TUDO, ALIÁS, É A PONTA DE UM MISTÉRIO
HÁ RAZÕES E RASÕES
VIVER É IMPOSSÍVEL...

Guimarães Rosa

20 maio 2009

O Velho e o Mar - Ernst Hemingway




O Autor



Desenho da animação de Alexander Petrov


Pensando em reproduzir um trecho do livro "O Velho e o Mar" (o preferido de meu pai) e folheando uma de suas primeiras edições originais, guardada por ele como preciosidade, me deparei com uma frase atribuída como lema de seu autor, Ernst Hemingway:
"A razão antes do coração."
Após uma breve surpresa - por ser um paradoxo à atribulada vida emocional do escritor e, principalmente ao final trágico que teve - compreendi que a afirmação retratava justamente seu desejo por uma estabilidade que nunca viria a alcançar.
Reproduzo a seguir partes do primeiro capítulo da obra, como uma metáfora da convivencia que tive com meu pai em uma época da infancia, o que de mais vivo mantenho na memoria e que representa a maior influencia através da qual vim a me colocar perante a vida.
A narrativa me traz a compreensão de que, quanto mais velhos ficamos mais coisas temos que deixar para trás.
E o que importa é o que transmitimos a outra pessoa, daquilo que adquirimos.
É só o que fica.
Esse é o valor do aprendizado da vida.

Intercalo ao texto desenhos do primoroso trabalho do russo Alexander Petrov, cuja sensivel adaptação do livro rendeu-lhe um Oscar - em 2000 - de melhor curta-metragem de animação.
A cada imagem uma belíssima pintura.

Denise Alves de Toledo


...
- Santiago - disse-lhe o garoto quando saíam do banco de areia para onde o barco fora puxado-, eu gostaria de tornar a sair com você. Tenho ganho algum dinheiro.
O velho ensinara o garoto a pescar e por isso ele o adorava.
- Não - respondeu-lhe o velho. - Você está num barco de sorte. Fique com eles.
- Mas lembre-se daquela vez em que passamos mais de oitenta dias sem apanhar coisa alguma e depois pescamos dos grandes, todos os dias, durante três semanas.
- Lembro-me muto bem - tornou o velho. - E sei que no periodo de má sorte você não me abandonou nem duvidou de mim.
- Foi papai quem me fez mudar de barco. Ainda sou um garoto e tenho de obedecer a ele.
- Eu sei. - concordou o velho. - É natural.
- Papai não tem muita fé.
- Não - tornou a concordar o velho. - Mas nós temos, não é verdade?
...


...
- Lembro tudo desde que saímos juntos pela primeira vez.
O velho examinou-o com os seus olhos queimados pelo sol, muito carinhosos e confiantes.
- Se você fosse meu filho, eu o levaria comigo e desafiaria a má sorte - disse ele.- Mas você tem seu pai e sua mãe.
- Posso ir apanhar as sardinhas? Sei de um lugar onde é facil encontrar isca.
- Ainda me restam algumas de hoje.Ponho-as numa caixa com sal e servem para amanhã.
- Deixa eu ir arranjar isca fresca.
- Uma só - disse o velho. As suas esperanças e confiança nunca o tinham abandonado, mas agora estavam arrefecendo como a brisa quando se levanta no ar.
- Duas - devolveu o garoto.
- Duas - concordou o velho. - Não vai roubá-las, não é?
- Roubaria se fosse preciso - respondeu o garoto. - Mas não é.
- Obrigado - disse o velho pescador. Era demasiado simples para entender quando havia alcançado a humildade. Mas sabia que a alcançara e sabia que não era nenhuma vergonha nem representava nenhuma perda do verdadeiro orgulho.
...





























...
Seguiram juntos pela rua em direção à cabana do velho e entraram pela porta que estava sempre aberta. O velho encostou à parede o mastro com as velas enroladas em volta e o garoto pôs a caixa e as outras coisas no chão. O mastro era quase da altura do único quarto da cabana, que era revestida de guano, a resistente madeira das palmeiras-reais.
Dentro só havia uma cama, uma mesa, uma cadeira e um canto no chão sujo, onde se podia cozinhar a carvão.Nas paredes castanhas do duro guano viam-se uma imagem colorida do Sagrado Coração de Jesus e outra da Virgem de Cobre. Ambas eram reliquias de sua mulher. Em tempos, houvera na parede uma fotografia da esposa, mas ele a tinha tirado porque se sentia muito só ao olhá-la todos os dias;agora estava escondida atrás numa prateleira, debaixo de sua camisa lavada.
- O que você tem pra comer? - perguntou o garoto.
- Uma panela de arroz com peixe. Quer provar?
- Não, vou comer em casa. Quer que acenda o fogo?
- Não, não é preciso.
- Posso levar a rede?
- Naturalmente.
Não existia nenhuma rede e o garoto se lembrava muito bem de quando a tinham vendido.Mas essa era uma cena que repetiam todos os dias. Tambem não havia nenhuma panela de arroz com peixe e o garoto tambem sabia disso.
...

