato Paulista, que aconteciam nesse horário durante a semana, naqueles tempos.
Estádio vazio, não era raro encontrarmos algum conhecido, tambem dando sua escapadinha...Lembro de um corretor de seguros vizinho nosso, que estava sempre lá; minha mãe dava um tchauzinho matreiro com ar de criança que está 'fazendo arte' e esquecia de tudo vendo o 'pó de arroz' jogar!
Pior ainda: ela queria porque queria que eu me casasse com um jogador de futebol(adivinha de que time!) e tinha o péssimo costume de ficar me indicando os que achava bonitinhos. Uma vez estávamos sentadas próximo ao time de juniores, que tambem assistia ao jogo. Ela não parava de apontar, animadamente, um garoto que, segundo ela, estava me paquerando...! Deus, eu não sabia onde me enfiar, nem são-paulina eu era, será que ela não percebia que eu estava sossegada e provavelmente o menino tambem??? Tempos depois viemos a dar muita risada lembrando disso, pois esse jogador tornou-se titular do time adulto e virou ídolo da torcida. Minha mãe, sem nunca perder a oportunidade dizia: -Viiiiiiu o que perdeeeeu...?
O jogador era o Sidnei, bonitinho mesmo, com seus dread locks no cabelo...
Meu pai, coitado, nada podia. Ali era onde ela se vingava de tudo que poderia ser motivo para tal. Submissa que era, frente a um machão autoritário como ele, quando o assunto era futebol a coisa se invertia, curiosamente. Ao voltar de um jogo em que o Corinthians perdia, alem de nada dizer meu pai ainda tinha que aturar o sarcasmo nem tão velado dela, que fixava um sorrisinho quase sádico no rosto, aumentava o som daqueles programas de rádio fazendo piadinha com os 'sofredores' e não trocavam palavra.
Quando era o São Paulo que perdia, sai de baixo! Ele se enfurnava no quarto e ela bufava pelos quatro cantos da casa, à espera de um incauto para descontar seu mau humor. Nesse dias nem a comida, sempre feita com capricho e competência, saía a contento. Esse ponto fraco, digamos, de minha mãe é conhecido e respeitado na família. Ninguem mexe com ela, ela surta e tudo certo. Ah, nem preciso dizer que ela NÃO PERDE UM JOGO DO CORINTHIANS!!! Tambem não dá pra assistir ao seu lado, ela torce tanto os braços(mandinga ou sei lá o que) a cada ameaça de gol que o Timão não ganha NUNCA ao se acompanhar um jogo na sua presença.
Ainda bem que eu não estava com ela quando derrotamos tão brilhantemente o São Paulo nas semi finais do Paulistão, semana retrasada...


