René MagrittePassei por um blog meio bizarro, hoje. Seu conteúdo, que sugere um tom 'confessional'- como tantos - veio de encontro, porem, à questões que tento assimilar sobre o comportamento das pessoas em relação a seus desejos e seu 'estar no mundo'. Faço um pequeno devaneio sobre um tema que venho martelando nos últimos meses. Mais material para reflexão.
Chega a ter um quê de ridículo o quanto nos damos importância. Como somos egocêntricos! Como temos a tendência de manipular, desejo de dominar, e o quanto enganamos a nós mesmos para conseguir o que queremos! A imposição da vontade distorce o caráter, quebra valores, recebidos ou não, cria uma espécie de 'realidade paralela', truncando o curso natural das coisas.
O olhar com que buscamos e a razão que utilizamos já vêm contaminados pelas exigências do ego.
Por isso não gosto do que chamam 'auto-ajuda'. Sua proposta poderia ser uma prática enriquecedora a cada individuo, mas a manipulamos em benefício do ego, ainda que em sua essencia indique justamente esse perigo.
Vemos as coisas como queremos, e agimos com obstinação.
O ser ético, solidário e respeitoso às pessoas fica muito mais no discurso, a verdade é que cagamos e andamos para o outro. Tropeçamos, atropelamos, a fim de obter aquilo que incutimos na cabeça ser nosso direito. Na maioria das vezes direito de ter. Muitas vezes inspirados no que o outro tem. Sempre relacionado a poder. A competir, o que em Psicologia nos leva à situações vividas na infância, invariavelmente relacionadas a garantir o amor do pai/mãe.
E o que impera, o que foi por nós absorvido como sendo 'auto-ajuda' tem a ver com proposições absurdas, que podem acalentar o ego, mas não levam ao verdadeiro crescimento pessoal :
"Eu sou, eu quero, eu posso!"
Será...?
Essa e outras 'certezas' sugeridas pelos best-sellers de auto-ajuda foram lançadas e (in)devidamente assimiladas num mundo formatado pelo egoísmo humano.
E Jung afirmava, em sua profundidade, que o ego é o nosso centro, nossa base, nossa verdade, mas que seu trabalho é justamente trazer à luz as motivações inconscientes, a fim de que sejam transformadas e levem ao crescimento individual. Isso.
Na ânsia de sermos felizes a qualquer custo, o que vivenciamos é muito diferente das reflexões, palavras, orientações e orações que as mais variadas religiões ou filosofias propõem. Espiritualidade, eis o nome.
Desenvolver a compreensão de algo maior do que nós, nos dá a dimensão de nosso tamanho diante do Universo, e da Criação. E consequentemente de nosso papel na roda da vida. Sem essa percepção e consequente humildade, não é possível evoluir.
Algumas teorias de auto-ajuda falam em humildade, tambem, mas como meio para se atingir o que deseja. O objetivo final é sempre obter, ter. Sem nem prestar atenção a quem está à sua volta. Ou ser melhor, o que pode pressupor passar por cima, invadir, atravessar, se interpor à trajetória do outro. E nêgo se apodera deturpando tudo, como se os manuais dessem legitimidade a esse engano.
Isso não é espiritualidade. Mas mesmo assim as pessoas diariamente comemoram o que consideram vitórias, sem sequer questionar as atitudes que tiveram para alcançá-las. Nem o que as inspirou a lutar; às vezes, sentimentos menores escondidos sob o nome de amor, transformação, crescimento.
O que tenho aprendido desde que decidi buscar a minha espiritualidade é que se tem algo que não posso fazer é me deixar dominar por sentimentos menores. Sabemos, todos, quais são.
"É dando que se recebe..." Mais uma distorção. O significado é o mais puro e simples, como propunha São Francisco: o ato de dar já é, em si, receber, pois alimenta minha alma e meu coração. Não dou para receber ALGO em troca, necessariamente. Ao contrário, não se deve dar PARA receber...Mas é assim que entendemos, não é?
Não olhamos de verdade para o espelho. Movidos pelas necessidades de um ego eternamente insatisfeito, fixamos um falso olhar.
E passamos à margem. Sabemos disso, mas usamos de todos os artíficios para justificar nossos desatinos. Porque somos inteligentes e fazemos mau uso da razão.
Até o perdão - que dizem ser bom exercitar - é falso, pois o exercemos como um poder dado a nós mesmos, e não a algo superior.
O perdão é uma experiência profundamente espiritual, vem de um desejo pleno de reconhecer o mal que causamos, de sinceramente sermos humildes e admitirmos nosso potencial de crueldade.
Não acho que tenha poder para perdoar a ninguem, nem a mim mesma. Está em outra esfera, bem acima de mim. Posso transformar meus sentimentos ruins, isso posso. Não guardar mágoa, não alimentar rancores, me livrar da culpa e entregar (podem chamar de Universo, eu chamo de Deus) o que não posso controlar. O outro, por exemplo.
Sem ver no espelho o que ele verdadeiramente nos mostra de nós mesmos, nos resguardamos em 'verdades de almanaque', de desculpas em nome do 'amor', almas gêmeas e outros que tais...
Einstein, do alto de sua sensível genialidade, já alertava: "Gravitation is not responsible for people falling in love." Mistério...
Alem disso, em última instância, Amor não significa abrir mão de todo poder e dominação, e pode, inclusive, significar abnegação?
Mas entendemos que isso seria perder, e não somos capazes!
Enquanto isso, enquanto nos negamos a 'perder', vamos acumulando dúvidas, insegurança sobre se somos merecedores de sermos amados, se sabemos amar e perpetuamos um ciclo que começou lá atrás, quando éramos crianças, para 'ob-ter' Amor :
Desejo - Conquista - Frustração - Vazio
Quando nosso maior desafio seria só aprender a dar e receber Amor. Naturalmente.
E, cá entre nós, deixemos o Universo conspirar como quiser, já mexemos muito onde nem fomos chamados...
Denise Alves de Toledo



Pois é, as pessoas usam isso para sentirem-se poderosas. "EU mudo minha vida, eu controlo o Universo!" Quando dá pra usar de uma forma benéfica não só para si, mas para o próprio universo à sua volta. É só ver a prepotência d'O Segredo, que fez um manualzinho de num sei qtos pra "felicidade", basicamente. Se fosse assim fácil...
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