...
- Quando eu tinha a sua idade, meu garoto, andava na proa de um navio que fazia carreira para a África e foi lá que vi leões na praia, à noitinha.
- Eu sei. Você já me contou.
- Quer que eu fale da África ou de beisebol?
- Prefiro beisebol - optou o garoto.
...
- Mas afinal,qual é o maior treinador, o Luke ou o Mike Gonzales?
- Na minha opinião, os dois são da mesma categoria.
- E o melhor pescador é você.
- Não.Conheço outros melhores.
- Qué vá! - exclamou o garoto.
- Existem muitos pescadores bons e alguns mesmo ótimos. Mas como você não há nenhum.
- Obrigado. Gosto de ouvir você dizer isso e espero que não me apareça pela frente nenhum peixe grande demais para desmenti-lo.
- Não existe nenhum peixe grande o bastante para isso, se você ainda é tão forte como diz.
- Pode ser que eu não esteja tão forte como penso - admitiu o velho,- mas conheço todos os truques e não me falta decisão.
- Agora devia ir deitar para estar descansado amanhã de manhã. Vou levar estas coisas até a Esplanada.
- Então,boa noite. Irei acordá-lo de manhã.
- Você é o meu despertador - disse o garoto.
- E o meu é a idade - replicou o velho. Por que será que os velhos acordam sempre cedo? Será para terem um dia mais comprido?
- Não sei - redarguiu o garoto.- O que sei é que os moços acordam sempre tarde e mal dispostos.
- Lembro-me muito bem disso - concordou o velho. - Descanse à vontade, que acordo você a tempo.
- Durma bem,meu velho.

15 maio 2009

A Curva da Tormenta


O cenario é simples. Quando as cortinas se abrem o teatro segue totalmente escuro até que, após longos segundos irrompe o som do riscar de um fósforo, iluminando parte do rosto, máscara e chapéu de Spirit, o heroi 'sem poderes' criado pelo americano Will Eisner.
Ao fundo vislumbra-se a projeção de sua sombra. Aos poucos o palco é desvendado, tendo como cenario apenas uma grande estrutura metálica de dois andares, a partir do lado direito; uma mesa à frente, com uma garrafa de 'brandy' e dois copos, mais duas cadeiras; um aparelho de tv, pequeno e antigo, estranhamente colocado no chão, do lado esquerdo do palco.
O plano de fundo exibe agora uma animação introduzindo à historia: um muro e um poste- desenhados com ângulos ,perspectiva e luz que evocam uma atmosfera 'noir' - e o vento carregando folhas, pedaços de papel e pó. A legenda..."A Curva da Tormenta".
A historia trata do sequestro, por um cientista maluco- A.C.(de anticristo)- do poeta, escritor e dramaturgo, o renomado, genial e insano Antonin Artaud. Conceituadíssimo na localidade não identificada em que transcorre o fato.A.C. teria-o raptado para se apoderar de seu talento e criatividade delirantes, que tanto o fascinavam e dos quais tinha uma inveja incontrolavel e desmedida.

Antonin Artaud

Desta feita, queria devorá-lo, incorporar todo seu talento em seu proprio cérebro por meio de técnicas duvidosas que desenvolveu em suas suspeitas pesquisas científicas.
(Vozes começam a ser ouvidas pelo teatro).
Locutores de uma radio repercutem o pânico que se instalou na cidade, com as pessoas perplexas e chocadas pelo desaparecimento de tal celebridade! As especulações não param, até que se anuncia a participação de Spirit como o principal investigador do caso, nomeado pela policia local. Comentaristas tecem hipóteses sobre o que poderia ter acontecido ao indefeso Artaud, que simplesmente desapareceu quando ensaiava uma nova peça de seu 'teatro da crueldade'- a expressão de inspiração anarquista e surrealista que criou para retratar a dor humana, partindo da exposição da sua propria, já que acreditava no efeito libertador desse escancaramento de si mesmo, como um espelho do sofrimento humano.
(A voz de Spirit agora toma conta do ambiente)
Reproduzindo o jeito meio tolo com que costumava demonstrar surpresa, diz:
- Mas ele desapareceu...Sem deixar vestigios!!! E surge postado na beirada do palco, abrindo os braços num gesto quase ingenuo.