Outra fase interessante, ainda que traumática, deu-se no ano de 2000 quando tudo, absolutamente tudo era Corinthians e Palmeiras! Minha vida tornou-se 'o clássico'...Parecia que o mundo era composto apenas por corintianos e palmeirenses. Um perigo, se fosse verdade.
Há uma lenda pitoresca sobre a origem da rivalidade entre esses dois clubes paulistas. Eram um só, formado por imigrantes espanhóis e italianos. Quando começou a se popularizar, pouco depois de sua criação, a colonia italiana- ironicamente maior quando da sua fundação- ressentiu-se e resolveu criar uma dissidência, o Palestra Itália, com a intenção de manter exclusividade a seus legítimos descendentes. Mais ironicamente ainda, vê-se que a torcida alvi-verde atualmente é composta em sua maioria por nordestinos legítimos...
Bem, naquele ano foram tantos jogos, tantas prorrogações, decisões por pênaltis, viradas espetaculares aos 48 do segundo tempo, brigas em campo e fora dele, provocações, expulsões...Nossa! Não havia um jogo normal. Corri sério risco de me tornar fanática. Leia-se louca.
Eu morava num prédio em que os apartamentos tinham varanda. Só haviam corintianos e palmeirenses entre os moradores, penso eu. Só podia. A cada decisão, a cada jogo, deflagrava-se uma guerra. De fogos, discussões aos berros, socos nas paredes, pulos atordoantes cujo impacto chegava pelo teto...As estruturas do prédio tremiam, juro. Quando um marcava um gol, de todos os apartamentos saía alguem gritando, xingando, urrando na linguagem típica e cortês do futebol, com o agravante da rivalidade insana entre os dois clubes. E as gritarias nas varandas, esse gentil diálogo prosseguiu por todos os jogos, o ano todo e parecia que não iria acabar nunca mais. Que sofrimento!
A partir 'daquilo' decidi não ver mais jogos nem fazer torcida em nenhum campeonato. Só sei que acabamos ganhando um título de campeão mundial que ninguem engole até hoje! Em se tratando de Corinthians simplesmente desconsideram a legitimidade da conquista. Normal. 'El pueblo es pobre', aquela conquista inédita era quase uma afronta.
Mas nada impede algumas sacadas geniais, como essa que trouxe Ronaldo, permitindo renascer o Fenômeno!
E como lhe caiu bem a preciosa camisa...Poucas vezes o vi tão vibrante, tão 'vestindo a camisa', nem na seleção. E magro. Só no Corinthians é que se vê essas coisas. Aqui elas acontecem diferente. Vai sempre alem. Inexplicável.
















No mais, justificada minha tendência ao fanatismo e o consequente afastamento do mundo da bola, o que posso dizer?!
Um time com esse nome, com uma torcida intitulada 'Fiel', cujo emblema é um timão, o branco e o negro nas cores, uma torcida organizada que se chama 'Gaviões' e com um hino emblematicamente belo...Dizer que o bom gosto está no meio da plebe resume!
E, pra finalizar, como pode um lema ser tão perfeito?...

HUMILDADE. LEALDADE. PROCEDIMENTO.
Praticamente tudo que busco na vida!

Como viram, aqui tem um bando de loucos...




Denise Alves de Toledo

10 comentários:

  1. ahuahuahu muuuito bom!!

    vaaaai curintia!

    ResponderExcluir
  2. Yeah! Curingão na cabeça. Parabéns pela análise.

    ResponderExcluir
  3. Denise!!
    caracas vc analisou tudooooo, o timasso, a torcida, a estoria, os adversários, os sentimentos presentes...
    Ótimo!!
    Eu tenho orgulho de fazer parte dessa torcida!

    Bjão

    ResponderExcluir
  4. Amiga,
    Sem comentário quanto a matéria, né...rs O time em questão teve sorte. Apesar disso deixo meu beijo carinhoso da santista (tristinha)hehehehe!

    ResponderExcluir
  5. Pois é, Denise sintetizou bem o que é ser um torcedor Corinthiano; é algo além do 'normal', do racional, do comum.

    Só quem é pode dizer, assim como eu sei...

    bjus minha querida, linda.

    ass: Etiney

    ResponderExcluir
  6. Ah, odiei essa foto dos neguinhos usando o manto corintiano.

    Isso é pura intriga da oposição, querendo desmerecer a maior e melhor torcida, colocando na net.

    Se fosse o caso, aqui em Belém outro dia foram presos dois integrantes de uma quadrilha usando camisas sampaulinas. EKA de timeco, rs... E nem por isso fui lá tirar fotos dos mesmos...

    ass: Etiney

    ResponderExcluir
  7. A irma mais velha Sao Paulina protesta protesta protesta!!!

    ResponderExcluir
  8. hehehe!imagine se minha mãe lesse, então...elogiaria o texto e diria q o curintia tem mesmo, muita 'crasse'.
    ironia no grau máximo!
    hahahahaha...

    ResponderExcluir

 
Licença Creative Commons
Apenas Conto o que Senti de Denise Toledo é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.
Based on a work at apenascontooquesenti.blogspot.com.