As luzes se voltam à mesa, onde encontram-se sentadas Dorothy e Gleice, prostitutas amigas de Spirit, uma bebendo conhaque e a outra observando as unhas pintadas de vinho.Vestem roupas muito justas e provocantes. Falam algo que não dá pra se ouvir, intercalando aos cochichos risadas um tanto escandalosas.
Spirit surge por detrás das moças e num trejeito que é quase uma dança envolve habilidosamente a cintura das duas ao mesmo tempo, se agachando e ficando com o rosto entre seus colos:
- As garotas...esperavam por mim?- Pergunta, faceiro e sorridente.
Inicia-se, então, uma patética disputa entre elas, que se alternam em avançar sobre ele acariciando-o, o que deixa claro que ele a nenhuma delas pertence...
Spirit, sempre com pouco tempo para assuntos de ordem amorosa e, na verdade não muito interessado naquele momento -já que tinha uma dificil missão a cumprir- delicadamente deixa as garotas em seus entreveros femininos - 'Logo mais à noite, queridas...'- e sobe aos seus aposentos, na parte de cima da estrutura metálica que ocupa quase metade do cenário, provocando um belo efeito visual que, somado às projeções de luz e sombras recriam a atmosfera 'cool' dos quadrinhos de Eisner. Mais uma vez, some na escuridão repentina.
(O sono de Spirit é retratado por uma cena em que uma mulher mascarada toda vestida de negro e com os cabelos vermelhos aparece manuseando um chicote, em meio a sons de risadas e gritos ouvidos em off. Vários personagens vão surgindo-inclusive o A.C., aparecendo pela primeira vez- e, como se fizessem parte de um musical alucinado cantam e dançam trechos de operetas compostas por Artaud.)

Sadismo e euforia retratando o medo e a ansiedade nos sonhos de Spirit...

Faz-se um momentaneo silencio e com o palco ainda escuro pode-se ver imagens na tv colocada no canto esquerdo. Uma mão se aproxima da tela, ao mesmo tempo em que as luzes reacendem. É A.C., que sintoniza melhor a tv e o que aparece são imagens dele falando, aparentemente numa gravação que ele mesmo enviou às emissoras, em que justifica o sequestro e avisa que não...! Não é nenhum resgate o que está pedindo. É a vida de Artaud que tenciona 'sugar', através da técnica secreta que desenvolveu, durante anos, especialmente para esse fim.
Não há possibilidade de devolvê-lo vivo ao mundo- deixa claro, em tom ameaçador- às suas criações geniais, ao sofrimento insano com que vaga pela vida!
Inesperadamente surge Artaud ao seu lado na gravação, dizendo-se amarrado voluntariamente, para não ser tentado à fuga, pois fora completamente seduzido pela missão 'redentora' de seu sequestrador, segundo sua interpretação.
Assim, brada em alto e bom som, em mais um de seus delirios:
"Fui aprisionado e assim me liberto. É o êxtase final! Num crime assentido pela propria vítima me faço personagem de meu proprio fim. Protagonista da tragedia de minha vida, enceno-a na realidade, concretizando o que previ e sempre exaltei. Representada aos pedaços em minha obra chega a seu último ato na entrega de meu corpo e de minha alma..."
(Bruscamente a imagem some do ar e o ruído da interferencia é amplificado atordoando os ouvidos.)
Uma movimentação no palco chama à atenção.
Uns dez atores se colocam a realizar números circenses, mulheres semi-nuas engolem fogo ao mesmo tempo em que dançam languidamente ao redor de homens sujos e bêbados, perigosamente 'lambidos' de leve pelas labaredas que lhes saem das bocas; mais adiante, as duas prostitutas, Dorothy e Gleice cantam muito alto, com voz aguda e entrecortada músicas sem sentido, parecendo mais um exercicio de improvisos sonoros. Uma especie de transe coletivo se instala, ao qual todos vão se juntando, menos Spirit.

A cena quase surrealista retrata seus pensamentos, confusos e desordenados à procura de uma solução ao misterio que se lhe apresenta.

Quando o canhão de luz roxa se direciona ao seu quarto, o que se vê é Spirit sentado num banco estreito e alto- mão segurando o queixo, cotovelos apoiados no joelho- cismando:
- Alguma coisa não está encaixando nessa historia! Não, Artaud não quer morrer, eu posso pressentir...Intempestivamente levanta-se e desce, escorregando por um cano.
Põe-se no meio do palco e ordena a A.C. que traga, imediatamente Artaud ao recinto para que possa terminar de montar a sua peça. A negociação envolve a promessa de que A.C. se torne o ator principal da companhia, ocupando o lugar do proprio Artaud!
-Ohhh!- Exclamam todos, virando-se imediata e sincronizadamente, com expressão de surpresa agradável em direção ao eficiente, discreto, elegante e mascarado Spirit:
-Mas que ideia brilhante...!
-Claro como água, meus caros! Todos querem as luzes dos holofotes, nada mais do que isso. Agora, com licença que vou encontrar umas amigas...
E sai, com seu andar silencioso(como se fora um espírito) que justifica o nome pelo qual se tornou conhecido, mais uma vez confirmando ter o 'sexto sentido' como sua arma mais poderosa.

Todos se retiram do palco e as luzes se fixam apenas nele, que permanece. Sua imagem passa a fazer parte da animação que começa a ser projetada no plano de fundo- seus passos vão em direção ao beco escuro, o vento carrega detritos, mais adiante o poste de luz permite enxergar um bêbado que dorme na calçada, ao lado de um menino, na rua estreita e deserta...
Na esquina, com prédios de parede descascadas e úmidas Dorothy e Gleice tiritam de frio, esperando-o.
Spirit se aproxima com seu charme bobo, arruma o chapéu, ajeita a gola do sobretudo e, abraçando as duas, arrasta-as pra dentro do bar na porta ao lado da esquina.
Ao som de Miles Davis', o desenho prossegue pela rua de chão molhado e de pouca luz, que aos poucos se apaga completamente...


Essa montagem teatral foi realizada por um grupo de artistas paulistas quando a utilização de recursos multimidia ainda eram raros em espetáculos e, a partir de então, se estabeleceu definitivamente.
Vanguardistas, niilistas, meio loucos, meio visionários, seus idealizadores não tinham muita pretensão; a expressão artística brotava espontaneamente, da inquietação natural provocada por suas capacidades criadoras.
Uma pequena companhia foi montada e o processo de criação foi coletivo, com a participação de amigos, esposas, namoradas e alguns profissionais, todos de alguma forma ligados à arte.
Um exemplo bem sucedido do bordão "do it yourself" ,apregoado pelos punks no final da década de 70, a peça ficou em cartaz em algumas salas de importantes teatros do circuito paulistano, durante alguns meses.
Sua lembrança é muito pontual em nossos dias, em que todos fazem muito.
Do mesmo.
Nada de novo no 'front'!
Como já lembrava- há muito tempo, em uma de suas múisicas- Clemente, um velho punk ...

por Denise Alves de Toledo

12 maio 2009

Transformação





Chovia e chovia...
Presságio de sol, eu sabia.
Impossível não perceber o movimento
lento e criador,
no murmúrio intermitente
que era só o que se podia ouvir.

O céu não importava, naqueles dias.
Ao cair da chuva empalidecia, se apagava um pouco, em espera.
A vida se detinha à terra que, receptiva em sua essência,
serena, absorvia...

E todas as coisas se alteravam,
não podia ser diferente.
Os casulos, as folhas secas, as copas das árvores, as raízes;
a natureza toda se movendo sem alarde,
com seu jeito manso
de provocar transformação...

Ao abrir a janela eu já imaginava,
por ter me misturado à chuva
e me feito parte da renovação,
que você surgiria junto com o sol pródigo,
com lindas flores nas mãos.
Aproximar-se-ia com seu jeito franco e meigo,
e confiante e forte e inteiro me levaria
pelo novo caminho que acabara de se abrir para nós...
E o que digo é o bastante, terra que sou,
permeável ao que me chega suave, nada demais.
Sublime é a natureza
que me mostra aonde vou !


Denise Alves de Toledo




O Mar Acaba na Areia



Isle of Vieques - Puerto Rico

Torquay, Vitoria - Australia

Misterioso em seu silêncio denso,
movimenta-se indefinidamente.
Não que disso precisasse, mas sensível por demais que é
ao menor sopro de vento.
Nas profundezas mantem os segredos
estáticos, inalterados, adormecidos no tempo.
Em sua superfície espelha a luz do sol e o céu
sem deixar, porem, que o penetrem;
ali apenas o reflexo
criando tonalidades em formas distorcidas.
No fundo cada vez mais denso...
Quanto mais fundo mais escuro.
Genioso em sua vulnerabilidade,
reage com fúria como se fosse frágil;
o som surdo que propaga, insano e cego
tenciona atingir o que é estável.
Impulsivo, logo volta à mansidão;
seu lugar é a solidão, seu mundo à parte.
Eterno guardião do desconhecido...
Quanto mais fundo mais bem guardado.
E a enganosa quietude, imensa e bela
acaba na areia para tornar-se parte.
Para dar lugar à paisagem clara
que escancara a vida em cores vivas!
Cede espaço à montanha, às árvores, ao chão, à terra;
entrega-se ao seu complemento, ao que lhe absorve.
Faz visível o que não precisa ficar escondido
e dá sentido ao que poderia ficar esquecido.
Como rendição à uma espécie de impotência
Doa-se inteiro, em forma de suave espuma;
dilui-se em consistência e retorna à sua solitária existência.
Quanto mais fundo mais denso...
Eterno senhor do silêncio.


Denise Alves de Toledo

03 maio 2009

Humildade.Lealdade.Procedimento.



Lembrando a linguagem da velha malandragem punk de tempos atrás : - "Certo, mano, gostei do proceder..." - o lema da Gaviões da Fiel, maravilhosa torcida do Corinthians e a maior organizada do país, retrata perfeitamente o espírito corintiano. Poderia ainda incluir carisma, não fosse ele uma característica natural nesse que é sem dúvida o mais amado e tambem o mais odiado time do Brasil.
Dificil ver um torcedor corintiano que não seja absolutamente apaixonado, orgulhoso, tanto na vitória quanto na derrota (eis aí um diferencial) por fazer parte dessa 'nação'- como se auto intitulam- sugerindo formar um povo à parte. Mais difícil ainda é ver um não-corintiano não odiá-lo. Odiá-lo. Não simplesmente rechaçá-lo...Desprezá-lo, então, ninguem o faz. Passa longe disso! Dá pra dizer que há um certo despeito, às vezes claro outras nem tanto, por tamanha capacidade de identificação com a 'massa'. No mínimo por isso.
Não sou apta a fazer nenhum tratado sociológico, filosófico ou mesmo apaixonado sobre futebol. Mas que o Corinthians é diferente, isso é inegável. Qualquer acontecimento alvinegro toma uma enorme dimensão, interessa tanto a seus torcedores quanto a seus adversários. É nítido que o Corinthians tem um 'algo mais' e isso não passa despercebido por seus rivais. Há muitos palmeirenses, são paulinos, que quase gastam mais tempo preocupados em atacar o 'todo poderoso' Timão do que com seus próprios times do coração. Sabemos como o ódio está próximo do amor...
O fato é que, verdadeiramente, não há outro time que provoque tamanha identificação com sua torcida. A mais popular. A dos pobres coitados, dos que não tem educação, dignidade ou mesmo dentes. Dos humildes. Dos bandidos, da favela, dos que vivem à margem do sistema. Dos sem-pátria, que criaram uma nação própria nesse universo tão particular e simbólico que é o futebol.



Não vou fazer aqui uma "ode" ao poderoso Corinthians 'das massas', pois não é necessário, a sua história mostra por si só o que é. E tambem porque resolvi minha tendência ao fanatismo(vou explicar porque a tinha) mantendo um providencial afastamento quando o tema é futebol.
Historinha pra contar eu tenho, afinal estou aqui pra isso. Tive um pai corintiano, no melhor estilo sofredor;contido, calado.
Fui com ele ao Morumbi algumas vezes, quando criança. Nada tão emocionante como entrar num Pacaembu lotado pra ver um Corinthians com Marcelinho Carioca no auge x Flamengo nos tempos de Romário, por exemplo. Entendo e acato o que dizia Nelson Rodrigues, algo como o tempo parar, no caso para ver o Timão entrar em campo. Uma sensação que transcende; mais do que físico, o negócio é 'meta-físico' mesmo!
O fato de ser mulher complica um pouco. Não é fácil estar na arquibancada- mesmo o mais uniformizada possível- sem sentir-se uma corça indefesa, irremediavelmente cercada por centenas de leões famintos! É a natureza do homem, fazer o quê...Há contextos que propiciam um retorno aos primórdios da civilização. Melhor evitar.
Mais seguro instalar-se na tribuna de honra do Morumbi com meu pai, que era amigo do presidente do clube na época. E participar daquele espetáculo a uma confortável distância.
Assistir ao jogo com meu pai era meio sem graça. Ele não xingava, não reclamava, - às vezes saía um 'seu burro' e só - eu percebia que ficava nervoso mas era muito, muito educado para usar de uma palavra mais chula na frente da filha, a quem fazia questão de levar para lhe fazer companhia (já que não teve filhos homens). Tampouco se excedia nas comemorações de vitoria. Eu, quietinha. Minha mãe, com a ironia que lhe é peculiar, juuuura que eu usava um bonezinho do 'curintia'. Lembro disso, não...
Ela já era mais visceral! Seu pai italiano a levava para ver jogos de basquete quando menina, década de 30. Palestra ItáliaxSão Paulo. Meu avô, é claro, torcia para o time de seus compatriotas mas minha mãe apontava para o tricolor: - Eu gosto desse!
E assim foi e é até hoje. Cresci ouvindo e vendo por tabela toda a programação esportiva que falava sobre o São Paulo. Pior: ela me levava ao Pacaembu à tarde, escondida de meu pai e junto com a empregada (não sei o porque da empregada na parada,talvez como cúmplice?...) para ver jogos do Campeonato Paulista, que aconteciam nesse horário durante a semana, naqueles tempos.
Estádio vazio, não era raro encontrarmos algum conhecido, tambem dando sua escapadinha...Lembro de um corretor de seguros vizinho nosso, que estava sempre lá; minha mãe dava um tchauzinho matreiro com ar de criança que está 'fazendo arte' e esquecia de tudo vendo o 'pó de arroz' jogar!
Pior ainda: ela queria porque queria que eu me casasse com um jogador de futebol(adivinha de que time!) e tinha o péssimo costume de ficar me indicando os que achava bonitinhos. Uma vez estávamos sentadas próximo ao time de juniores, que tambem assistia ao jogo. Ela não parava de apontar, animadamente, um garoto que, segundo ela, estava me paquerando...! Deus, eu não sabia onde me enfiar, nem são-paulina eu era, será que ela não percebia que eu estava sossegada e provavelmente o menino tambem??? Tempos depois viemos a dar muita risada lembrando disso, pois esse jogador tornou-se titular do time adulto e virou ídolo da torcida. Minha mãe, sem nunca perder a oportunidade dizia: -Viiiiiiu o que perdeeeeu...?
O jogador era o Sidnei, bonitinho mesmo, com seus dread locks no cabelo...
Meu pai, coitado, nada podia. Ali era onde ela se vingava de tudo que poderia ser motivo para tal. Submissa que era, frente a um machão autoritário como ele, quando o assunto era futebol a coisa se invertia, curiosamente. Ao voltar de um jogo em que o Corinthians perdia, alem de nada dizer meu pai ainda tinha que aturar o sarcasmo nem tão velado dela, que fixava um sorrisinho quase sádico no rosto, aumentava o som daqueles programas de rádio fazendo piadinha com os 'sofredores' e não trocavam palavra.
Quando era o São Paulo que perdia, sai de baixo! Ele se enfurnava no quarto e ela bufava pelos quatro cantos da casa, à espera de um incauto para descontar seu mau humor. Nesse dias nem a comida, sempre feita com capricho e competência, saía a contento. Esse ponto fraco, digamos, de minha mãe é conhecido e respeitado na família. Ninguem mexe com ela, ela surta e tudo certo. Ah, nem preciso dizer que ela NÃO PERDE UM JOGO DO CORINTHIANS!!! Tambem não dá pra assistir ao seu lado, ela torce tanto os braços(mandinga ou sei lá o que) a cada ameaça de gol que o Timão não ganha NUNCA ao se acompanhar um jogo na sua presença.
Ainda bem que eu não estava com ela quando derrotamos tão brilhantemente o São Paulo nas semi finais do Paulistão, semana retrasada...


Outra fase interessante, ainda que traumática, deu-se no ano de 2000 quando tudo, absolutamente tudo era Corinthians e Palmeiras! Minha vida tornou-se 'o clássico'...Parecia que o mundo era composto apenas por corintianos e palmeirenses. Um perigo, se fosse verdade.
Há uma lenda pitoresca sobre a origem da rivalidade entre esses dois clubes paulistas. Eram um só, formado por imigrantes espanhóis e italianos. Quando começou a se popularizar, pouco depois de sua criação, a colonia italiana- ironicamente maior quando da sua fundação- ressentiu-se e resolveu criar uma dissidência, o Palestra Itália, com a intenção de manter exclusividade a seus legítimos descendentes. Mais ironicamente ainda, vê-se que a torcida alvi-verde atualmente é composta em sua maioria por nordestinos legítimos...
Bem, naquele ano foram tantos jogos, tantas prorrogações, decisões por pênaltis, viradas espetaculares aos 48 do segundo tempo, brigas em campo e fora dele, provocações, expulsões...Nossa! Não havia um jogo normal. Corri sério risco de me tornar fanática. Leia-se louca.
Eu morava num prédio em que os apartamentos tinham varanda. Só haviam corintianos e palmeirenses entre os moradores, penso eu. Só podia. A cada decisão, a cada jogo, deflagrava-se uma guerra. De fogos, discussões aos berros, socos nas paredes, pulos atordoantes cujo impacto chegava pelo teto...As estruturas do prédio tremiam, juro. Quando um marcava um gol, de todos os apartamentos saía alguem gritando, xingando, urrando na linguagem típica e cortês do futebol, com o agravante da rivalidade insana entre os dois clubes. E as gritarias nas varandas, esse gentil diálogo prosseguiu por todos os jogos, o ano todo e parecia que não iria acabar nunca mais. Que sofrimento!
A partir 'daquilo' decidi não ver mais jogos nem fazer torcida em nenhum campeonato. Só sei que acabamos ganhando um título de campeão mundial que ninguem engole até hoje! Em se tratando de Corinthians simplesmente desconsideram a legitimidade da conquista. Normal. 'El pueblo es pobre', aquela conquista inédita era quase uma afronta.
Mas nada impede algumas sacadas geniais, como essa que trouxe Ronaldo, permitindo renascer o Fenômeno!
E como lhe caiu bem a preciosa camisa...Poucas vezes o vi tão vibrante, tão 'vestindo a camisa', nem na seleção. E magro. Só no Corinthians é que se vê essas coisas. Aqui elas acontecem diferente. Vai sempre alem. Inexplicável.
















No mais, justificada minha tendência ao fanatismo e o consequente afastamento do mundo da bola, o que posso dizer?!
Um time com esse nome, com uma torcida intitulada 'Fiel', cujo emblema é um timão, o branco e o negro nas cores, uma torcida organizada que se chama 'Gaviões' e com um hino emblematicamente belo...Dizer que o bom gosto está no meio da plebe resume!
E, pra finalizar, como pode um lema ser tão perfeito?...

HUMILDADE. LEALDADE. PROCEDIMENTO.
Praticamente tudo que busco na vida!

Como viram, aqui tem um bando de loucos...




Denise Alves de Toledo

02 maio 2009

O Pouco Caso do Acaso


Para que existem lembranças,
Do que saudades?
Que memória,
Onde lapsos,
Estilhaços de vida?...
Irrompem lancinantes
Qual sorriso,
Quando o abraço?
Azul de céu que ali ficou,estancado na imagem
Tão frágil,tão nada!
Como se houvesse tempo,
Acontecimentos,
Momentos que fizessem algum sentido
No instante seguinte ao que a sensação captou...
Passou.
O vento carregou, o ar dissipou
Desintegrou-se no espaço, no escuro se foi...
Sem direção e pra nunca mais
No trajeto infinito e caótico do acaso.
E o homem...
Ridículo em sua pequenez
Aqui fica cismando,
Querendo saber dos porquês
Daquilo que tanto faz como tanto fez!


Denise Alves de Toledo


Esse pequena catarse se deu quando os dias eram estranhos, o excesso de racionalidade esvaziava o sentido das coisas. Um monte de tudo compondo nada. Ora aqui, ora ali...Em nenhum lugar se estava. Vivia-se fragmentos de ser. Passou. Não mais que segundos durou. Já posso sentir, mais que falar por falar, pensar e pensar, fazer por fazer. Alguma ordem no caos...

23 abril 2009

Valentina





A "abusadora"!
Cuidado com ela...











Quadrinhos de Crepax - Valentina


Vivenciei hoje um exemplo clássico de sincronicidade. A saber, não entendo a sincronicidade como 'mágica do universo' a meu favor mas sim como uma possibilidade do inconsciente de dar significado ao fato de dois eventos ocorrerem ao mesmo tempo, de maneira aleatória.
Há alguns dias me veio à cabeça criar uma estória em que um bandido entrava em minha casa, onde instalava-se por um período e eu, habilidosamente revertia a situação transformando-o em meu escravo. Não propriamente sexual, se bem que poderia ter pensado nisso se ao descrevê-lo fisicamente ele correspondesse exatamente ao 'meu tipo'. E no quesito "fantasia" sabe-se que as mulheres são insuperáveis! Ao contrário de seus pares, os homens, não encontram em cada esquina o que lhes apraz.Tem que ser deus grego o idealizado, perfeição dos pés à cabeça; um músculo fora do lugar, um ombrinho tímido, um sorriso mal dado, um glúteo mais tristinho e chocho podem pôr tudo a perder. Assim é que é!
Pois bem, como meu tempo para escrever é curto ocorre que nem deu pra completar a estoria na minha imaginação e...
Aconteceu de verdade!!! De um jeito tão inusitado que achei melhor comentar aqui a realidade, apenas, economizando minha criatividade.
Chamo-a de Valentina, pois penso que a moça em questão merece o nome dessa personagem tão delirante, sedutora e um tanto sado-masoquista criada pelo sensacional arquiteto e ilustrador italiano Guido Crepax.
Aconteceu na Rússia, país pelo qual tenho especial simpatia, não só por sempre ter tendido à esquerda politicamente mas pelo seu povo, caloroso e receptivo num país tão frio. Há um forte machismo, é claro, na cultura russa- uma das mais diversificadas do mundo, aliás, com sua historia de czares da monarquia absolutista e do catolicismo ortodoxo- mas as mulheres sempre passam algo de poderoso no quesito sedução, quando são bonitas são MUITO bonitas, ainda que não exatamente nos padrões ocidentais de beleza.
Bem, de qualquer forma, há uns dois dias um 'bandido'(vou chamá-lo assim, é o charme da história)invadiu o salão de beleza em que trabalhava a desavisada e pressuposta vítima, provavelmente depois de ter, no exercício de sua preponderante racionalidade, calculado passo a passo sua ação, na intenção de apenas se apoderar de alguns objetos, humilde que era em seus desejos.
E de repente surge Valentina, treinada em artes marciais - puxa, ele não pensou nessa possibilidade! - rende o moçoilo e o tranca numa sala, usando como arma um secador de cabelos(quer coisa mais feminina?). Mesmo sem ter planejado nada como havia feito o bandidão e fazendo jus à frase 'a ocasião faz o ladrão', Valentina resolveu roubá-lo, ou melhor, tirar dele o que lhe interessava no momento, no melhor estilo 'dominadora'.
Esperta, providenciou Viagra para não correr riscos, obrigando o 'bandido' a ingeri-lo, já que a situação havia se invertido irremediavelmente e Valentina revelou ser ela a verdadeira criminosa da história! E fez o serviço direitinho, por uns dois dias abusou sexualmente do 'bandido', deixando contundidos os órgãos sexuais do rapaz, que dali saiu direto pro hospital. Aliás,desde a criação do Viagra o que se vê são homens reclamando mais do que satisfeitos, algo como feitiço que virou contra o feiticeiro, já que as mulheres estão tirando muito mais proveito da repentinamente inesgotável virilidade de seus parceiros - coisa a cada dia mais complicada sem essa ajuda extra,dado o grau de exigência feminina, o uso de drogas, o stress do dia-a-dia e tantos outros fatores físicos/psíquicos. Caiu 'como uma luva' ao universo feminino! Apesar de ter sido criado para resolver problemas dos homens e não para proporcionar mais prazer às mulheres o que tem acontecido é uma utilização inveterada e muitas vezes proposta pelas mulheres(isso quando não dão 'escondido' aos seus pares, em meio a drinks ou suquinhos dissimulados, creia), agradecidas pela oportunidade, digamos, de atenção ao seu prazer. Há um sério risco de se tornarem vorazes demais, devoradoras em potencial que são...
Quando teve alta o bandido foi direto dar queixa daquela que, de um só golpe, munida de seu secador transformou-se de vítima em sua algoz. Violeência sexual ou atentado ao pudor, não sei bem no que foi enquadrada.
Valentina não se deu por achada e no dia seguinte tambem foi dar queixa do 'bandido' por... Tentativa de assalto!
A policia russa está confusa, sem saber distinguir qual foi o crime e quem é o criminoso no ocorrido e muito mobilizada para achar uma conclusão...
De minha parte, depois de não ter contido boas risadas pela bizarrice da coisa, fico pensando se o que mobilizou a ação de Valentina foi uma energia sexual exacerbada, talvez carência, ninfomania ou o stress da situação tenha lhe provocado o desejo de fazê-lo seu objeto, partindo de impulsos de raiva que de qualquer maneira podem estar ligados às suas particularidades sexuais.
O que é indiscutível nesse 'assalto sexual' é o significado simbólico da atitude de Valentina: os tempos mudaram irreversivelmente, a realidade mostra a cada dia, ainda que através de fatos extremos como esse que a mulher está cada vez mais de verdade ocupando espaços e desempenhando papéis antes estritamente masculinos. Já saiu-se do discurso e as teorias feministas ficaram pra trás, definitivamente.
Os homens sentem-se perdidos, sem saber se acham bom ou ruim compartilhar esse poder com aquelas que sempre estiveram sob seu dominio, em quase todos os sentidos.
Na minha opinião, mulher que sou, o mais importante é o sentido de libertação que essa mudança traz.
O que cada um fará com isso já é uma questão individual, que dará a tônica do mal ou bem que poderá causar. Provavelmente, como tudo no ser humano, um tanto dos dois.
Coletivamente não tinha como isso não acontecer no mundo como é hoje. Representa uma evolução mais do que legítima que faz jus à condição feminina, de criadora e provedora, detentora da dádiva de dar à vida outro ser humano!
Agora, prever como continuará se desenvolvendo o que ficou tanto tempo subjugado no "inconsciente coletivo", como progredirá essa abertura a vivenciar socialmente seu lado 'masculino'- seu "animus", na linguagem junguiana - quais serão seus desdobramentos no comportamento feminino é impossivel dizer. Porque dependerá, ao mesmo tempo em que é agente de mudança, da evolução da sociedade como um todo se adaptando e renovando seus valores.
Valentinas vão continuar aparecendo, certamente. E haja Viagra!
Sem violência na parada, sabe que não é má idéia?!...

Denise Alves de Toledo
 
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